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O ar-condicionado é um vilão?

Maria Akutsu e Adriana Camargo de Brito, Laboratório de Conforto Ambiental, Eficiência Energética e Instalações Prediais do IPT

Publicado em: 20/07/2022

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Coordenação técnica: Adriana Camargo de Brito
Comitê de revisão técnica: Adriana Camargo de Brito, Cláudio Vicente Mitidieri Filho, José Maria de Camargo Barros, Luciana Oliveira e Maria Akutsu
Apoio editorial: Cozza Comunicação

foto de varios ar condicionados em uma parede
Fonte: Shutterstock

20/07/2022 | 08h35 - Como qualquer ferramenta criada para um determinado fim, um sistema de ar condicionado, quando mal utilizado, pode, sim, se tornar um grande vilão: para a saúde e bem estar das pessoas, para a economia, o meio ambiente, e portanto, para a sustentabilidade do Planeta.

O bem-estar dos ocupantes de um ambiente construído, devido à qualidade do ar, diz respeito às características da massa de ar que envolve as pessoas com relação ao seu conforto térmico e acústico e à sua saúde.

A pandemia causada pelo vírus Covid-19 evidenciou a importância da renovação do ar em ambientes, não somente para garantir os níveis mínimos de oxigênio necessários nos processos de respiração, mas também como uma forma de minimizar o contágio interpessoal de doenças respiratórias causadas por vírus, bactérias e fungos.

Assim, o bem-estar almejado pelas características de pureza do ar pode interferir nas características de temperatura, umidade, velocidade e vibração do ar, que determinam o nível de salubridade e de conforto térmico e acústico das pessoas. O equilíbrio para a satisfação de todas essas exigências, em muitos casos, só pode ser atingido com o uso correto de um bom sistema de ar condicionado – como, por exemplo, numa condição onde o ar externo apresenta níveis elevados de temperatura e de ruído, bem acima da zona de conforto térmico humano. Isto pode se complicar mais ainda, se o ar externo apresentar altos níveis de contaminantes, seja em forma de gases ou de particulados.

As renovações de ar necessárias para a garantia da salubridade no tocante à quantidade de oxigênio para a nossa respiração já estão bem estabelecidas em normas voltadas a cada tipo de ocupação. Dessa forma, no projeto de um sistema de ar condicionado, este é um quesito importante a ser considerado, que esbarra nas questões de eficiência energética do sistema pois, quanto maior a taxa de renovação do ar, mais elevado será seu consumo energético. Da mesma forma, se o ar externo contiver contaminantes, utiliza-se o recurso de filtragem, que implica em redução da eficiência mecânica e energética do sistema.

Quando se possui sistemas de ar condicionado nos ambientes, em linhas gerais, a pessoa não tem liberdade para escolher as condições ambientais que mais lhe agradam, com exceção de poucos edifícios que permitem tal customização. Na grande maioria, isso não é possível. Também não podem abrir as janelas e desfrutar de uma brisa no final da tarde, mesmo se o clima e as condições locais forem favoráveis. Além disso, dependem da manutenção adequada do sistema para garantir questões de salubridade do ar, sem contar todas as crises energéticas e os aumentos constantes nos valores de tarifas de eletricidade, que tornam o uso de sistemas de climatização algo significativamente dispendioso.

Nesse contexto, vale a pena retomar os antigos conceitos de arquitetura adequada ao clima que foram praticamente abandonados, justamente em função das facilidades criadas pelos sistemas de climatização. Nos dias atuais, já não faz sentido projetar edifícios sem pensar nos impactos que terão no meio ambiente e na vida das pessoas.

No momento de se iniciar um projeto, vale considerar a real necessidade de utilização dos sistemas de ar condicionado, em função das características do clima local e do uso do edifício, tendo em vista as inúmeras possibilidades de projeto e de uso de materiais disponíveis atualmente. Ainda que os sistemas de ar condicionado sejam indispensáveis, é possível elaborar projetos de edificações que proporcionem alta eficiência energética com boa qualidade do ar, desde que se observem os preceitos de adequação da edificação ao clima local.

Mesmo depois de tanto tempo com a premissa dos projetos com ambientes climatizados, as pessoas podem aprender a utilizar tais sistemas somente quando forem necessários. É evidente que há fatores limitantes, além do clima, como as condições do entorno – por exemplo, quando houver fontes de ruído significativas que não permitam a abertura de janelas sem gerar incômodo.

Aqui não se está condenando sistemas de ar condicionado, nem dando receitas de como se projetar. Apenas tem-se como objetivo chamar atenção para as possibilidades quase infinitas que os arquitetos tem em mãos, que podem ser usadas para melhorar de uma vez só: a eficiência energética do edifício, aproveitando melhor a interação do edifício com o clima e diminuindo significativamente a necessidade do uso de ar condicionado; o bem estar geral das pessoas, que podem se sentir valorizadas decidindo como vão usar os ambientes, podendo abrir janelas, ver o ambiente exterior, além de se beneficiar da maior renovação do ar, obtida com a abertura das janelas.

Com a experiência vivida pela pandemia da Covid-19, foram retomados muitos estudos para a garantia da pureza do ar condicionado pelos sistemas de resfriamento e aquecimento de ambientes, tais como:

• Sanitização da massa de ar passando pelos dutos do sistema, pela aplicação de componentes químicos ou de radiação ultravioleta, para eliminação de fungos, bactérias e vírus;
• Desenvolvimento de filtros, para retenção de particulados e agentes biológicos, apresentando diversas dimensões;
• Direcionamento controlado dos fluxos de ar, de modo a minimizar o contágio interpessoal de doenças respiratórias.

Todas essas soluções apresentam limitações e restrições de uso, além de acarretar custos adicionais na sua implantação, uso e manutenção. Mesmo que tais questões tecnológicas venham a ser dominadas, resta sempre a questão da percepção humana do que proporciona o seu real bem-estar. Ao nosso ver, esta percepção está relacionada com a nossa aspiração ao contato direto com a natureza e com a consciência da sua preservação!

Autoras

Adriana Camargo de Brito é doutora em Engenharia Mecânica pela Universidade de São Paulo (USP), mestre em Tecnologia do Ambiente Construído pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT) e arquiteta formada pela Universidade Paulista (UNIP). Trabalha no Laboratório de Conforto Ambiental do IPT desde 2006, atuando em avaliações e consultorias nas áreas de desempenho térmico, acústico, lumínico e ergonômico de edifícios. Também é docente do curso de Mestrado em Habitação do IPT.

Maria Akutsu é formada em Física pelo IFUSP, tem mestrado pela EPUSP e doutorado pela FAUUSP. Atua na área de Conforto Ambiental desde 1975 no IPT, desenvolvendo trabalhos de pesquisa e desenvolvimento, bem como de prestação de serviços tecnológicos e como docente no curso de Mestrado Profissional. Foi docente também em várias Instituições de Ensino e é colaboradora no desenvolvimento de Normas Técnicas na área de Desempenho das Edificações e na avaliação de Projetos de Pesquisa junto aos diversos órgãos de fomento do país.

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