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Como se tornar um pesquisador na construção civil?

Imprescindível para qualquer setor produtivo, atividade de pesquisa ainda não é tão valorizada na engenharia civil brasileira, mas tem potencial para crescer com a maior industrialização na área

Publicado em: 11/10/2022

Texto: Eric Cozza

foto de uma pessoa segurando uma espátula e uma tabua com argamassa líquida em cima
Ao contrário do que acontece em outros setores, como tecnologia da informação e energia, pesquisadores na construção civil não costumam ser disputados por grandes contratantes. Exercem, porém, papel relevante no desenvolvimento tecnológico, atuando em diversos segmentos específicos (Foto: Shutterstock)

Se você gosta muito de estudar, valoriza o conhecimento, acredita em metodologia científica e possui, ao mesmo tempo, perfil analítico e boa capacidade de comunicação, trabalhar como pesquisador pode ser uma boa opção de carreira.

Se pensar exclusivamente sob a ótica financeira, de remuneração, nem tanto. A despeito de serem profissionais de nível superior, com formação acadêmica diferenciada e ganhos acima da média dos demais trabalhadores, os pesquisadores no Brasil ainda não possuem a valorização verificada nos países do Primeiro Mundo e até em algumas nações emergentes.

Se, em outros campos, como tecnologia da informação e energia, por exemplo, os pesquisadores são disputados por contratantes da esfera pública e privada – a competição pelas melhores cabeças, por vezes, é internacional – a realidade é diferente na construção e engenharia civil. A dificuldade é um pouco maior devido à falta de investimentos.

Tal constatação não deve ignorar, porém, honrosas exceções e muito menos desqualificar o trabalho dos pesquisadores que atuam na área. Pelo contrário: é de se enaltecer o esforço realizado em prol do meio técnico. E com resultados mais expressivos do que se imagina.

“As duas vertentes devem coexistir em harmonia. Tenho projetos que visam a resolução de problemas específicos e outras frentes que não visam resultados tão imediatos, mas que podem ser necessárias para futuras inovações”
Profa. Denise Dal Molin

PESQUISA PURA x APLICADA

O que seria de segmentos como a construção a seco (drywall), conforto térmico e acústico, sistemas construtivos inovadores e até tecnologias mais consolidadas no Brasil, como portas de madeiras, alvenaria, cimento e concreto, sem o papel desempenhado por esses profissionais na pesquisa e desenvolvimento de soluções, além da produção de normas e referências técnicas?

E o que dizer de tendências relevantes, como a sustentabilidade (resíduos, ciclo de vida, durabilidade etc.), o desempenho (NBR 15575) e a industrialização da construção? É possível, inclusive, que a maior penetração de tais temas no mercado possa aquecer as atividades de pesquisa aplicada no setor. Seja em escolas, institutos e laboratórios especializados ou mesmo no âmbito das próprias empresas.

Há, inclusive, uma discussão frequente na sociedade e até uma ‘falsa polarização’ entre a chamada pesquisa pura, concentrada na ampliação de novas fronteiras tecnológicas e aquela mais aplicada, focada em empregar o conhecimento preexistente para a solução de problemas específicos.

“As duas vertentes devem coexistir em harmonia”, afirma a pesquisadora e professora titular da Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Denise Dal Molin. “Na minha atuação, tenho projetos que visam a resolução de problemas específicos e outras frentes que não visam resultados tão imediatos, mas que podem ser necessárias para futuras inovações”, completa.

“Não se pode temer o erro, pois ele faz parte do processo. Mas existem meios de minimizar os riscos, trabalhando com o que chamamos de portões, que nos permitem avançar por etapas bem definidas, graduando o investimento necessário ao longo do tempo”
Eng. Claudio Mitidieri

PARCERIA COM A INICIATIVA PRIVADA

Outro tema recorrente quando se fala em pesquisa no Brasil é a necessidade da parceria de escolas e institutos públicos, que desenvolvem esse tipo de trabalho, com empresas e entidades privadas. No caso da construção civil, fabricantes de materiais, produtos e tecnologias costumam ser mais assíduos e responsáveis por maiores investimentos. Ainda se sente a falta, mesmo com honrosas exceções, de maior participação das construtoras.

“Há dois elementos que precisam ser incorporados quando se fala em pesquisa, mesmo aquela aplicada à solução de problemas: o risco do erro e o tempo de maturação”, explica o pesquisador do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo) e professor, Claudio Mitidieri.

“Em primeiro lugar, não se pode temer o erro, pois ele faz parte do processo. Mas existem meios de minimizar os riscos, trabalhando com o que chamamos de portões, que nos permitem avançar por etapas bem definidas, graduando o investimento necessário ao longo do tempo”, complementa o engenheiro.

Em relação ao tempo, Mitidieri defende a mesma lógica, baseada no desenvolvimento contínuo, a partir de estágios preestabelecidos e vencidos a partir da realização de testes e ensaios. “Paciência e persistência, porém, são fundamentais”. conclui o pesquisador.

Mas quais são, afinal, os principais requisitos, competências e habilidades exigidas dos pesquisadores na construção civil? Relacionamos cinco tópicos relevantes.

1) GOSTAR DE ESTUDAR

A carreira acadêmica é quase indissociável da atividade de pesquisador. Há exceções, mas profissionais dessa área que permanecem distantes das escolas e universidades são raros. Tal interação costuma ser, inclusive, o pontapé inicial na carreira, a partir da aproximação com professores e especialistas na graduação, pós, mestrado, doutorado etc. Em todos os casos, entretanto, gostar de estudar é fundamental. E mais do que isso: ter consciência de que o aprendizado será uma atividade contínua, pois o conhecimento de ponta se recicla de maneira cada vez mais rápida. Estudar no Exterior também é uma experiência bastante enriquecedora.

“Para os pesquisadores, o trabalho conjunto com empresas e profissionais do mercado costuma ser muito saudável e produtivo. E, para as companhias, também é enriquecedor, pois permite incorporar o método científico de resolução de problemas e impulsionar a inovação”
Eng. Claudio Mitidieri

2) CONCILIAR VISÃO TEÓRICA E PRÁTICA

Se você acha que todo pesquisador se resume a um teórico, está com uma ideia ultrapassada da carreira. A visão prática é fundamental, principalmente quando se trata de pesquisa aplicada, destinada à resolução de problemas. Assim como o inverso também é verdadeiro. Tanto o conhecimento teórico deve se alimentar da vivência em campo quanto a prática pode e deve ser aperfeiçoada com novos estudos, tecnologias e inovações. “Para os pesquisadores, o trabalho conjunto com empresas e profissionais do mercado costuma ser muito saudável e produtivo”, afirma Mitidieri. “E, para as companhias, também é enriquecedor, pois permite incorporar o método científico de resolução de problemas e impulsionar a inovação”, conclui.

3) NETWORKING E BOM RELACIONAMENTO

Está muito distante do atual perfil dos pesquisadores aquela imagem do Professor Pardal, um personagem da Disney que, a despeito de concepções geniais, trabalha de forma isolada e desenvolve inventos com sérios problemas de inadequação de uso.

Relacionar-se com outros especialistas, participar de eventos e congressos, visitar empresas e obras, dar aulas e conviver com outros professores e alunos costumam fazer parte do cotidiano desse profissional. “Mesmo que, eventualmente, o pesquisador tenha um perfil mais analítico, gostar de se relacionar com outras pessoas é muito importante e acaba facilitando o nosso trabalho”, afirma Mitidieri.


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4) BOA COMUNICAÇÃO ESCRITA E ORAL

Parte relevante do trabalho do pesquisador consiste em saber apresentar, com clareza, os resultados daquilo que desenvolve. Escrever bem e transmitir as ideias em um texto claro e, ao mesmo tempo, objetivo é um grande desafio. E não se trata aqui apenas das regras acadêmicas vinculadas à redação de dissertações, teses e artigos científicos que, muitas vezes, são mandatórias. Também é importante saber redigir um relatório de forma lógica, precisa e com o mínimo possível de erros de língua portuguesa. Aprender a falar bem em público também ajuda. Afinal, aulas, palestras e apresentações certamente farão parte da trajetória.

5) CONDUTA E POSTURA PROFISSIONAL

Esse quesito envolve compromisso com o rigor técnico e científico, mas também a humildade de reconhecer que o objeto de pesquisa não constitui a solução de todos os problemas daquele setor ou atividade. Engloba a isenção e a ética no tratamento de eventuais questões polêmicas, que envolvam interesses comerciais, econômicos e, em alguns casos, até políticos. E o sigilo dos dados e informações coletadas, quando isso for mandatório ou previamente pactuado. Um pesquisador é visto pela sociedade como um especialista, uma autoridade no assunto. Não há, portanto, espaço para ‘achismos’ ou colocações desprovidas de embasamento.

Carreira: qual é a sua sugestão de tema para o nosso espaço dedicado aos profissionais de Engenharia Civil, Arquitetura e Construção?

Colaboração técnica

Claudio Mitidieri – Doutor em engenharia civil pela Universidade de São Paulo, é pesquisador sênior do Laboratório de Tecnologia e Desempenho de Sistemas Construtivos do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT). Especialista em sistemas construtivos e desempenho de edificações habitacionais, é docente e coordenador da área de tecnologia do Mestrado Profissional em Habitação: Planejamento e Tecnologia, do IPT.
Denise Dal Molin – Graduada em engenharia civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com mestrado pela também pela UFRGS e doutorado pela Universidade de São Paulo. Professora titular, pesquisadora e docente permanente do Programa de Pós Graduação em Engenharia Civil: Construção e Infraestrutura da UFRGS. Líder do Grupo de Pesquisa LAMTAC (Laboratório de Materiais e Tecnologia do Ambiente Construído) da UFRGS, é autora do livro “Concreto Autoadensável”, junto com o Prof. Bernardo Fonseca Tutikian.