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Como se tornar um projetista de estruturas?

Carreira exige formação superior em Engenharia Civil, pós-graduação ou cursos complementares e estágio em uma boa empresa de projetos

Publicado em: 15/03/2022

Texto: Eric Cozza

imagem de uma mão sobre um notebook e um fundo intercalado com o cenário de uma construção antiga
Vocação e capacidade de aprendizado no trabalho são imprescindíveis. Conhecimento técnico e habilidade com sistemas também são muito valorizadas (Foto: Shutterstock)

Se você não possui um perfil estudioso, analítico e detalhista, provavelmente, passará longe da carreira de engenheiro estrutural. Por outro lado, esse profissional também não precisa ser alguém fechado, que se comunica pouco e prefere trabalhar sozinho. A base técnica é imprescindível, mas saber se conectar com as pessoas e criar uma rede de relacionamento, tanto no ambiente acadêmico quanto no trabalho, são fatores de sucesso para os futuros projetistas de estruturas.

Se a legislação brasileira permite que, em tese, um jovem recém-formado em Engenharia Civil saia da faculdade diretamente para projetar estruturas e fundações, a realidade no mercado de trabalho das empresas de projeto costuma ser bem diferente.

“O engenheiro civil não sai da faculdade pronto para desenvolver um projeto estrutural”, afirma o engenheiro Ricardo França, sócio-diretor da França & Associados. “A formação continuada somada ao estágio em um bom escritório de projeto são fundamentais para os jovens profissionais”, completa.

Por isso, a capacidade de aprendizado no ambiente de trabalho é muito valorizada. “É um ofício que se aprende na prática”, afirma o engenheiro João Luis Casagrande, presidente do Conselho da Casagrande Engenharia & Consultoria. “Gostamos de formar profissionais internamente. Tanto que em nosso processo de seleção, que chega a ter 50 a 60 candidatos por vaga, o objetivo é escolher as melhores cabeças e verificar se sabem lidar com problemas e não testar conhecimentos específicos para a função”, complementa Casagrande.

Vale destacar que a maioria dos contratantes nessa área são pequenas e médias empresas de projeto e a média da remuneração paga aos profissionais não é privilegiada em relação a outros ramos da Engenharia Civil e menos ainda se comparada com outras áreas que também empregam engenheiros, como o mercado financeiro, por exemplo. Daí a vocação ser tão importante.

Como se preparar, então, para entrar nessa carreira tão difícil, trilhada por alguns dos melhores alunos da Engenharia Civil? Quais são os pré-requisitos e as habilidades valorizadas pelos escritórios de projetos na hora de selecionar os engenheiros de estruturas?

Competências e habilidades do engenheiro estrutural

1) Capacidade de aprendizado

Não é necessário e nem é esperado pelos contratantes chegar 100% preparado, do ponto de vista técnico, para estagiar em uma empresa de projeto ou consultoria estrutural. Os dirigentes dos escritórios são praticamente unânimes ao afirmarem que preferem buscar jovens que possam ser formados dentro da cultura da empresa.

O que é demandado – aí sim, de forma enfática – é a capacidade de aprendizado. Isso vale tanto para as normas técnicas exigidas no exercício da função, quanto para os programas (software) utilizados pela empresa, assim como para novas e relevantes tendências na área, como o BIM (Building Information Modeling). Ou seja, o jovem vai suar para entrar e muito mais para não sair.

Os sistemas procuram evitar grandes besteiras, mas não conseguem brecar tudo
Eng. Ricardo França, diretor da França e Associados

2) Conhecimento técnico

Se a faculdade de Engenharia Civil não é suficiente para formar um bom engenheiro de estruturas, complementar a formação acadêmica é algo mandatório para os futuros projetistas nessa área. Pode ser uma pós-graduação ou mestrado, cursos específicos de formação continuada ou até uma atualização específica no Exterior. Algumas das melhores escolas brasileiras possuem boas opções. Veja alguns exemplos de programas específicos:

Universidade Federal do Rio Grande do Sul;
Universidade Federal de Minas Gerais
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo,
Universidade Estadual de Campinas

Normas técnicas devem estar no sangue dos projetistas de estruturas. Fornecem os requisitos e a padronização necessária para o trabalho. São imprescindíveis
Eng. João Luis Casagrande, da Casagrande Engenharia & Consultoria

3) Habilidade com sistemas

Os avanços dos sistemas informatizados contribuíram para facilitar e tornar um pouco mais homogênea a qualidade dos projetos estruturais. Não substituem, entretanto, a experiência e a capacidade técnica do projetista. “Os sistemas procuram evitar grandes besteiras, mas não conseguem brecar tudo”, alerta França. De qualquer forma, são ferramentas fundamentais no cotidiano dos projetistas. O aprendizado se dará durante o trabalho e o software pode variar de acordo com a tipologia do projeto, mas trabalhar com sistemas como, por exemplo, o TQS, Alto QI, SAP 2000, Cypecad, Revit Structure ou Tekla Structures será vital ao longo da carreira.

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4) Acompanhamento e interesse por normas técnicas

Atuar como engenheiro estrutural significa viver com algumas normas técnicas ‘debaixo do braço’, ou seja, ter conhecimento sobre os textos, monitorá-los e acompanhar eventuais mudanças de forma bastante disciplinada. Alguns exemplos:

NBR 6118 – Projeto de estruturas de concreto
NBR 6120 – Ações para o cálculo de estruturas de edificações
NBR 8800 – Projeto de estruturas de aço e de estruturas mistas de aço e concreto de edifícios
NBR 6123 – Forças devidas ao vento em edificações
NBR 6122 – Projeto e execução de fundações

“Normas técnicas devem estar no sangue dos projetistas de estruturas. Fornecem os requisitos e a padronização necessária para o trabalho. São imprescindíveis”, afirma Casagrande. A ABECE (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural) mantém um convênio com a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) para permitir consultas dos profissionais associados a um conjunto de 107 normas técnicas relacionadas ao trabalho do projetista de estruturas.

Incentivamos e cobramos, por exemplo, que nossos e-mails sejam bem redigidos, com cuidado. A comunicação oral, escrita e o relacionamento são muito importantes em nosso trabalho
Eng. Ricardo Kerr, da Gepro Engenharia

5) Capacidade de comunicação e relacionamento

Há uma ideia preconcebida de que os engenheiros de estruturas são pessoas tímidas e com dificuldade de comunicação. Estereótipos à parte, a capacidade de se comunicar com projetistas de outras disciplinas, arquitetos e contratantes é cada vez mais valorizada. “Incentivamos e cobramos, por exemplo, que nossos e-mails sejam bem redigidos, com cuidado. A comunicação oral, escrita e o relacionamento são muito importantes em nosso trabalho”, afirma o engenheiro Ricardo Kerr, da Gepro Engenharia.

Os profissionais recomendam a imersão no ambiente acadêmico das escolas de Engenharia Civil e a participação em eventos técnicos e associações setoriais para aumentar a rede de contatos. “Nosso segmento funciona bastante por indicações, principalmente nos pequenos e médios escritórios”, revela Keer. “Por isso, o relacionamento é muito importante.”

Alguns exemplos de entidades setoriais relacionadas à engenharia estrutural:
ABECE – Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural 
ABEF – Associação Brasileira de Empresas de Engenharia de Fundações e Geotecnia 
ABPE – Associação Brasileira de Pontes e Estruturas 
CBCA – Centro Brasileiro da Construção em Aço 
IBRACON – Instituto Brasileiro do Concreto

Carreira: qual é a sua sugestão de tema para o nosso espaço dedicado aos profissionais de Engenharia Civil, Arquitetura e Construção?

Colaboração técnica

João Luis Casagrande – Engenheiro Civil pela Universidade Santa Úrsula com ênfase em Estruturas. Presidente do Conselho da Casagrande Engenharia & Consultoria, com mais de 400 projetos no Brasil e no Exterior. Diretor de Pontes e Estruturas da ABECE (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural).
Ricardo França – Graduado em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, possui mestrado e doutorado também pela Poli-USP, onde foi professor na graduação e pós-graduação. É diretor da França e Associados Projetos Estruturais. Possui vasta e notória experiência em estruturas, principalmente sobre pilares, efeitos de segunda ordem e concreto armado.
Ricardo Kerr – Engenheiro Civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo com diversos cursos de pós-graduação. Proprietário da Gepro Engenharia e consultor na área de projetos de estruturas, já atuou em mais de 2 mil projetos de obras novas, reforços de estruturas, emissão de pareceres técnicos e laudos. É vice-presidente de Marketing da ABECE (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural).