Como se tornar um projetista de impermeabilização?

Por vezes negligenciado, projeto nessa área é aliado contra patologias. Profissional responsável deve ter formação técnica e conhecimento de sistemas construtivos, tecnologias e produtos impermeabilizantes

Publicado em: 21/09/2022

Texto: Eric Cozza

montagem com quatro fotos. Em duas delas, dois profissionais com equipamentos de segurança de canteiros de obra analisam projetos segurando ferramentas. As outras duas fotos são gráficos
Um dos sistemas de proteção das edificações, a impermeabilização pode evitar muitos problemas com infiltrações, eflorescências e vazamentos. Figura do projetista precisa ser mais valorizada (Fotos: Shutterstock – Desenhos técnicos: A2S Engenharia e Perícias [detalhe de ralo] e Impersolutions [dreno] – Montagem: Cozza)

Uma boa contratação de serviços de impermeabilização começa com um projeto específico. Em uma área na qual as atribuições – fornecimento de materiais, dimensionamento, especificação e execução – ainda se misturam, fortalecer a figura do projetista parece ser um bom caminho.

Isso não significa que empresas de execução não possam oferecer bons projetos e que os fornecedores do segmento devem se eximir de orientar tecnicamente os clientes. Pelo contrário. O que importa é a qualificação dos profissionais envolvidos.

Valorizar o projeto, entretanto, é uma missão a ser dividida entre todos os envolvidos na área. Motivos para se preocupar com a impermeabilização não faltam. Considerada um dos sistemas de proteção das edificações, pode evitar muitos problemas com infiltrações, eflorescências e vazamentos.

A maior parte dos contratantes na área é composta por pequenas e médias empresas. Isso leva uma mensagem importante aos jovens profissionais: ter vocação é essencial
Eng. Marcos Storte 

Dados do IBI (Instituto Brasileiro de Impermeabilização) apontam que a umidade responde por 85% dos problemas encontrados nas construções brasileiras.

FORMAÇÃO ACADÊMICA E APRENDIZADO NA PRÁTICA

Para atuar nesse mercado, em especial na área de projetos, é necessário mais do que a formação em engenharia civil ou arquitetura. “A maior parte dos contratantes na área é composta por pequenas e médias empresas”, afirma o engenheiro civil Marcos Storte, diretor técnico da A2S Engenharia e Perícia. “Isso leva uma mensagem importante aos jovens profissionais: ter vocação é essencial”, completa.

A formação se dará, basicamente, na prática. São poucos cursos de pós-graduação ou especialização e até a literatura técnica aplicada é relativamente restrita, com poucos títulos de referência e, em sua maioria, mais antigos. O estágio, portanto, é fundamental.

A maior parte das ofertas de vagas, entretanto, não será encontrada nas empresas de projeto, que ainda são poucas no Brasil. “Os fabricantes de impermeabilizantes e as empresas de execução concentram as maiores oportunidades de estágio” afirma a engenheira civil Maressa Menezes, diretora na Impersolutions Projetos, Pesquisas e Consultoria. E acabam, naturalmente, servindo como escola para um bom contingente de profissionais da área.

COMPETÊNCIAS E HABILIDADES DO PROJETISTA DE IMPERMEABILIZAÇÃO

Mas, afinal, como se preparar para entrar no segmento? Quais são os pré-requisitos e as habilidades valorizadas pelos contratantes na hora de selecionar os projetistas e engenheiros de impermeabilização? Listamos abaixo alguns pontos relevantes.

1) Conhecimento técnico e domínio das normas

Profissional experiente na área de impermeabilização, com mais de 60 trabalhos apresentados em simpósios nacionais e internacionais, o Eng. Marcos Storte tem um recado claro para os jovens profissionais com interesse na área. “Atuar como projetista de impermeabilização demanda conhecimento das normas técnicas relacionadas e o acompanhamento contínuo das suas atualizações e revisões”, recomenda. “Algumas, como a NBR 9575 e a 9574, são mandatórias, mas é importante conhecer os outros 24 textos normativos relacionados aos produtos e ensaios de impermeabilização”, completa Storte.

Veja algumas normas técnicas que o projetista de impermeabilização deve conhecer

NBR 9575 – Impermeabilização – Seleção e projeto
NBR 9574 – Execução de impermeabilização
NBR 9952 – Manta asfáltica para impermeabilização
NBR 11905 – Argamassa polimérica industrializada para impermeabilização
NBR 16072 – Argamassa impermeável
NBR 15885 – Membrana de polímero acrílico com ou sem cimento, para impermeabilização
NBR 9690 – Impermeabilização – mantas de cloreto de polivilina (PVC)
NBR 15487 – Membrana de poliuretano para impermeabilização

Há uma boa oferta de cursos livres na área, mas muitos são voltados especificamente para a aplicação e execução. Restam poucas opções com foco nos projetistas. O IDD Educação Avançada oferece uma pós-graduação com 440 horas aulas. A AEA Educação Continuada possui na grade de programação um curso livre de 12 horas chamado Impermeabilização – Projetos, Materiais, Sistemas, Execução e Fiscalização.

Alguns programas voltados às áreas de patologias na construção e/ou engenharia diagnóstica costumam abordar o tema. Os fabricantes de impermeabilizantes também organizam treinamentos e eventos de orientação técnica para os profissionais. Vale a pena pesquisar e ficar atento às oportunidades.

2) Conhecimento de sistemas construtivos, tecnologias e produtos

É constante a interação da impermeabilização com as demais especialidades da construção civil, tais como estrutura, vedações, fachadas, instalações, coberturas e fundações. Trata-se, afinal, de uma especialidade que costuma atuar de forma integrada com outros sistemas construtivos para garantir a estanqueidade. Impossível, portanto, dissociar os conhecimentos técnicos gerais de engenharia civil e arquitetura daqueles específicos da impermeabilização.

É preciso conhecer também as tecnologias e produtos impermeabilizantes, que podem ser classificados quanto à performance (rígidos ou flexíveis), à origem (naturais ou sintéticos) ou à forma de aplicação (líquida ou pré-fabricada/manta). “Os projetos devem trazer, além de medidas precisas, os materiais necessários para a impermeabilização e instruções específicas sobre a execução”, explica Storte.

Raramente fazemos prospecção. Os clientes chegam pelo boca-a-boca, por recomendações e parcerias. Para isso, possuir uma rede de relacionamento é fundamental
Enga. Maressa Menezes

3) Habilidade com sistemas e conhecimento em BIM

Uma das principais tendências no mercado profissional da construção civil e arquitetura, a metodologia Building Information Modeling (BIM) já começa a alterar a rotina de trabalho dos projetistas de impermeabilização. Isso tem obrigado os profissionais a não apenas conhecer os princípios da modelagem da informação da construção, mas também operar softwares em ambiente 3D.

Os sistemas CAD permanecem relevantes e são muitos usados no dia-a-dia, mas os jovens que ingressam na área devem se capacitar também em softwares BIM. Trata-se, inclusive, de uma oportunidade para se destacarem no mercado, pois nem todos os profissionais experientes já se reciclaram e dominam a tecnologia. “Desde 2018, o BIM se tornou parte da estratégia nacional do governo brasileiro. O caminho está traçado e é irreversível”, alerta Storte.

4) Relacionamento na área

Maressa revela que a maioria dos contratantes que procuram a empresa de projeto o fazem por indicação de outros colegas. “Raramente fazemos prospecção”, revela a engenheira. “Os clientes chegam pelo boca-a-boca, por recomendações e parcerias. Por isso, possuir uma rede de relacionamento é fundamental”, completa.

A impermeabilização é uma área na qual o networking com os fornecedores de materiais, empresas de execução e projetistas é atividade central. Constitui parte prioritária do trabalho participar de eventos técnicos relacionados como, por exemplo, aqueles organizados pelo IBI (Instituto Brasileiro de Impermeabilização) ou pela Associação de Engenharia de Impermeabilização (ANI), principalmente no caso de jovens profissionais que estão ingressando ou pretendem atuar na área.

As pessoas também perguntam: Como impermeabilizar o ralo e garantir um bom caimento?

5) Resiliência e persistência

“Quem atua no segmento sabe que se trata de um trabalho de formiguinha no que se refere à conscientização do mercado e, em especial, dos contratantes, sobre a relevância da impermeabilização”, afirma Maressa. A relação com os potenciais clientes nem sempre é fácil. Muitos construtores negligenciam o projeto de impermeabilização, preocupando-se exclusivamente com a redução de custos. Desanimar, porém, não pode ser uma opção.

Como já foi mencionado, muitas patologias estão relacionadas à ausência do projeto. É missão dos projetistas, portanto, orientar os demais profissionais da construção civil e arquitetura sobre a contratação, supervisão e fiscalização adequada dos serviços, com base em um bom projeto, materiais normatizados e execução adequada. Nada fácil, mas absolutamente necessário.

Carreira: qual é a sua sugestão de tema para o nosso espaço dedicado aos profissionais de Engenharia Civil, Arquitetura e Construção?

Colaboração técnica

Marcos Storte – Mestre em engenharia civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, possui larga experiência na área de impermeabilização e acústica. Diretor técnico da A2S Engenharia e Perícia, é autor de mais de 60 trabalhos apresentados em simpósios nacionais e internacionais e professor de pós-graduação em cursos de patologia em obras civis. É autor do livro "Látex Estireno Butadieno – Aplicação em Concretos de Cimento e Polímeros" e do ebook “Impermeabilização na Construção Civil”.
Maressa Menezes – Graduada em engenharia civil pela Universidade de Mogi das Cruzes, é diretora na Impersolutions Projetos, Pesquisas e Consultoria. Pós-graduada em engenharia de materiais, cursou também gestão empresarial pela Fundação Getúlio Vargas e tecnologia da impermeabilização pelo Instituto IDD-SP. Possui experiência profissional em impermeabilização e químicos para construção civil, com ênfase em assistência técnica para a especificação de produtos e sistemas em obras imobiliárias, industriais e de infraestrutura. Trabalhou na Weber Saint-Gobain, Denver, Holcim Brasil, Vedacit e Sika.