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Jardins verticais em casa: alternativa em tempos de pandemia

Viviane Yuki Kiyohara, Gisleine Coelho de Campos, Maria Lucia Solera – Programa de Mestrado Profissional em Habitação do IPT

Publicado em: 16/12/2021

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Coordenação técnica: Adriana Camargo de Brito
Comitê de revisão técnica: Adriana Camargo de Brito, Cláudio Vicente Mitidieri Filho, José Maria de Camargo Barros, Luciana Oliveira e Maria Akutsu
Apoio editorial: Cozza Comunicação

16/12/2021 | 10h00 - Em março de 2020, devido à ocorrência da Pandemia de Covid 19, os governos decretaram o estado de quarentena em diversos estados do Brasil. Com isso, a população precisou manter-se em isolamento e/ou distanciamento social, o que os levou à mudança na rotina e, consequentemente, em vários casos notou-se o aumento do nível de estresse, além de outros problemas relacionados à saúde física e mental das pessoas (BARROS et. al., 2020).

Em busca de alternativas que possam auxiliar na melhoria desses quadros, diversos estudos já realizados demonstram os efeitos positivos nas pessoas quando em contato com a natureza, tais como a redução de estresse, melhoria da saúde mental, entre outros fatores (REIS; REIS; NASCIMENTO; 2020). A ecoterapia, também conhecida como terapia verde (green care), aparece entre elas, com a função de auxiliar as pessoas, por meio da conexão com a natureza, a lidarem com as doenças físicas e mentais. Um de seus subtipos é a horticultura social e terapêutica, que pode ser passiva, tal como apreciar um jardim, ou ativa, como, por exemplo, cultivar o mesmo. De todos os seus benefícios, alguns foram pontuados como de utilidade potencial durante a pandemia de COVID 19, tais como: lidar com o estresse, os transtornos de ansiedade, a solidão, as incertezas, o luto, a depressão e os transtornos relacionados às adaptações (CHAUDHURY; BANERJEE; 2020).

Silva; Mariotti; Bridi (2020) recomendam, para situações de pandemia como a de Covid-19, atividades que auxiliem as pessoas a lidarem com essas mudanças de rotina de maneira saudável. Entre as sugestões, os autores citam a manutenção de jardins para manter-se produtivo e até mesmo como exercício físico ou atividades relacionadas aos projetos pessoais, tais como decoração e organização de um novo jardim dentro de casa.

Dentro deste cenário, o presente artigo tem como objetivo apresentar as alternativas de jardins verticais passíveis de execução, mesmo em edificações de menor porte, que possibilitam esse contato com o verde em ambientes internos. Os jardins verticais se enquadram entre as tipologias de infraestrutura verde, com a capacidade de responder, de forma simultânea, as múltiplas funções e benefícios atribuídos aos espaços verdes. Essa infraestrutura verde pode atuar em diferentes escalas: regional (escala da paisagem: parques, cinturões verdes e corredores verdes urbanos); local (escala de ruas, bairros e praças) e particular (escala de edificações), objeto do presente artigo (SOLERA, 2020).

Classificação dos Jardins Verticais

Os jardins verticais compreendem todas as formas de crescimento e desenvolvimento da vegetação em uma superfície delimitada verticalmente, que cresce diretamente na parede ou em um sistema estrutural separado, podendo ser independente e adjacente ou fixo na parede, onde a vegetação pode ser plantada no solo ou em jardineiras. O local onde a planta irá se fixar, crescer e se desenvolver, deve permitir a cobertura de superfícies verticais pela massa vegetativa. Nos jardins verticais estão inclusos: “fachada verde” e “parede viva”, subdivididas com base na complexidade construtiva e de manutenção (Figura 1), onde a fachada verde é classificada como sistema extensivo – de fácil construção e manutenção – e a parede viva, como um sistema intensivo – de construção e manutenção mais complexas.

Na fachada verde “direta”, as trepadeiras se desenvolvem diretamente na parede e, na fachada verde “indireta”, as plantas se desenvolvem direcionadas por sistemas adjacentes e independentes da parede.

A parede viva consiste em painéis (contínuos) ou módulos de diferentes materiais (modulares) que podem ser pré-plantados ou não, e estes podem ser presos em estruturas verticais de suporte que sustentam todo o sistema ou diretamente à parede (Manso e Castro, 2015).

Jardins verticais
Figura 1 – Classificação dos sistemas de jardins verticais baseada nas características construtivas — Fonte: Barbosa; Fontes (2016)

Existem outras opções para montagem de jardins verticais, em especial quando se trata edifícios, como mostram os exemplos a seguir.

Cabe destacar que, quanto maior o jardim, maiores serão as exigências para o sistema de irrigação e, por conseguinte, maiores serão os custos de manutenção.

Exemplos de jardins verticais

Os exemplos incluem jardins verticais existentes no Brasil e no Exterior, para inspirar o leitor na criação de um em sua residência, condomínio, empresa ou no próprio local de trabalho.

1. Estação Sustentável Vila Olímpia da CPTM (Figura 2)
Projeto: Vertical Garden
Ano: 2021
Localização: São Paulo
Classificação: Parede viva contínua

O sistema implantado foi o que chamam de hidropônico com manta geotêxtil. Uma de suas principais vantagens é que as raízes das plantas se desenvolvem livremente, diferente do que acontece nos vasos, onde elas costumam enovelar. Seu sistema de irrigação é automatizado, com controladores conectados à internet, que enviam relatórios e podem ser monitorados via aplicativo ou computador. A drenagem é feita por meio de calhas que direcionam a água residual à rede coletora da concessionária. A manutenção se resume a poda, de acordo com as espécies (DAHER, 2021).

Jardins verticais
Figura 2 – Entrada da estação Vila Olímpia da CPTM — Fonte: Vertical Garden (2021)

2. Bosco Verticale (Vertical Forest) (Figura 3)
Projeto: Stefano Boeri Architetti
Ano: 2007 - 2014
Local: Milão
Classificação: não se encaixa especificamente em uma das classificações acima.

O conceito dessa floresta verticalizada está na ideia de um lar para as árvores, onde homens e pássaros também possam habitar. Uma das principais características desse projeto é a variação de cores e formas das plantas em todas as estações do ano e isso ocorre devido às escolhas de cada uma delas, de acordo com o lado da fachada e altura onde seriam plantadas. Para isso, um grupo de botânicos e etologistas estudou durante três anos a vida útil do empreendimento, desde o seu início, quando as plantas passaram a ser cultivadas, fora da edificação, em condições semelhantes às que encontrariam em seu destino. A manutenção fica por conta de uma equipe especializada de arboristas alpinistas que desce por todos os andares uma vez por ano, para realizar podas, verificar a saúde das plantas e eventual substituição ou remoção. Seu sistema de irrigação é automatizado e controlado de maneira remota (STEFANO BOERI ARCHITETTI, 2021).

Jardins verticais
Figura 3 – Edifício Bosco Verticale — Fonte: Stefano Boeri Architetti (2021)

3. Harmonia 57 (Figura 4)
Projeto: Triptyque
Ano: 2008
Local: São Paulo
Classificação: não se encaixa especificamente em uma das classificações acima.

A edificação foi descrita a partir da comparação de um organismo vivo que também respira, sua e se modifica. As robustas paredes de concreto possuem orifícios onde a vegetação foi plantada. A água da chuva e do solo são drenadas, tratadas e reutilizadas (Harmonia 57 / Triptyque, 2011). A irrigação é feita pela tubulação que passa externamente às paredes da fachada.

Jardins verticais
Figura 4 – Fachada edifício Harmonia 57 — Fonte: Harmonia 57 / Triptyque (2011)

4. Loja Firma Casa (Figura 5)
Projeto: SuperLimão Studio + Irmãos Campana
Ano: 2011
Local: São Paulo
Classificação: não se encaixa especificamente em uma das classificações acima.

O conceito da fachada da loja partiu da ideia dos Irmãos Campana de cobri-la por plantas da espécie espada de São Jorge, que remete à cultura popular brasileira e representa plantas de poder. Elas foram acomodadas em vasos de alumínio dobrado, desenhados pelo escritório SuperLimão Studio, fixados em uma estrutura de trama metálica. Apesar da quantidade elevada de mudas, sua manutenção se diz prática por ter um peso reduzido devido à escolha de material dos vasos e por se mostrarem fáceis quanto à irrigação. Pensou-se na disposição dos vasos em função dos efeitos que ocorrem conforme a reflexão da luz do dia na fachada. Por ter sua estrutura afastada do concreto da fachada, é possível que o ar circule rente ao mesmo, o que influencia em sua temperatura interna (SUPERLIMÃO, 2021).

Jardins verticais
Figura 5 – Fachada loja Firma Casa — Fonte: Helm (2011)

Instalação – Insurgências botânicas (Figura 6)
Projeto: Ximena Garrido-Lecca
Ano: 2017/2020 (34ª Bienal – 2021)
Local: São Paulo
Classificação: parede viva modular (vasos).

“(...) É uma instalação com estrutura hidropônica em que são plantadas mudas de favas da espécie Phaseolus lunatus, numa reativação simbólica do sistema de comunicação da cultura moche, uma civilização peruana pré-incaica que desenvolveu complexos sistemas hidráulicos de irrigação (...).” (GARRIDO-LECCA, 2020)

Jardins verticais
Figura 6 – Instalação Insurgências botânicas: Phaseolus Lunatus — Foto: Kiyohara (2021)

Sugestões de sistemas de jardins verticais residenciais que possibilitam maior contato entre indivíduo e planta

Neste caso, a proposta do jardim vertical é de que haja maior contato do indivíduo com a vegetação. Recomenda-se que entre as diversas tipologias citadas por Barbosa; Fontes (2016) (Figura 1), se opte pelas opções modulares, ou seja, aquelas cujas implantação, plantio e manutenção possam ser facilmente realizadas.

Para facilitar a execução e manutenção, recomenda-se a instalação de sistemas modulares tais como vasos e outros tipos individuais, como bolsas de manta geotêxtil, entre outros, como mostram as Figuras 7 a 11.

Um exemplo que poderia ser adaptado e que talvez funcione para ambientes um pouco maiores seria o da Figura 6.

Jardins verticais
Figura 7 – Bolsa horta, sem sistema de irrigação — Fonte: Alvarenga (2020)
Jardins verticais
Figura 8 – Sistema Acquawall, com sistema de irrigação — Fonte: Alvarenga (2020)
Jardins verticais
Figura 9 – Mini Garden, sem sistema de irrigação — Fonte: Alvarenga (2020)
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Figura 10 – Jardim vertical com vasos e floreiras, sem sistema de irrigação — Fonte: Alvarenga (2020)
Jardins verticais
Figura 11 – Jardim vertical em formato de cortina, com garrafas pet, sem sistema de irrigação — Fonte: Alvarenga (2020)

Para que a manutenção dos jardins verticais seja feita de forma manual, o ideal é que o vaso mais alto ainda esteja ao alcance de quem a fará.

Caso opte por um sistema de irrigação automatizado, a manutenção será basicamente poda, verificar se há a necessidade de troca de plantas ou de substrato e, principalmente, se atentar ao funcionamento regular das saídas de água, pois pode ocorrer a obstrução de um bico por causa de resíduos.

As ferramentas utilizadas na poda precisam estar sempre bem afiadas e esterilizadas, para minimizar a propagação de doenças entre plantas contaminadas e sadias (BAILONE, 2020).

Para a escolha da vegetação, faz-se necessário analisar todas as condições em que as plantas do jardim estarão sujeitas (interior/exterior, sombra/sol pleno etc.), além da disponibilidade de água e frequência da irrigação (ALVARENGA, 2020).

Considerações finais

Existem diversos tipos de sistemas de jardins verticais, para atender diferentes públicos, uns mais automatizados e outros menos ou até sem nenhuma automação. Podem ter custos bem variados. A principal questão abordada neste artigo é sobre a possibilidade de se ter um jardim vertical em um ambiente residencial, o qual não necessariamente precisa ser um sistema complexo, como no caso da Estação Sustentável Vila Olímpia da CPTM (Figura 1). Ele pode apenas conter uma estrutura de treliça madeirada que acomoda vasos pendurados.

Se a proposta for optar por um que disponha de maior contato regular com a vegetação, devido aos seus benefícios, recomenda-se que a manutenção seja feita de maneira manual, mesmo que seja mais trabalhosa. Quanto às eventuais trocas de mudas por falta de adaptação, isso não deve causar preocupação ao usuário, pois como indica o caso do Bosco Verticale (Figura 2), mesmo projetos de grande porte podem necessitar de tais substituições, uma vez que se trata de plantas e que estas podem ou não se adaptarem ao ambiente em questão.

É importante ressaltar que, para maior durabilidade da vegetação e o não comprometimento das estruturas do sistema de jardim vertical escolhido, bem como a superfície onde esse será instalado na residência, seja uma fachada externa ou uma parede de vedação interna, o ideal é sempre procurar por um suporte técnico, que auxiliará desde a indicação do sistema mais adequado até a seleção ideal de plantas para compor o jardim.

REFERÊNCIAS 

ALVARENGA, P. Curso Jardins Verticais e Telhados Verdes: Técnicas e Tendencias. Fundação Armando Alvares Penteado. Apostilas I e II do Curso. São Paulo, 20 de fev. 2020.

BAILONE, A. L. et al. Apostila de manutenção corporativa Vertigarden. 2020. Ed. 1.

BARBOSA, M. C.; CASTRO FONTES, M. S. G. Jardins verticais: modelos e técnicas. PARC Pesquisa em Arquitetura e Construção, v. 7, n. 2, p. 114-124, 2016.

BARROS, M. B. A. et. al. Relato de tristeza/depressão, nervosismo/ansiedade e problemas de sono na população adulta brasileira durante a pandemia de COVID-19. Epidemiol. Serv. Saúde, Brasília, 29 (4), 2020.

CHAUDHURY, P.; BANERJEE, D. “Recovering With Nature”: A Review of Ecotherapy and Implications for the COVID-19 pandemic. Frontier in Public Health, Environmental health and Exposome, Mini Review article, 2020.

DAHER, S. Vertical Garden. Informações obtidas por meio de questionário técnico de pesquisa. 2021.

GARRIDO-LECCA, X. Insurgências botânicas: Phaseolus Lunatus. 34ª Bienal: Faz escuro mas eu canto. 2021, São Paulo. São Paulo: Pavilhão Ciccillo Matarazzo, Parque Ibirapuera, São Paulo, 2021.

HARMONIA 57 / TRIPTYQUE. ArchDaily Brasil. 26 Dez 2011. Disponível em: <https://www.archdaily.com.br/br/01-16694/harmonia-57-triptyque>. Acesso em 01 out. 2021.

HELM, J. Firma Casa / SuperLimão Studio + Irmãos Campana. ArchDaily Brasil. 23 Dez 2011. Disponível em: <https://www.archdaily.com.br/br/01-15999/firma-casa-superlimao-studio-mais-irmaos-campana>. Acesso em 01 out. 2021.

KIYOHARA, V. Y. Visita a 34ª Bienal: Faz escuro mas eu canto. 2021, São Paulo. São Paulo: Pavilhão Ciccillo Matarazzo, Parque Ibirapuera São Paulo, 2021.

MANSO, M.; CASTRO-GOMES, J. Green wall systems: A review of their characteristics. Renewable and Sustainable Energy Reviews. 2015. v. 41: 863-871.

SILVA, T.R.; MARIOTTI, M.C.; BRIDI, A. Aprendendo a lidar com as mudanças de rotina devido ao Covid-19: orientações práticas para rotinas saudáveis. Rev. Interinst. Bras. Ter. Ocup. Rio de Janeiro. Suplemento, 2020. v.4(3): 519-528.

REIS, S. N.; REIS, M. V.; NASCIMENTO, Â. M. P. Pandemic, social isolation and the importance of people-plant interaction. Ornamental Horticulture. Sociedade Brasileira de Floricultura e Plantas Ornamentais, 2020, v. 26, n.3, p. 399-412.

SOLERA. M. L. (Org.). Guia metodológico para implantação da infraestrutura verde. IPT/FIPT. São Paulo, 2020.

STEFANO BOERI ARCHITETTI. Pesquisa por projeto “Bosco Verticale (Vertical Forest)”. Disponível em: <https://www.stefanoboeriarchitetti.net/project/bosco-verticale/>. Acesso em: 01 out. 2021.

SUPERLIMÃO. Pesquisa por projeto “Firma Casa”. Disponível em: <http://www.superlimao.com.br/item/firma-casa/>. Acesso em: 01 out. 2021.

VERTICAL GARDEN. Pesquisa por projeto “Estação Sustentável Vila Olímpia CPTM”. Disponível em: <https://www.verticalgarden.com.br/post/vertical-garden-implanta-jardins-verticais-na-estacao-vila-olimpia-da-cptm>. Acesso em: 26 jul. 2021.

Colaboração técnica

 
Viviane Yuki Kiyohara — Arquiteta e designer de interiores, aluna do programa de Mestrado Profissional do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo, Habitação: Planejamento e Tecnologia, na área de Tecnologia em Construção de Edifícios.
 
Gisleine Coelho de Campos — Doutora em Engenharia Civil, é professora e coordenadora do Programa de Mestrado em Habitação do IPT, atuando também como Pesquisadora na Seção de Obras Civis.
 
Maria Lucia Solera — Doutora em Biologia, é coorientadora do Programa de Mestrado em Habitação do IPT, atuando também como pesquisadora na Seção de Planejamento Territorial, Recursos Hídricos, Saneamento e Florestas.