Como se tornar um projetista de fundações?

Curso de extensão universitária e estágio em empresa de projetos complementam a formação superior em engenharia civil, exigida para a profissão

Publicado em: 31/05/2022

Texto: Eric Cozza

foto de um projetista de fundações
Desafio do projetista de fundações é compatibilizar as cargas atuantes e os deslocamentos previstos com as características do solo de suporte. Acompanhamento da execução é muito importante (Foto: Shutterstock)

Os engenheiros de fundações devem somar a experiência acadêmica histórica, disponível nos livros, à sua vivência profissional e, assim, desenvolver a própria intuição a respeito do comportamento do solo em questões geotécnicas. Essa é uma recomendação dos mestres Antonio Dias Ferraz Nápoles e Milton Vargas, que constam entre os autores da primeira edição do livro “Fundações – Teoria e Prática”. 

A mecânica dos solos não é uma ciência exata e, como dizia o engenheiro austríaco Karl von Terzaghi, conhecido como o pai da engenharia geotécnica, o “bom senso e o exercício contínuo do espírito crítico” são essenciais para quem pretende atuar na área.

Não especificamos o solo. Temos que identificar, caso a caso, as suas características e procurar adaptar a obra a essa realidade
Eng. José Maria Camargo de Barros, professor e pesquisador do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo)

Por isso, assim como ocorre com o projetista de estruturas, o recém-formado não sai da universidade pronto para desenvolver um projeto de fundações. “A engenharia civil é muito vasta e, na faculdade, se aprende o básico em diferentes disciplinas”, afirma o engenheiro civil e professor José Maria Camargo de Barros, pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT). “A especialização pode ser obtida com a pós-graduação e a vivência prática no estágio e na própria experiência profissional”, completa.

UNIVERSO DA INCERTEZA

A grande diferença da engenharia de fundações para as demais especialidades e disciplinas relacionadas à construção civil é o fato de não se trabalhar com materiais de natureza e propriedades constantes e delimitadas. “Não especificamos o solo. Temos que identificar, caso a caso, as suas características e procurar adaptar a obra a essa realidade”, afirma Barros. Daí a importância de uma boa investigação geotécnica.

Não temos uma obra igual à outra. Não há receita de bolo e nem controle sobre o que vamos encontrar no terreno
Eng. Milton Golombek, diretor da Consultrix e presidente da Associação Brasileira de Empresas de Projetos e Consultoria em Engenharia Geotécnica (ABEG) 

“Como o solo é um material extremamente heterogêneo, a dificuldade de obter precisão é imensa, o que nos obriga a trabalhar com questões estatísticas e de probabilidade”, explica o professor e pesquisador do IPT. “Trabalhamos no universo da incerteza e, por isso, o conhecimento de geologia e os ensaios de campo e de laboratório são muito importantes”, conclui.

O engenheiro Milton Golombek é diretor executivo da Consultrix, empresa responsável pelo projeto de mais de 12 mil obras de engenharia de fundações em todo o Brasil. Ele destaca que a criatividade é fundamental para atuar na área. “Não temos uma obra igual à outra”, afirma o engenheiro. “Não há receita de bolo e nem controle sobre o que vamos encontrar no terreno”, completa. Tanto é assim que, segundo o engenheiro, a empresa sempre acompanha a execução das obras que projeta. E não aceita trabalhar de outra forma, por conta da responsabilidade envolvida.

COMPETÊNCIAS E HABILIDADES DESEJÁVEIS PARA O PROJETISTA DE FUNDAÇÕES

Mas quais são, afinal, os requisitos comportamentais e de formação para um jovem profissional que deseja ingressar na engenharia de fundações?

1) Conhecimento técnico

Você pode se comunicar bem, ser um bom gestor e ter liderança nata. Tudo isso é importante, mas de nada adianta sem a formação acadêmica e a especialização na área. Bagagem técnica é premissa. Portanto, fazer uma pós-graduação, mestrado ou curso de especialização na área é fundamental. Os escritórios de projeto costumam procurar estudantes de graduação, em geral, por volta do 4º ano de engenharia, para vagas de estágio. É ali que o aprendizado será mais prático e efetivo. Ser bom aluno, interessado no tema e manter um contato próximo com os professores das disciplinas relacionadas (geologia de engenharia, mecânica dos solos, obras de terra, fundações etc.) ajuda na identificação de oportunidades.

PÓS-GRADUAÇÃO E CURSOS DE ESPECIALIZAÇÃO

Escola de Engenharia de São Carlos – Departamento de Geotecnia
Instituto Mauá de Tecnologia – Fundações e Geotecnia em Obras Imobiliárias
Universidade de Brasília – Programa de Pós-Graduação em Geotecnia
Universidade Católica de Pernambuco – Geotecnia
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

É uma área bastante criativa, na qual você tem que usar muito a cabeça. O que nós vendemos é conhecimento e tempo
Eng. Milton Golombek, diretor da Consultrix 

2) Curiosidade profissional e capacidade de aprendizado

Se a mecânica dos solos não é uma ciência exata e nenhuma obra de fundações é 100% igual à outra, isso significa que o profissional dessa área passará a vida aprendendo coisas novas? Muito provável. Portanto, a curiosidade técnica, a vontade de pesquisar e aprofundar conhecimentos deve ser contínua. “É uma área bastante criativa, na qual você tem que usar muito a cabeça”, afirma Golombek. “O que nós vendemos é conhecimento e tempo.” Por isso, acompanhar com atenção os avanços tecnológicos da área no Brasil e no mundo é extremamente importante. Ficar obsoleto é fatal para perder negócios e oportunidades.

3) Habilidade com sistemas

Assim como ocorre com a engenharia estrutural, o uso de sistemas é muito importante na área de fundações e geotecnia. O conhecimento de um ou mais softwares pode ser um aliado na busca por oportunidades na área. Há sistemas para análise geotécnica e estabilidade de obras, dimensionamento de fundações e contenções, classificação de solos, cálculo de esforços etc. O pacote GEO5, os sistemas 2D e 3D da Plaxis, a linha da Limitstate e o SoFA são alguns exemplos, entre outros, a serem avaliados, dependendo da necessidade de cada empresa ou profissional.

As pessoas também perguntam: Como se tornar um projetista de estruturas?

4) Acompanhamento e interesse por normas técnicas

Com a NBR 6122 – “Projeto e Execução de Fundações” em mãos. É assim que a Consultrix costuma receber os novos profissionais que chegam ao escritório. “É a primeira coisa que entregamos”, revela Golombek. “É o mínimo que o profissional da área deve saber”. O texto especifica os requisitos a serem observados no projeto e execução de fundações de todas as estruturas da engenharia civil. Aponta, por exemplo, ações de investigação e análise geológica e geotécnica, transferências de cargas e esforços, níveis de segurança contra estados limites últimos (ELU) e características técnicas e de desempenho de fundações rasas e profundas. 

ALGUMAS NORMAS TÉCNICAS RELACIONADAS

NBR 6122 (03/2022) – Projeto e execução de fundações
NBR 8044 (11/2018) – Projeto geotécnico – Procedimento
NBR 6484 (10/2020) — Sondagem de simples reconhecimento com SPT — Método de ensaio
NBR 9288 (10/2014) – Emprego de terrenos reforçados
NBR5629 (10/2018) – Tirantes ancorados no terreno — Projeto e execução

5) Liderança e autoridade técnica

A segurança estrutural de uma obra depende da confiabilidade das informações contidas no projeto de fundações. Portanto, é uma área que demanda autoridade técnica e firmeza nas colocações, para que não haja dúvidas sobre o que deve ser feito. “O profissional deve passar confiança para os clientes e, em especial, para as equipes de obra”, afirma Golombek. “É preciso sujar o sapato no canteiro e ter voz de comando quando se trata das questões relacionadas às fundações”, completa. O diretor da Consultrix conta que já trabalhou com excelentes projetistas do ponto de vista técnico, mas que eram um pouco tímidos e precisaram desenvolver a habilidade de comunicação, para transmitir mais confiança para os clientes.

ASSOCIAÇÕES RELACIONADAS À ENGENHARIA DE FUNDAÇÕES E GEOTECNIA

Associação Brasileira de Empresas de Projetos e Consultoria em Engenharia Geotécnica (ABEG)
Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (ABMS)
Associação Brasileira de Empresas de Engenharia de Fundações e Geotecnia (ABEF)
Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental (ABGE)

Carreira: qual é a sua sugestão de tema para o nosso espaço dedicado aos profissionais de Engenharia Civil, Arquitetura e Construção?

Colaboração técnica

José Maria de Camargo Barros – Graduado em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo, possui mestrado e doutorado pela Poli-USP. É pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), consultor ad hoc da CAPES, FAPESP e FACEPE, professor titular da Escola de Engenharia Mauá e da FESP. É coordenador do curso de especialização em Segurança de Barragens do IPT e coordenador do curso de especialização de Fundações e Geotecnia em Obras Imobiliárias na Mauá.
Milton Golombek – Formado em Engenharia civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, possui pós-graduação em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas. Atual presidente da Associação Brasileira de Empresas de Consultoria Geotécnica (ABEG). Diretor executivo da Consultrix, empresa fundada há 67 anos, é consultor de fundações com mais de 50 anos de experiência. A empresa já projetou mais de 12 mil obras em todo Brasil: edifícios, pontes, indústrias, shopping-centers, viadutos, obras especiais etc.