Como se tornar um profissional de planejamento de obras?

Experiência prática em canteiros e cursos específicos são importantes para complementar a formação de engenheiros civis, arquitetos e técnicos interessados em atuar na área. BIM e lean construction são tendências relevantes

Publicado em: 28/11/2022

Texto: Eric Cozza

foto de uma pessoa segurando uma espátula e uma tabua com argamassa líquida em cima
Profissional que pretende atuar na área deve conhecer e estudar conceitos como o ciclo PDCA, estrutura analítica do projeto (EAP), diagrama de rede, teoria do caminho crítico, curva S, método de valor agregado e linha de balanço. (Foto: Shutterstock)

Imagine só formular o plano de como construir uma obra, com apenas alguns projetos e especificações técnicas em mãos? Como definir a relação de atividades para cumprir o escopo e a lista de recursos necessários para executar o empreendimento dentro do prazo contratual e do custo estimado? Esses são alguns desafios dos profissionais de planejamento de obras.

Agora, imagine fazer tudo isso em um País onde planejar está longe de ser uma obsessão nacional e onde obras costumam ser iniciadas sem que os projetos estejam finalizados. A missão se torna muito mais complicada.

O problema é que a deficiência do planejamento pode acarretar consequências desastrosas para um empreendimento e para a construtora responsável pela execução. Atrasos e estouro dos custos costumam geram conflitos que, muitas vezes, acabam em prejuízos e litígios judiciais.


No livro “Planejamento e Controle de Obras, o autor Aldo Dórea Mattos define planejar como “pensar, aplicar, controlar e corrigir a tempo”. E destaca que “planejar uma obra grande ou uma pequena reforma segue o mesmo roteiro – o que muda é a escala.”

“Infelizmente, ainda vemos algumas pessoas despreparadas, que acreditam que a função delas é apenas atualizar o cronograma, sem uma visão crítica e propositiva sobre o trabalho”
Enga. Ana Meneghetti

PRINCÍPIOS E FORMAÇÃO

“O planejamento é como o roteiro de um filme ou a partitura de uma orquestra”, afirma o Arq. João Petrocelle, diretor associado da Turner e Townsend. “É a lei de como funcionará a obra”, completa. Por isso, entender como ela se desenrola, na prática, é fundamental. Além da formação em engenharia civil, arquitetura ou tecnologia, um dos primeiros passos para os interessados em atuar na área é trabalhar em um canteiro.

“Não dá para planejar, controlar e tentar melhorar algo que não se conhece”, afirma Petrocelle. “Considero até perigoso sair estudando o assunto sem uma experiência prática, como executor”. Passada a etapa de conhecimento da dinâmica das obras, aí sim, estudar metodologias e disciplinas como o gerenciamento de projetos constitui um passo relevante.

Costuma ser muito recomendado pelos profissionais da área o PMI (Project Management Institute), que oferece a certificação Project Management Professional (PMP ou profissional de gerenciamento de projetos, em português). Petrocelle sugere também cursos de pós-graduação ou MBA voltados para a área de administração de empresas ou engenharia de produção. “Ajuda a ter uma visão mais sistêmica, algo bastante necessário para o planejador”, recomenda o arquiteto, que também é professor de planejamento de obras no Instituto Mauá de Tecnologia.

““A lean construction aproxima o planejamento da execução e parte não mais de uma previsão, mas do real. Procura entender como os processos se desenvolvem e tenta melhorá-los, escutando quem está na linha de frente”
Arq. João Petrocelle

METODOLOGIAS E LEAN CONSTRUCTION

A área de planejamento trabalha com algumas técnicas, ferramentas e metodologias. Por isso, o jovem profissional que aspira atuar na área precisa conhecer e estudar conceitos como o ciclo PDCA, estrutura analítica do projeto (EAP), diagrama de rede, teoria do caminho crítico, curva S, método de valor agregado e linha de balanço.

“Infelizmente, ainda vemos algumas pessoas despreparadas que acreditam que a sua função é atualizar o cronograma, sem uma visão crítica e propositiva sobre o trabalho”, afirma a Enga. Ana Meneghetti, consultora e professora na área.

A lean construction talvez tenha sido, nos últimos tempos, uma das metodologias que mais impactou os profissionais da área. Baseada nos princípios do Sistema Toyota de Produção, tem como meta aumentar a produtividade, criando um fluxo contínuo de produção, com menos perdas e paralisações, eliminando atividades que não geram valor.

“Na metodologia tradicional, o planejamento era visto como algo mais importante do que a construção”, afirma Petrocelle. “A lean construction aproxima o planejamento da execução e parte não mais de uma previsão, mas do real. Procura entender como os processos se desenvolvem e tenta melhorá-los, escutando quem está na linha de frente”, complementa.

SISTEMAS E BIM

Existem várias ferramentas e softwares empregados pelos profissionais de planejamento de obras. Os especialistas concordam que conhecer os sistemas é fundamental para atuar na área. O MS Project talvez seja o programa mais conhecido e utilizado no Brasil. O Primavera também é bastante conceituado. Muitos utilizam planilhas Excel ou outras opções disponíveis no mercado, como o Primus Krono e o Construpoint, que integra times de planejamento, qualidade e engenharia das obras em uma única plataforma.

O avanço do Building Information Modeling também está impactando os profissionais da área. Uma das dimensões do BIM, o 4D, refere-se exatamente ao planejamento da obra. “Facilita muito, por exemplo, a visualização da execução no futuro, dali a 30 ou 60 dias, por exemplo”, afirma a engenheira Ana. “O pessoal de planejamento ainda está aproveitando pouco tal possibilidade. Estamos engatinhando.”

Para Petrocelle, uma das grandes vantagens do BIM 4D é a oportunidade de mostrar, em 3D, como a obra vai evoluir para a equipe de execução. Isso facilita a participação desses profissionais no planejamento. “E fazer o trabalho junto com o pessoal de campo aumenta as chances de nossas previsões se concretizarem”, ressalta.

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PERFIL DO PLANEJADOR

Mas, afinal, quais são os pré-requisitos e as habilidades valorizadas pelo mercado na hora de selecionar os profissionais de planejamento de obras?

1) Curiosidade e busca pelo conhecimento: para conseguir entender, descrever, planejar e tentar melhorar algo complexo – por vezes, caótico – como uma obra é preciso se interessar muito pelo assunto. Ou seja, ter uma curiosidade constante em busca de melhores soluções. Sem isso, o profissional acabará simplesmente atualizando o cronograma e constatando o óbvio, sem uma visão crítica.

2) Visão sistêmica e analítica: é possível ter um olhar amplo sobre a obra, o empreendimento e o negócio da empresa e, ao mesmo tempo, estar atento para ‘pequenos’ detalhes técnicos que não podem passar desapercebidos? Este é um grande desafio para esse profissional, pois as duas óticas (macro e micro) são necessárias para a função.

3) Habilidade com pessoas e capacidade de comunicação: se as faculdades de engenharia civil, arquitetura e tecnologia estão baseadas em cálculos e/ou desenhos, o cotidiano da obra é lidar com gente. No primeiro dia de trabalho, o jovem profissional percebe que depende da adesão de outras pessoas para ter sucesso. É preciso, portanto, saber conversar, ouvir e respeitar a visão alheia. E desenvolver a capacidade de influenciar os outros, algo que exige empatia, humildade e respeito.

4) Ser agente de mudanças: alertar que “vai dar problema” é só uma etapa do processo. Provar que aquilo é verdade e conseguir convencer os outros, buscando soluções em conjunto, é o mais desafiador. Mudar dá trabalho. Cansa. A maioria das pessoas não topa logo de cara. Prepare-se para encarar esse desafio.

5) Disciplina, organização e comprometimento: ninguém vai confiar em um planejador desorganizado e descomprometido. Obra dá muito problema, briga e confusão. É preciso estar com tudo organizado para oferecer as respostas que esperam de você.

Carreira: qual é a sua sugestão de tema para o nosso espaço dedicado aos profissionais de Engenharia Civil, Arquitetura e Construção?

Colaboração técnica

Ana Meneghetti –Engenheira civil e mestre pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) com MBA em gerenciamento de projetos pela Fundação Getúlio Vargas. Foi professora universitária na UFSM nos cursos de engenharia e arquitetura. Responsável pelo planejamento de obras de grande porte em diversas cidades do País, hoje é consultora e sócia-diretora da Ana Meneghetti Gestão de Obras e Projetos. Também é professora em cursos de gestão e liderança.
João Petrocelle – PMP, MRICS, arquiteto com pós-graduação em administração de empresas e economia financeira aplicada pela FGV. Também é graduando em direito pelo Mackenzie (2023). Possui 25 anos de experiência no controle do prazo e custo de obras, atuando em construtoras, incorporadoras e gerenciadoras. Pesquisador e articulista de metodologias e técnicas como PMBOK, corrente crítica e lean construction. Professor de planejamento de obras do curso de pós-graduação em gerenciamento de obras do Instituto Mauá de Tecnologia. Diretor associado da Turner e Townsend Brazil, responsável pela área de gerenciamento de custos.