Como se tornar um urbanista?

Gostar de cidades e pessoas são pré-requisitos. Saber se relacionar com diferentes tipos de visões e pensamentos ajuda a compreender a diversidade e propor soluções urbanas para todos

Publicado em: 06/02/2024

Texto: Eric Cozza

Se você gosta de cidades e desenho urbano, curte planejamento e dados e não abre mão de se relacionar com as pessoas, pode ser que tenha aptidão para trabalhar com urbanismo. Em tempos de megalópoles, aquecimento global e ascensão das smart cities (cidades inteligentes), o ofício ganha uma nova dimensão.

O termo urbanista, isoladamente, não é uma designação regulamentada no Brasil. No âmbito do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU/BR), o profissional que atua no planejamento e design urbano costuma ser referido como ‘arquiteto e urbanista’.

Por isso, para se tornar um urbanista no Brasil, o caminho mais comum é cursar arquitetura e urbanismo em uma instituição de ensino reconhecida pelo MEC (Ministério da Educação) e obter o registro profissional no CAU/BR.

Isso não significa, entretanto, que profissionais advindos de outras graduações como ciências sociais, antropologia, economia, geografia, engenharia civil e comunicação, entre outras, não possam compor equipes interdisciplinares, voltadas para pensar as cidades contemporâneas. Pelo contrário, isso é altamente desejável.

“A autora de um dos principais livros sobre urbanismo, Jane Jacobs, que escreveu ‘Morte e vida das grandes cidades’, não tinha formação específica na área e deixou um grande legado”, afirma o arquiteto e urbanista Eduardo Della Manna, que menciona também o sociólogo Richard Sennett, professor da London School of Economics e da Universidade de Nova York, autor de outro livro clássico: “Carne e pedra – O corpo e a cidade na civilização ocidental”.

ATUAÇÃO PROFISSIONAL

Mas o que faz um urbanista e onde costuma atuar? Trata-se de um profissional que trabalha no desenho, desenvolvimento e gestão de áreas urbanas, com a missão de criar e/ou tornar as comunidades mais funcionais, humanas, sustentáveis e agradáveis do ponto de vista estético.

Entre os desafios a serem encarados pelos urbanistas, estão a gestão do crescimento populacional e o desenvolvimento da infraestrutura das cidades, a regulação e o zoneamento, o sistema de transporte e as estratégias para revitalização de áreas urbanas degradadas.

No Brasil, a maioria das oportunidades ainda se concentra no Poder Público, principalmente no âmbito das prefeituras. É onde os estudantes conseguem fazer estágios relacionados à área e onde estão empregados muitos arquitetos e urbanistas em todo o País. Vale a pena pesquisar sobre vagas na sua cidade.

Começam, entretanto, a surgir oportunidades na iniciativa privada, com o desenvolvimento de loteamentos e condomínios de maior escala. Mas ainda são demandas pontuais e restritas a poucos projetos. Os jovens profissionais devem ficar atentos.

FORMAÇÃO CONTINUADA

Existem, hoje, duas frentes de especialização na área de urbanismo. A mais tradicional é via “strito sensu”, ou seja, cursos de mestrado e doutorado. São programas com uma abordagem mais focada na pesquisa acadêmica e no desenvolvimento de conhecimento científico. Confira algumas escolas e iniciativas reconhecidas em todo o País:

Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia;
Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Minas Gerais;
Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul;
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo;
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie (FAU-Mackenzie);
Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Urbano da Universidade Federal de Pernambuco.

Outro caminho que começa a ser mais explorado na formação continuada dos urbanistas são os cursos “lato sensu”, mais focados nas práticas do mercado e na aplicação do conhecimento em ambientes profissionais específicos. Em geral, esses programas oferecem certificados de especialização ou diplomas de pós-graduação. Seguem algumas opções:

Pós-graduação em Urbanismo Social – Gestão Urbana, Políticas Públicas e Sociedade do Insper;
Programa de Pós-graduação Lato Sensu da Escola da Cidade;
Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Arquitetura da Cidade: Suas Demandas e Tecnologias, da Universidade Federal Fluminense;
Curso de Pós-Graduação Lato Sensu - Especialização em Cidades Inteligentes e Sustentáveis, da Uninove.

LIVROS SOBRE URBANISMO

A oferta de conteúdos sobre questões urbanas, no Brasil e no Exterior, é tão vasta quanto a complexidade do assunto. E indicar algumas publicações implica, necessariamente, deixar de fora títulos indispensáveis. Seguem, portanto, alguns livros e materiais relevantes, sem nenhuma pretensão de constituir uma lista definitiva:

“Morte e vida das grandes cidades” | Jane Jacobs;
Carne e pedra – O corpo e a cidade na civilização ocidental” | Richard Sennet;
“Cidades para pessoas” | Jan Gehl;
“Cidades para um Pequeno Planeta” |Richard Rogers;
Cidades Rebeldes: Do Direito à Cidade à Revolução Urbana" | David Harvey;
Triunfo da Cidade” | Edward Glaeser;
Evolução Urbana do Brasil – 1500 – 1720” | Nestor Goulart Reis;
Brasil, cidades – Alternativas para a crise urbana” | Erminia Maricato;
Estatuto da Cidade para compreender” | Isabel Cristina Eiras de Oliveira;
"Cidades Invisíveis" | Italo Calvino (obra de ficção)

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ENTREVISTA

Arq. Eduardo Della Manna
“Urbanista precisa conhecer gente”

Tendências globais, posicionamento ideológico, interdisciplinaridade e atributos desejáveis para os profissionais da área de urbanismo

AECweb – Quais são as principais tendências relacionadas ao urbanismo que o jovem profissional deve estar atento?

Eduardo Della Manna – Temos uma urgência: o aquecimento global. Algumas poucas pessoas estão trabalhando no tema, há algum tempo, com ponderação. Mas parece que o mundo ainda não acordou para a relevância do assunto. Temos que mudar muita coisa: a forma de produzir, de consumir, enfim, de viver. O problema já chegou, literalmente, às ruas e às janelas de nossas casas. E as cidades acabam sendo muito responsáveis pelo aquecimento global, porque nelas estão concentradas as forças de produção, que precisam ser modificadas. Existem também antigos desafios que ainda não foram superados como, por exemplo, a questão da mobilidade nos grandes centros urbanos. É impensável, por exemplo, transportar um contingente populacional do tamanho do Uruguai, diariamente, da zona leste para o centro expandido de São Paulo. É algo sem sentido, mas que ainda acontece. Então, além de superar o desafio dessa mobilidade, você tem que trabalhar em duas outras pontas: produzir mais habitação de interesse social onde estão localizados os empregos e, ao mesmo tempo, criar novas centralidades nos territórios mais afastados, nas periferias das grandes cidades. Trata-se de um desafio gigantesco. Existem forças de mercado e diversos agentes econômicos que se mobilizam em direções distintas. E não temos controle sobre isso. Temos que trabalhar com eles. Precisamos utilizar ferramentas e sistemas capazes de detectar determinados movimentos e comportamentos urbanos, monitorá-los, criar indicadores e, a partir daí, começar a ir ajustando aqui e ali. Não adianta o urbanista achar que vai resolver as questões da cidade a partir de sua própria vontade ou desejo pessoal.

“O mercado imobiliário tem uma visão. Os movimentos de moradia possuem outra. As associações de defesa e preservação dos bairros enxergam diferente. Temos que chegar a um meio termo (...)”
Arq. Eduardo Della Manna

AECweb – O posicionamento ideológico pessoal costuma interferir nas posições adotadas pelos urbanistas no Brasil?

Della Manna – Infelizmente, sim. Basta pegar como exemplo a recente revisão do Plano Diretor em São Paulo. As coisas se acirraram muito por conta da polarização política. Eu creio que a discussão deveria mais madura: proporcionar o encontro dos diferentes e tentar fazer uma mediação, pois nem todo mundo vai sair ganhando em tudo. Quando você lida com uma cidade e um plano de desenvolvimento territorial, essas diferenças se manifestam e são todas legítimas. O desafio é procurar o que há em comum para todos e tentar priorizar esses pontos. Trabalhar e tentar fazer mais com menos. Porque essas diferenças sempre vão existir. O mercado imobiliário tem uma visão. Os movimentos de moradia possuem outra. As associações de defesa e preservação dos bairros enxergam diferente. Temos que chegar a um meio termo, porque a cidade precisa ter continuidade, se desenvolver e oferecer mais oportunidades de trabalho e renda para quem precisa.

“A vida acontece nas cidades e o urbanista, mais do que a infraestrutura física, precisa conhecer gente. Conviver com o pessoal de esquerda e de direita, saber dialogar com os extremos”
Arq. Eduardo Della Manna

AECweb – A interdisciplinaridade é uma característica necessária para os projetos de urbanismo? Trabalhar em conjunto com profissionais de outras áreas...

Della Manna – Creio que é fundamental, mas não é isso que acontece, na prática, na maioria das cidades brasileiras. Infelizmente, dentro do serviço público, isso é muito difícil. Você tem as diversas políticas setoriais que não são tratadas de forma conjunta dentro de um determinado território. Deveríamos tentar articular e verificar, de forma integrada, o que estão pensando as pessoas de habitação, de trânsito e mobilidade, de meio ambiente, segurança, de desenvolvimento social e econômico e de todas as demais áreas relevantes para os espaços urbanos. Só que isso não acontece e os recursos acabam pulverizados. Perde-se aquele caráter estratégico de articulação das políticas setoriais. A integração e a interdisciplinaridade são fundamentais para pensar o território. Na minha experiência pessoal, inclusive, essa interação sempre foi muito enriquecedora: poder trabalhar, por exemplo, com especialistas da área ambiental e econômica. Aprendemos bastante e a troca de experiências foi muito interessante. A diversidade de atores provoca um amadurecimento de todos os participantes.

“Por conta da emergência climática, vamos precisar pensar o planeta de maneira diferente. Rever os modos de produção, os nossos pontos de vista e a maneira de viver nas cidades”
Arq. Eduardo Della Manna

AECweb – Mencione, por favor, três atributos altamente desejáveis para o profissional do futuro no urbanismo.

Della Manna – O principal é ser um bom articulador. Tem que saber conviver com gente diferente e tentar coordenar essa diversidade. Não é todo mundo que consegue. Afinal, nosso principal desafio é fazer com que os diferentes possam viver juntos, de maneira civilizada e não polarizada, em pé de guerra. É preciso estar aberto para a vida: ler a obra do Machado de Assis e a do João do Rio. A vida acontece nas cidades e o urbanista, mais do que a infraestrutura física, precisa conhecer gente. Conviver com o pessoal de esquerda e de direita, saber dialogar com os extremos. Outro ponto relevante é ter a mente aberta para o que não é convencional. Olhar para o mundo com outros olhos. Por conta da emergência climática, vamos precisar pensar o planeta de maneira diferente. Rever os modos de produção, os nossos pontos de vista e a maneira de viver nas cidades.

Carreira: qual é a sua sugestão de tema para o nosso espaço dedicado aos profissionais de Engenharia Civil, Arquitetura e Construção?

Colaboração técnica

Eduardo Della Manna  – Arquiteto e urbanista, pesquisador e profissional atuante nas áreas de desenvolvimento territorial e economia urbana. Sócio-diretor da PPU Projetos Urbanos. Membro do Conselho Municipal de Política Urbana e do Comitê Municipal de Mudanças do Clima e Ecoeconomia de São Paulo. Assessor executivo da vice-presidência de Assuntos Legislativos e Urbanismo Metropolitano do Secovi-SP.