Banner AECweb
menu-iconPortal AECweb

Qual deve ser o papel dos arquitetos na gestão das obras?

Distanciamento dos profissionais de arquitetura dos canteiros é prejudicial para os empreendimentos. O conhecimento de quem projetou e pensou em soluções antes da execução não deve ser dispensado em nenhuma etapa. Confira 5 aspectos relevantes

Publicado em: 12/12/2022

Texto: Eric Cozza

foto de uma pessoa segurando uma espátula e uma tabua com argamassa líquida em cima
O custo de qualquer empreendimento começa a ser definido nos primeiros passos da sua concepção. Se o valor das decisões arquitetônicas é tão relevante, quem melhor do que o próprio arquiteto para zelar por tal aspecto no acompanhamento da execução? (Imagem: Shutterstock)

O profissional brasileiro que visita obras no Exterior, principalmente nos países desenvolvidos, costuma se surpreender com a frequência com que é recebido por arquitetos à frente dos canteiros.

O que poderia ser encarado como algo absolutamente natural soa um pouco diferente porque contrasta com a realidade dos empreendimentos no Brasil, onde a presença do projetista de arquitetura não é tão comum nas obras de maior porte.

Há quem coloque a responsabilidade disso na formação dos arquitetos em nosso País, que seria mais voltada para aspectos projetuais e menos para os relacionados à execução. Outros falam ainda em uma possível cultura de ‘ateliê’, que estimularia os profissionais da arquitetura a pensar em sua atividade sob uma ótica mais artística, social e humanista, deixando de lado questões consideradas pragmáticas, como as ligadas ao custo e aos sistemas construtivos.

“Precisaríamos ter mais visitas técnicas em canteiros e programações de cunho prático, para colocar os estudantes em contato com as questões do cotidiano das obras”
Arq. Flavio Nese

RESSALVAS E CONFLITOS

Muitos arquitetos rebatem tais visões com o argumento da baixa remuneração, que não prevê os honorários necessários para realizar o acompanhamento ou a gestão das obras. Apontam também preconceito de alguns engenheiros civis em relação à capacidade técnica dos arquitetos, ressaltando que existem profissionais de arquitetura com diferentes perfis e habilidades, o que inclui pessoas com ampla expertise em tecnologia do ambiente construído.

Eventuais conflitos à parte, poucos discordam que o distanciamento dos profissionais de arquitetura dos canteiros é prejudicial para os empreendimentos. O conhecimento de quem projetou e pensou em soluções antes da execução não deveria ser dispensado em nenhuma etapa. Não é, porém, o que se costuma observar no mercado, principalmente nas obras de maior porte.

“Nosso trabalho vai muito além do concreto, do cimento ou do alumínio. Devemos contribuir também com novos conceitos e soluções para os problemas das cidades”
Arq. Jose Luiz Lemos

Duas ressalvas são importantes antes de iniciar qualquer debate sobre o assunto. A primeira diz respeito à legislação: os arquitetos podem ser responsáveis técnicos pela execução. Estão, portanto, habilitados tanto para o acompanhamento quanto para a gestão efetiva das obras. Nesse campo, não há impedimento ou restrição, com exceção apenas dos casos que envolvem questões alheias à capacidade técnica desses profissionais como, por exemplo, problemas estruturais, que demandam o conhecimento específico de um projetista especializado.

A segunda ressalva diz respeito à realidade das pequenas obras, pulverizadas em todo o País. Aí, sim, é muito comum observar a presença dos arquitetos na condução técnica e financeira dos empreendimentos, seja em reformas ou construções residenciais e comerciais. A ausência da qual se trata aqui é mais observada nos empreendimentos de maior porte, principalmente quando há uma construtora envolvida com a execução.

Levantamos aqui 5 aspectos relacionados ao assunto, contando com a visão de arquitetos atuantes no mercado.

1) FALTA DE CULTURA DE PROJETO E PLANEJAMENTO

O problema aqui não é exclusivo da arquitetura ou da construção civil, mas do País como um todo. “No Brasil, infelizmente, se estuda, se contrata e se executa tudo de última hora. Não há cultura de planejamento”, afirma o Arq. Flavio Nese. “Não temos foco na gestão, somente na execução, que sofre uma série de problemas por conta disso”, completa.

Tal problema fica ainda mais evidenciado quando clientes estrangeiros contratam obras no Brasil e agem de forma diferente. O arquiteto Jose Luiz Lemos, sócio-diretor da aflalo/gasperini arquitetos, relata um pouco da experiência no projeto e execução de uma escola norte-americana em São Paulo.

“Fizeram questão de incluir no escopo o acompanhamento de obra e uma checagem intensa entre o projetado e o executado”, ressalta. “Como o projeto foi desenvolvido em BIM, promovíamos rotineiramente uma comparação fotográfica entre a obra real e o modelo tridimensional, facilitando a detecção de problemas”, completa.

2) LACUNAS NA FORMAÇÃO TÉCNICA

A formação do arquiteto no Brasil é ampla e reúne elementos das áreas de humanas e de exatas. Os temas tratados vão desde aspectos antropológicos, sociológicos e econômicos relacionados ao ambiente construído até o desenvolvimento de projetos gráficos, de objetos e de identidade visual.

Materiais, técnicas e sistemas construtivos são sempre abordados, mas a ênfase nesses aspectos varia um pouco conforme a escola e, em especial, de acordo com o interesse específico de cada aluno. “Precisaríamos ter mais visitas técnicas em canteiros e programações de cunho prático, para colocar os estudantes em contato com as questões do cotidiano das obras”, defende Nese.

Lemos chama a atenção para a necessidade de conciliar os dois mundos: a relevância de trabalhar com processos e preocupações de ordem técnica e de custos, mas sem deixar de lado os aspectos humanos, sociais e urbanísticos. “Nosso trabalho vai muito além do concreto, do cimento ou do alumínio. Devemos contribuir com novos conceitos e soluções para os problemas das cidades”, pondera.

A Escola Politécnica e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo possuem, desde 2004, um convênio de intercâmbio de alunos das graduações de engenharia e arquitetura. Isso possibilita que, ao se formar, o estudante receba, além do diploma na área principal, um certificado complementar do outro curso. A chamada dupla formação permite conciliar o conhecimento em cálculo e tecnologias dos materiais com uma consciência estética e de volumetria.

“Em relação ao custo total da obra, fica nítido que os honorários dos arquitetos diminuíram ao longo do tempo. Cabe à categoria mostrar força e se impor para exigir maior relevância nesse aspecto”
Arq. Jose Luiz Lemos

3) ATELIÊ versus EMPRESA?

A formação ampla e humanista dos arquitetos se reflete também na forma como se organizam os escritórios ou as empresas nessa área. Mesmo profissionais consagrados, com diversos arquitetos trabalhando sob a sua liderança, ainda carregam dúvidas sobre o caráter empresarial da atividade. Segue forte para muitos a cultura do ateliê, um local historicamente dedicado ao trabalho de artistas ou artesões.

“Há espaço para as duas visões, os dois modelos”, acredita Nese. “A nomenclatura não importa muito, desde que se desenvolva um bom trabalho.” Lemos concorda e cita o exemplo da própria aflalo/gasperini arquitetos, que sempre posicionou como uma companhia. “Nossa cultura é de uma empresa, com processos e ISO 9000, mas agregando a visão humana como diferencial”. Seja empresa ou ateliê, a proximidade com os canteiros será sempre bem-vinda e relevante para o sucesso dos empreendimentos.

As pessoas também perguntam:
Como preparar o currículo e o portfólio de um arquiteto?

4) PAPEL DO ARQUITETO NA OTIMIZAÇÃO DE CUSTOS

O custo de qualquer empreendimento começa a ser definido nos primeiros passos da sua concepção. A própria volumetria do projeto arquitetônico já define aspectos relevantes em relação, por exemplo, à parte estrutural, que dificilmente poderão ser alterados posteriormente sem forte impacto no orçamento.

Há um livro tradicional a respeito no Brasil: “O Custo das Decisões Arquitetônicas”, do Arq. Juan Luis Mascaró. Outra publicação interessante relacionada é “Custo sem Susto – Projetando por Objetivos – Um Método para a Gestão do Custo de Edificações”, de autoria da Enga. Cilene Marques Gonçalves e do Eng. Luiz Henrique Ceotto.

“É simplesmente impossível dissociar a visão de custo da atividade projetual”, afirma Nese. Fica a reflexão: se o custo das decisões arquitetônicas é tão relevante, quem melhor do que o próprio arquiteto para zelar por tal aspecto no acompanhamento da execução?

“Não sabemos nos ‘vender’ da maneira correta. Temos que fazer o cliente entender o valor da nossa presença durante a execução. Se não existe o hábito dessa contratação, não há demanda e, portanto, faltará mercado para o acompanhamento ou gerenciamento de obras pelos arquitetos”
Arq. Flavio Nese

5) REMUNERAÇÃO INADEQUADA

Muitos arquitetos respondem às críticas sobre a ausência nos canteiros de obras com o argumento da baixa remuneração, ou seja, a falta de previsão do acompanhamento ou a gestão das obras no cálculo dos honorários. “Em relação ao custo total da obra, fica nítido que os honorários dos arquitetos diminuíram ao longo do tempo”, afirma Lemos. “Cabe à categoria mostrar força e se impor para exigir maior relevância nesse aspecto”, complementa o sócio da aflalo/gasperini arquitetos.

“Não sabemos nos ‘vender’ da maneira correta”, dispara Nese. “Temos que fazer o cliente entender o valor da nossa presença durante a execução. Se não existe o hábito dessa contratação, não há demanda e, portanto, faltará mercado para o acompanhamento ou o gerenciamento de obras pelos arquitetos”, conclui.

Carreira: qual é a sua sugestão de tema para o nosso espaço dedicado aos profissionais de Engenharia Civil, Arquitetura e Construção?

Colaboração técnica

Arq. Flavio Nese – Graduado em Arquitetura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, possui mestrado em tecnologia na construção de edifícios pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT). Sócio-diretor da Nese Arquitetura e Consultoria, é gestor de projeto, palestrante e professor de especialização e pós-graduação de cursos de arquitetura. É autor dos livros “Manual Técnico de Alvenaria Estrutural” e “Como Ler Plantas e Projetos – Guia Visual de Desenhos de Construção.”
Arq. Jose Luiz Lemos –Sócio-diretor da aflalo/gasperini arquitetos, formou-se em arquitetura e urbanismo pela Universidade Mackenzie e tem mestrado pela Architectural Association, em Londres. É responsável, junto com os demais sócios, pela área de conceituação e supervisão do desenvolvimento de projetos no escritório, que variam entre as mais diversas escalas e usos, de projetos residenciais e institucionais a complexos de uso misto e masterplans.