Como se tornar um bom comprador na construção?

Profissional de suprimentos deve reunir competências técnicas, negociais e de gestão para ser decisivo no resultado dos empreendimentos

Publicado em: 04/04/2022

Texto: Eric Cozza

Pessoa de terno em uma mesa. A imagem está com transparência, de modo que, através do terno, é possível ver um canteiro de obras
Gestor de compras eficiente deve aliar a busca pelo melhor preço com transações seguras, transparentes e alinhadas com a estratégia da construtora (Foto: Shutterstock)

Um especialista que conhece muito bem o que compra e quem fornece. Que trabalha de forma integrada com as demais áreas da construtora e busca os melhores resultados para os empreendimentos. Assim pode ser definido, em poucas palavras, o perfil desejado pelas empresas para o profissional de suprimentos na construção civil.

Nem sempre foi assim. Até a década de 1990, em muitas construtoras, o comprador era visto como um mero tirador de pedidos, alguém sem conhecimento técnico, despreparado para atuar nas obras e que deveria permanecer no escritório em uma função, em geral, renegada pelos considerados mais competentes.

Só havia um problema – gravíssimo – nessa mentalidade: comprar mal, ou seja, ter uma gestão inadequada de suprimentos pode fazer muita diferença no resultado dos empreendimentos e, portanto, reduzir ou até transformar lucro em prejuízo para as construtoras.

Com o fim do ciclo inflacionário brasileiro – época na qual a habilidade no mercado financeiro era mais relevante do que a operação das obras – isso ficou ainda mais claro. Desde então, a área de compras tem sido cada vez mais valorizada.

Compreender o conceito de ESG e saber como manter uma cadeia de suprimentos sustentável nas esferas ambiental e social é um grande desafio para os profissionais da área
Angel Ibanez, diretor de Suprimentos e Sustentabilidade da Tegra Incorporadora

Visão holística e ESG

Não se trata apenas de comprar mais barato. O desafio é comprar certo. E, para isso, o profissional de suprimentos deve conciliar habilidades técnicas, gerenciais e negociais com uma visão holística, direcionada para o negócio como um todo e não apenas para o departamento de compras.

Por isso, as exigências de ESG (environmental, social and governance, em inglês, ou ambiental, social e governança, em português) prometem alterar de forma acentuada a rotina desses profissionais, principalmente nas grandes empresas, cada vez mais pressionadas por instituições financeiras, organismos internacionais, acionistas e investidores para se preocuparem com tais dimensões do negócio.

É importante que o profissional de suprimentos tenha uma formação técnica para que possa, além de analisar o escopo a ser contratado, verificando possíveis falhas de especificação, também consiga avaliar as propostas recebidas dos fornecedores, evitando omissões e posteriores pleitos de aditivos
Enga Tathyana Moratti, professora da Universidade São Judas Tadeu

“Compreender o conceito de ESG e saber como montar uma cadeia de suprimentos sustentável e adequada nas esferas ambiental e social é um grande desafio para os profissionais da área”, afirma Angel Ibanez, diretor de Suprimentos e Sustentabilidade da Tegra Incorporadora. “Quem não se adaptar poderá simplesmente ser atropelado nesse processo”, conclui o executivo.

Isso inclui, por exemplo, rastrear e monitorar todo o processo de fornecedores de materiais e serviços para evitar casos – mesmo que praticados por terceiros aparentemente distantes na cadeia de produção – de trabalho análogo à escravidão ou uso de matérias-primas não certificadas do ponto de vista ambiental.

Mas, afinal, quais são os requisitos necessários para os profissionais que atuam na área de suprimentos das construtoras?

COMPETÊNCIAS E HABILIDADES DO COMPRADOR DA CONSTRUÇÃO

1) Formação técnica é um diferencial 

É possível encontrar no mercado bons profissionais da área sem formação técnica. Muitos comprovaram, na prática, competência para a função. A graduação em engenharia civil, arquitetura ou tecnologia de construção, entretanto, constitui um diferencial para os jovens. Facilita a integração da gestão de suprimentos com as áreas técnicas, de produção e qualidade, por exemplo. Também ajuda no conhecimento sobre o que se vai comprar ou contratar e o melhor entendimento sobre os projetos e as obras.

“É importante que o profissional de suprimentos tenha uma formação técnica para que possa, além de analisar o escopo a ser contratado, verificando possíveis falhas de especificação, também consiga avaliar as propostas recebidas dos fornecedores, evitando omissões e posteriores pleitos de aditivos”, afirma a Enga Tathyana Moratti, professora da Universidade São Judas Tadeu.

Ter indicadores relevantes nessa área se tornou necessário até para haver uma previsão de lucro ou prejuízo das construtoras
Enga Tathyana Moratti, professora da Universidade São Judas Tadeu

2) Conhecer o que se compra e de quem 

O gestor de suprimentos precisa conhecer as condições de fornecimento e entrega, a logística relacionada e ter garantia da qualificação e idoneidade do fornecedor. Deve estar envolvido desde a homologação técnica e financeira das empresas até a avaliação de desempenho dos insumos, serviços e fornecedores. Isso implica conhecer as tecnologias, produtos e processos dos canteiros de obras.

Antever e se preparar, por exemplo, para uma crise de abastecimento ou uma alta repentina dos preços de um determinado insumo também é fundamental. Para isso, é necessário monitorar até os fornecedores dos fornecedores, ou seja, toda a cadeia de suprimentos, chegando até as matérias-primas chaves para a construtora.

3) Ser ético e transparente 

 Fique do lado do compliance. A palavra tem origem no verbo em inglês to comply, e significa “agir de acordo com uma regra”. Designa também a área nas empresas responsável por zelar pela conformidade com as leis e regulamentos vigentes, incluindo aí definidos pela própria política da empresa.

A área de suprimentos é sempre mais sensível nesse aspecto, pois é responsável por estabelecer as relações com os fornecedores. Desenvolver, divulgar e manter um código de ética e conduta e monitorar, de forma transparente, todas as transações são medidas que auxiliam os profissionais nesse sentido. Automatizar os processos da área, eliminando trabalhos manuais, também ajuda a diminuir a ocorrência de eventuais fraudes ou irregularidades.

O processo de digitalização do setor, por exemplo, ganha cada vez mais força no setor e há muitas ferramentas que podem ser incorporadas ao nosso trabalho
Angel Ibanez, diretor de Suprimentos e Sustentabilidade da Tegra Incorporadora

4) Criar e manter indicadores 

 Um bom gestor de suprimentos não deve dispensar o uso de indicadores. Os mais utilizados na área estão, em geral, relacionados ao prazo, saving (valor que o comprador consegue reduzir em uma aquisição ao negociar o pedido), custo evitado, desempenho dos fornecedores e SLA – do inglês service level agreement ou acordo de nível de serviço, em português, que tem como objetivo garantir, por meio contratual, a qualidade e a quantidade de serviços contratados.

Vale ressaltar que manter indicadores facilita o compartilhamento de informações do gestor da área para os demais departamentos. “A área de suprimentos vem se especializando em gerar informações que facilitam a tomada de decisão da alta direção”, revela Tathyana. “Ter indicadores relevantes nesta área se tornou necessário até para haver uma previsão de lucro ou prejuízo das construtoras”, conclui.

As pessoas também perguntam: Como se tornar um bom orçamentista de obras?

5) Atuar de forma estratégica e integrada com as demais áreas da empresa 

 O isolamento costuma ser muito prejudicial para a área de compras. Por isso, cabe ao gestor ser comunicativo, saber expressar as suas ideias e defendê-las com clareza para o restante da companhia. Se o trabalho não for visível para a empresa, como saber se está respondendo à estratégia definida pela direção? Portanto, é preciso aprender a se relacionar com as áreas técnicas, de produto, comercial, financeira, jurídica etc.

“Hoje, mais importante do que saber negociar – algo que se domina com o tempo – é estar atento às novas tecnologias e processos disponíveis no mercado e saber trazer isso para dentro da empresa, conversando com as demais áreas”, afirma Ibanez. “O processo de digitalização do setor, por exemplo, ganha cada vez mais força no setor e há muitas ferramentas que podem ser incorporadas ao nosso trabalho”, completa o engenheiro.

Carreira: qual é a sua sugestão de tema para o nosso espaço dedicado aos profissionais de Engenharia Civil, Arquitetura e Construção?

Colaboração técnica

Angel Ibanez – Engenheiro civil formado pela Escola de Engenharia Mauá, possui larga experiência no setor da construção e incorporação. Atuou em importantes empresas, como a Método, Gafisa, Tenda, PDG e Alphaville, nas quais liderou processos de restruturação e formação de áreas de suprimentos. Atualmente, é diretor de Suprimentos e Sustentabilidade da Tegra Incorporadora.
Tathyana Moratti – Graduada em Engenharia Civil pelo Centro Universitário da FEI, possui mestrado em Engenharia Civil pela Universidade de São Paulo, além de pós-graduação em Logística na FEI e em Gestão de Conflitos pela FATRI. É professora da Universidade São Judas Tadeu no curso de Engenharia Civil e atuou por mais de 15 anos com gestão de suprimentos em empresas nacionais e multinacionais, tais como Tegra, Even, Mutual e RMA.