O que faz um projetista de revestimento de fachada?

Profissional é responsável pelo projeto executivo das fachadas aderidas, que empregam argamassa, revestimento cerâmico, pastilhas ou pedras. Objetivo é garantir o desempenho e evitar o aparecimento de patologias

Publicado em: 03/10/2022

Texto: Eric Cozza

montagem com gráficos e foto de uma mulher mexendo no projeto de um prédio
Projeto executivo deve garantir que fachada, estrutura, alvenaria, esquadrias, revestimento e impermeabilização funcionem de forma integrada. Especificação adequada dos materiais, inserção de reforços e posicionamento das juntas são pontos importantes (Desenhos técnicos: Inovatec Consultores – Fotos: Shutterstock – Montagem: Cozza)

Obras de recuperação de revestimentos de fachadas costumam ser onerosas e complexas. Os prejuízos gerados pelas patologias podem superar os valores gastos na execução. Além disso, esse tipo de intervenção corretiva afeta a rotina de moradores e usuários, causando incômodos e reclamações.

Por isso, para evitar problemas como destacamentos, manchas, infiltrações e fissuração dos revestimentos, principalmente em sistemas aderidos, muitas construtoras têm investido em projetos executivos de revestimento de fachada.

A execução é complexa, pois envolve preparo do substrato, traço, dosagem, cura, diversas camadas, juntas, eventuais reforços, telas etc. Isso demanda um projeto executivo bem detalhado, assim como uma boa equipe de obra e um controle de campo efetivo
Eng. Marco Addor

Um bom projeto deve garantir que fachada, estrutura, alvenaria, esquadrias, revestimento e impermeabilização funcionem de forma integrada. Também deve prever meios técnicos para que o revestimento não seja aplicado de forma improvisada, sem critérios de execução. O projeto será fundamental também para a especificação adequada dos materiais, previsão de reforços e posicionamento das juntas.

“A execução é complexa, pois envolve preparo do substrato, traço, dosagem, cura, diversas camadas, juntas, eventuais reforços, telas etc.”, afirma o Eng. Marco Addor, sócio-diretor da Addor & Associados, empresa especializada em soluções para projetos na área de construção. “Isso demanda um projeto executivo detalhado, assim como uma boa equipe de obra e um controle de campo efetivo”, completa.

Há raras opções de pós-graduação específica nessa área. E a maior parte dos cursos livres oferecidos no mercado costuma estar mais relacionado à tecnologia dos materiais e, em especial, às patologias. Para atuar na área, portanto, o aprendizado costuma ser na prática, dentro das empresas. Mas, afinal, o que o projetista de fachadas deve ter para se destacar no mercado?

1) CONHECIMENTO TÉCNICO E DOMÍNIO DAS NORMAS

A interação entre diferentes subsistemas da construção (estrutura, alvenaria, revestimento, impermeabilização, esquadrias etc.) obriga o projetista nessa área a ser um estudioso da tecnologia de edificações. Para isso, além da formação em arquitetura e/ou engenharia civil, deve conhecer as soluções disponíveis, as normas técnicas relacionadas e, em especial, as interfaces entre os diferentes tipos de materiais.

“A NBR 15575 deve ser a base, pois define os critérios de desempenho em relação à estanqueidade, conforto térmico e acústico”, afirma Jonas Medeiros, diretor da Inovatec Consultores Associados, especializada em projetos de revestimentos e novas tecnologias para a construção. “É preciso ficar atento também às normas dos materiais e aquelas relacionadas à execução, que devem ser conhecidas pelos construtores”, complementa.

A diversidade de opções tecnológicas abre espaço para praticarmos soluções cada vez mais sofisticadas nas fachadas, indo além dos projetos de revestimentos tradicionais
Eng. Jonas Medeiros 

2) EXPERIÊNCIA EM OBRAS

Mesmo estudando o assunto e dominando as normas técnicas relacionadas, a vivência em canteiros é importante para o projetista de revestimentos de fachadas. “A experiência passa por cometer alguns pequenos erros, que servirão de grande aprendizado para o profissional”, afirma Addor. Vale lembrar, por exemplo, que a execução desse tipo de serviço, devido à questão do trabalho em altura, é uma das mais complicadas para a fiscalização pelos engenheiros de obra. E por se trabalhar com produtos aderidos, de base cimentícia, qualquer descuido pode ser fatal. “Costumo dizer que massa não almoça”, diverte-se o engenheiro, referindo-se à necessidade de rigor no processo de execução, por exemplo, em relação ao tempo em aberto das argamassas.

3) ATUALIZAÇÃO CONSTANTE: TECNOLOGIAS E MATERIAIS

Ficar antenado com novas tecnologias, produtos e sistemas construtivos é essencial para o projetista nessa área. É importante lembrar que, além dos revestimentos aderidos, há muitas outras soluções técnicas, amplamente utilizadas em todo o mundo, cuja evolução tem sido constante. Fachadas ventiladas, light steel framing, structural glazing, brises de diferentes tipos e materiais (móveis, verticais, pré-fabricados, metálicos etc.), molduras, abas e jardins verticais têm conquistado cada vez mais adeptos entre arquitetos, incorporadores e construtores. “A diversidade de opções abre espaço para praticarmos soluções cada vez mais sofisticadas nas fachadas, indo além dos projetos de revestimentos tradicionais”, aponta Medeiros.

4) PERFIL MULTIDISCIPLINAR E INTERLOCUÇÃO TÉCNICA

O diretor da Inovatec revela uma particularidade interessante na contratação de novos profissionais na empresa. “Temos dado preferência para aqueles com a chamada dupla formação em arquitetura e engenharia civil.”

Desde 2004, a Escola Politécnica e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, por exemplo, mantém um convênio de intercâmbio de alunos das duas graduações. Isso permite que, ao se formar, o estudante receba, além do diploma na área principal, um certificado complementar do outro curso.

Segundo Medeiros, a dupla formação permite conciliar o conhecimento em cálculo e tecnologias dos materiais com uma consciência estética e de volumetria. Isso ajuda na boa interlocução com o arquiteto e todas as demais disciplinas envolvidas.

As pessoas também perguntam: Como se tornar um projetista de impermeabilização?

5) ATENÇÃO AOS DETALHES

O trabalho nessa área é tão minucioso que alguns profissionais chegam a desenhar detalhes à mão, em papel milimetrado, na escala 1:1. Isso não vai impedir, depois, a entrega do projeto final em CAD ou em sistemas 3D. Trata-se, porém, de um método que revela a importância de detalhes construtivos que, muitas vezes, serão imprescindíveis para prevenir futuras patologias. O projetista deve estar preparado para tamanha precisão e complexidade.

Carreira: qual é a sua sugestão de tema para o nosso espaço dedicado aos profissionais de Engenharia Civil, Arquitetura e Construção?

Colaboração técnica

Jonas Medeiros – Engenheiro civil pela Universidade Federal da Paraíba, mestre e doutor em engenharia de construção civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Sua tese de doutorado foi sobre projeto e execução de revestimentos de fachada. Fundou em 2000 a Inovatec Consultores Associados, especializada em projetos de revestimentos aderidos e ventilados e desenvolvedora de novas tecnologias para a construção. Coordenador e coautor do Manual de Tecnologia de Vedação e Revestimentos para Fachada de Edifícios, elaborado para o CBCA (Centro Brasileiro da Construção em Aço). Fundador e CEO da Cubicon, startup de construção modular 3D, é professor convidado do mestrado em habitação do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo).
Marco Addor – Sócio-diretor da Addor & Associados, empresa especializada em soluções para projetos na área de construção, tais como coordenação e compatibilização, desenvolvimento de projetos de vedações (alvenaria, drywall, fachadas e forros), modelagem, gestão e implantação de projetos em BIM e análise da adequação dos projetos à Norma de Desempenho (NBR 15575). Pós-graduado pela Fundação Getúlio Vargas e Fundação Vanzolini na área de engenharia de produção, atuou também em empresas de engenharia, chegando até a gerência de empreendimentos e participando da construção de edifícios residenciais, comerciais, hoteleiros, hospitalares e shopping centers. Cofundador da ConstruLiga.