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Como o BIM pode alavancar a sua carreira na construção?

Capacitação na metodologia ajuda na ascensão profissional de jovens iniciantes nas áreas de engenharia civil e arquitetura

Publicado em: 15/03/2022

Texto: Eric Cozza

jovem paramentado com equipamentos de segurança para canteiros de obras. Ele mexe em um tablet, que projeta o holograma de desenhos menores em cima (relacionados a construção) e palavras como
A transição para o BIM, por vezes, parece apenas um obstáculo a ser vencido. As dificuldades existem, mas o aprendizado nessa área pode acelerar o crescimento de jovens em início de carreira (Foto: Shutterstock)

Você já deve ter ouvido por aí a expressão nativo digital. Costuma designar pessoas que nasceram após o advento da internet e que, portanto, teriam maior aptidão ou menor resistência às novas tecnologias digitais. Será que, no caso específico da construção, engenharia civil e arquitetura, daqui a algum tempo, vamos falar também em nativo BIM?

Difícil dizer em qual estágio, exatamente, se encontra o processo de desenvolvimento da metodologia no Brasil. Falar agora em nativos BIM, entretanto, parece bastante prematuro. A formação nas escolas não se alterou tanto, a metodologia ainda engatinha em muitas empresas e os projetos em 2D seguem vivos no cotidiano dos profissionais. Mas a pergunta é: por quanto tempo?

Quem estiver na faixa de 40 a 50 anos deve se preparar para se atualizar novamente mais uma ou duas vezes até o final da carreira
Arq. Caio Bacci Marin, do escritório Bacci Marin Arquitetos Associados

Se você é um jovem em início de carreira, a melhor resposta para a questão acima deve ser: não importa. O que vale é o futuro e, claramente, o BIM fará parte dele. “Não há saída, o conhecimento sobre a metodologia será pré-requisito para os novos profissionais”, afirma o arquiteto Caio Bacci Marin, sócio-fundador do escritório Bacci Marin Arquitetos Associados. “Quem estiver na faixa de 40 a 50 anos deve se preparar para se atualizar novamente mais uma ou duas vezes até o final da carreira”, aposta.

Do papel para o CAD

A transição do papel para o CAD (computer-aided design ou desenho assistido por computador, em português), que ganhou força no Brasil no início da década de 1990, é um exemplo de transformação semelhante. O processo, entretanto, foi mais rápido. “A informatização proporcionou ganhos fantásticos, mas não foi uma mudança metodológica como o BIM, com múltiplas camadas de informação e transversalidade de disciplinas”, opina Marin, que vivenciou a passagem durante o período em que cursava arquitetura e urbanismo. “Na segunda metade da década, a transição já estava praticamente consolidada”, completa o arquiteto.

Esse período permitiu um avanço na carreira do então iniciante João Luis Casagrande, que cursava engenharia civil e aprendeu a operar o Autocad. “Isso me aproximou de professores que ainda não dominavam a ferramenta”, revela o hoje presidente do Conselho da Casagrande Engenharia & Consultoria, especializada em projetos estruturais. O empresário vê similaridade no que ocorre hoje com o BIM. “As oportunidades são gigantescas para quem estiver capacitado”, completa.

O aprendizado do BIM inclui também disciplinas com interface direta, tais como orçamento, planejamento e manutenção
Arq. Lucas Jorge de Arruda Sampaio, sócio-fundador da ENGBIM

Oportunidades em várias áreas

A tecnóloga Rosângela Castanheira, que atua na área de engenharia de custos, concorda plenamente. O BIM entrou no foco de estudos e pesquisas dela em 2012. Desde então, tem procurado se aprofundar no BIM 5D, a dimensão da metodologia voltada à orçamentação e análise de custos. “O BIM traz imensas possibilidades para quem estiver disposto a se especializar e pensar fora da caixa”, afirma. “Temos poucos profissionais preparados para fazer o orçamento em 5D. Trata-se, sem dúvida, de uma oportunidade”, revela.

O arquiteto Lucas Jorge de Arruda Sampaio, sócio-fundador da ENGBIM, empresa especializada em desenvolver modelagens para construtoras, incorporadoras, investidores e projetistas, é outro exemplo disso. Depois de se formar e trabalhar por um tempo em uma construtora de Campinas-SP, decidiu deixar a empresa e estudar BIM em Londres, na Inglaterra. Voltou em 2012 e, ao desembarcar, já tinha uma proposta da Odebrecht Realizações Imobiliárias para a implementação do BIM na Vila Olímpica dos Atletas, no Rio de Janeiro.

“A oportunidade surgiu por conta da decisão de me especializar como BIM manager”, revela o arquiteto. A experiência em obras adquirida na Vila Olímpica acabou sendo fundamental para o desenvolvimento de Sampaio. “O aprendizado do BIM não se resume à modelagem. Inclui também disciplinas com interface direta, tais como orçamento, planejamento e manutenção”, afirma Sampaio.

Cinco motivos para enxergar o BIM como oportunidade

1) Facilidade dos jovens na assimilação de novas tecnologias

A existência de uma metodologia nova de trabalho, como o BIM, abre oportunidades para jovens iniciarem a carreira com as plataformas que serão utilizadas no futuro. A percepção dos contratantes sobre a facilidade dos jovens na assimilação de novas tecnologias – ainda que não corresponda à realidade em 100% dos casos – ajuda os iniciantes na conquista de novas oportunidades.

2) Visualização prévia do empreendimento atenua falta de experiência

Em uma área na qual a experiência é tão valorizada – e sobram bons motivos para isso – vencer tal barreira de entrada não é fácil. A vivência em projetos e obras proporciona aos profissionais mais experientes uma espécie de antevisão de como será o empreendimento em todos os seus detalhes técnicos. O BIM permite tal visualização, que antes permanecia somente na cabeça dos profissionais mais rodados. Evidente que isso não resolve tudo e a experiência continuará como fator decisivo. Mas o fosso diminuiu um pouco de tamanho.


As pessoas também perguntam: Como o BIM 4D transforma o planejamento de construtoras e incorporadoras?

3) Mudança na metodologia de trabalho não acontece todo dia

Mesmo que as transformações tecnológicas sejam cada vez mais rápidas no mundo digital, nada acontece do dia para noite. Por isso, aproveitar o timing é fundamental. A dica é se atualizar rapidamente para não deixar a onda passar e, com ela, algumas oportunidades que podem não se repetir. Lembrando: a última grande mudança na forma de trabalho dos projetistas, com impacto em toda a cadeia, foi a transição do papel para o CAD, há cerca de 30 anos.

4) Eventual duplicidade de profissionais costuma ocorrer somente na fase de transição

Ainda é raro encontrar no mercado pessoas capazes de aliar experiência e conhecimento técnico em construção e arquitetura com a habilidade no manejo dos sistemas para BIM. A transição tem demandado a convivência entre esses dois profissionais: o experiente em arquitetura e/ou engenharia civil e o especialista no manejo dos sistemas BIM. Será que, ao longo dos anos, as duas funções não serão ocupadas pela mesma pessoa? Na dúvida, prepare-se para que seja você.

5) Troca de gerações

Os maiores especialistas em BIM no Brasil são também profissionais reconhecidos tecnicamente em suas áreas de origem. Arregaçaram as mangas, estudaram o assunto e, em alguns casos, pagaram o preço do pioneirismo. Hoje, em geral, estão colhendo bons frutos. Sabe-se, entretanto, que nem todos os profissionais experientes estarão dispostos ao novo aprendizado. Serão importantes pelo conhecimento técnico, até que algum profissional habilitado nas plataformas BIM se equipare também no quesito experiência. É uma troca normal de gerações. Prepare-se, então, para fazer parte dela.

Colaboração técnica

Caio Bacci Marin – Formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, trabalhou em Bruxelas, na Bélgica, onde teve o primeiro contato com projetos elaborados na metodologia BIM. Sócio-fundador do escritório Bacci Marin Arquitetos Associados, já atuou também como assistente parlamentar na Câmara Municipal de São Paulo, colaborando com a mudança de legislação que permitiu a digitalização do processo de aprovação de projetos pela Prefeitura.
João Luis Casagrande – Engenheiro Civil pela Universidade Santa Úrsula com ênfase em Estruturas. Presidente do Conselho da Casagrande Engenharia & Consultoria, com mais de 400 projetos no Brasil e no Exterior. Diretor de Pontes e Estruturas da ABECE (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural).
Lucas Jorge de Arruda Sampaio – Formado no Brasil e na Espanha em Arquitetura e Urbanismo, especializou-se como BIM manager em Londres. Atuou pela Odebrecht Realizações Imobiliárias na implementação do BIM na Vila Olímpica dos Atletas, no Rio de Janeiro. Em 2015, fundou a ENGBIM para o desenvolvimento de soluções de engenharia utilizando o processo BIM.
Rosângela Castanheira – Graduada pela Fatec-SP em tecnologia de construção civil, possui MBA em gestão estratégica de custos pelo IBEC/INPG. Sócia-diretora da TRÍADE Engenharia de Custos, recebeu certificação por “Notório Saber em Engenharia de Custos”, creditada pelo International Cost Engineering Council (ICEC). É docente em cursos de pós-graduação, graduação e atualização profissional em várias instituições de ensino, tais como FACENS, Inbec e IPOS.