Por que as árvores são importantes nas cidades

Giuliana Del Nero Velasco; Sérgio Brazolin; Reinaldo Araújo de Lima, Seção de Planejamento Territorial, Recursos Hídricos, Saneamento e Florestas do IPT

Publicado em: 29/04/2021

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Coordenação técnica: Adriana Camargo de Brito
Comitê de revisão técnica: Adriana Camargo de Brito, Cláudio Vicente Mitidieri Filho, José Maria de Camargo Barros, Luciana Oliveira e Maria Akutsu
Apoio editorial: Cozza Comunicação

29/04/2021 | 11:00 – A árvore na cidade é um serviço urbano essencial, assim como a distribuição de energia elétrica e iluminação pública. Elas estão diretamente ligadas à qualidade de vida da população urbana, melhorando o conforto térmico das pessoas, saúde, bem estar. Além disso, geram economia aos cofres públicos, diminuindo os alagamentos ou a necessidade de conserto de asfalto, por exemplo.

As árvores em ambiente urbano têm a capacidade de reduzir o escoamento superficial (runoff) através da interceptação da precipitação, sendo suas copas, verdadeiros “guarda-chuvas” na contenção de água. A velocidade com que a água da chuva chega ao solo é reduzida drasticamente com essa interceptação, interferindo diretamente na diminuição de alagamentos em ruas e avenidas. Estudos como o de Silva (2008) já mostraram que espécies como a tipuana (Tipuana tipu) e a sibipiruna (Cenostigma pluviosum) são capazes de interceptar de 50 a 80% da água da chuva em suas copas.

Árvores em avenidas são capazes de filtrar até 70% da poluição do ar (Bernatzky, 1982), retendo os poluentes em suas folhas evitando que os particulados fiquem em suspensão e sejam inalados pelas pessoas. Esse benefício afeta diretamente a saúde da população que vive em áreas urbanas.

As árvores utilizam energia solar para completarem seu processo metabólico, absorvendo carbono e liberando oxigênio no processo de fotossíntese. As plantas não armazenam calor no interior das células; a energia solar é, em média, 60-75% consumida nos processos fisiológicos (Bernatzky, 1982). As folhas das árvores, como qualquer corpo, absorvem, refletem e transmitem a energia incidente. Embora a energia absorvida seja alta, a temperatura superficial da folha não é elevada, mantendo-se abaixo dos corpos vizinhos, visto que utiliza parte da energia recebida para o processo da fotossíntese (Barbugli, 2004).

Especificamente em relação à energia elétrica, as árvores podem contribuir para a redução do uso de energia no resfriamento do ar em edifícios. Velasco (2007) constatou que áreas com maior porcentagem de vegetação urbana proporcionam uma redução de até 2 oC na temperatura do ar, diminuindo a necessidade de uso de ar-condicionado em residências.

Com a presença de vegetação, a variação de temperatura do ar também é menor, ou seja, tem-se uma menor amplitude térmica diária sob a vegetação, principalmente no verão, período em que a densidade foliar e a evapotranspiração das plantas são mais intensas (Mascaró, 2004). Amplitude térmica alta pode ser prejudicial à saúde humana por acarretar maior desgaste do corpo para manter sua temperatura constante em 36 °C.

Diversos estudos pontuam a importância da vegetação como modificadora do clima de uma cidade, principalmente no que diz respeito à atenuação da temperatura do ar, sendo ressaltada a importância seu uso para mitigar os efeitos antropogênicos gerados nas áreas urbanas, como o excesso de superfícies escuras, por exemplo.

A redução de temperatura gerada pela presença de árvores ocorre de forma direta e indireta, através do sombreamento e da evapotranspiração, respectivamente. Sem dúvida que o sombreamento é uma das funções mais importantes das árvores nas cidades, por reduzir a temperatura do ar e as temperaturas de superfícies dos pavimentos e fachadas das edificações. O sombreamento, principalmente de superfícies escuras como o asfalto, é essencial para se chegar a um microclima desejado. É muito importante a promoção de sombra de boa qualidade com uma arborização de larga escala, já que a proteção à radiação solar tem um efeito significativo na melhoria da sensação de conforto das pessoas, especialmente aquelas que estão caminhando na rua.

Do ponto de vista imobiliário, as árvores têm efeito indireto na valorização de imóveis. Áreas arborizadas têm um maior valor de mercado e uma estética mais agradável. É comum vermos as árvores e áreas verdes associadas a uma propaganda positiva do imóvel. Um estudo feito nos EUA avaliou a relação do valor do imóvel com a cobertura vegetal na cidade, concluindo que um aumento de 10% na cobertura de árvores em um raio de 100 m do imóvel, aumenta o preço médio de venda da casa em 1.371,00 dólares (0,48%) e dentro de um raio de 250 m aumenta o preço de venda em 836,00 dólares (0,29%) (Sander, et. al., 2010).

ávores urbanas
Árvores nas calçadas cumprindo diversas funções

Mesmo proporcionando tantos benefícios, as árvores das ruas e avenidas, no geral, continuam sendo danificadas, mutiladas ou mesmo eliminadas quando se trata de alargamento de ruas, consertos de encanamentos, manutenção da fiação aérea, novos empreendimentos ou reforma de casas.

A arborização de ruas e avenidas nas cidades, na maioria das vezes, não é planejada e é feita após a implantação de todos os outros serviços urbanos, tais como ruas, postes, placas, calçadas e fiação elétrica, sem uma inserção no planejamento inicial do bairro. Tal fato resulta em uma sequência de problemas, insatisfação da população e uma ausência de benefícios possíveis de serem fornecidos pelas árvores urbanas.

Um dos principais problemas existentes na arborização viária é o de não termos árvores de médio e grande porte cumprindo sua função de sombreamento. Em contraposição a essa necessidade, geralmente o que se observa é a frequente substituição de árvores grandes por espécies arbustivas e ou de pequeno porte. Além disso, a poda tem sido o manejo mais utilizado para evitar que as árvores atinjam a fiação elétrica. Árvores pequenas ou podadas não conseguem fornecer às cidades os inúmeros benefícios de uma arborização adequada.

As cidades precisam de árvores que possam cumprir suas funções, com menos poda e mais copa. É necessária a inserção das árvores em novos loteamentos. É essencial que as árvores estejam bem distribuídas nas ruas e avenidas de toda a cidade e não apenas em bairros nobres. Integradas aos projetos, as árvores agregam valor e benefícios importantíssimos para a qualidade de vida da população que vive nas cidades.

Referências

BARBUGLI, R. A. Influência do ambiente construído na distribuição das temperaturas do ar em Araraquara/SP. 2004. 170 p. Dissertação (Mestrado em Construção Civil) – Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2004.

BERNATZKY, A. The contribution of trees and green spaces to a town climate. Energy and Buildings, Lausanne, v. 5, p. 1-10, 1982.
MASCARÓ, L. Ambiência urbana. 2.ed. Porto Alegre: Mais Quatro Editora, 2004. 199 p.

SANDER, H. POLASKY, S., HAIGHT, R. G. The value of urban tree cover: A hedonic property price model in Ramsey and Dakota Counties, Minnesota, USA. Ecological Economics. v. 69, 2010, pg. 1646-1656.

SILVA, L. F. Interceptação da chuva nas espécies de Sibipiruna (Caesalpinia pluviosa DC.) e Tipuana (Tipuana tipu O. kuntze). 2008. Tese (doutorado em agronomia). Universidade de São Paulo, Piracicaba. 2008

VELASCO, G. D. N. Potencial da arborização viária na redução do consumo de energia elétrica: definição de três áreas na cidade de São Paulo - SP, aplicação de questionários, levantamento de fatores ambientais e estimativa de Graus-Hora de calor. 2007. Tese (doutorado em agronomia). Universidade de São Paulo, Piracicaba. 2007.

Colaboração técnica

Giuliana Del Nero Velasco – possui graduação em Engenharia Agronômica pela Universidade de São Paulo, ESALQ/USP (1999), Mestrado (2003) e Doutorado (2007) em Agronomia pela mesma instituição. Pós doutorado pela Faculdade de Engenharia Civil e Arquitetura, FEC-UNICAMP (2014). Atualmente é pesquisadora no Instituto de Pesquisas Tecnológicas, IPT. Atua principalmente nas áreas de arborização urbana e paisagismo.
Sérgio Brazolin – biólogo, formado no Instituto de Biociências da USP e doutor em recursos florestais pela ESALQ/USP. Há 35 anos atuando no Laboratório de Árvores, Madeiras e Móveis do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo – IPT na área de biodeterioração e proteção da madeira e silvicultura urbana. Com florestas urbanas, desenvolve e participa de projetos de capacitação e de pesquisa tecnológica com planejamento da arborização urbana e biomecânica de árvores, auxiliando o poder público na definição de políticas públicas e programas de manejo preventivo.
Reinaldo Araújo de Lima – possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Nove de Julho (2012). Atualmente é pesquisador colaborador no Centro de Cidades, Infraestrutura e Meio Ambiente do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo. Tem experiência na área de arborização, atuando principalmente nos seguintes temas: arborização urbana; diagnóstico e análise de risco de queda de árvores por meio de equipamentos não-destrutivos; biomecânica de árvores; biodeterioração por fungos apodrecedores; e insetos xilófagos (térmitas e brocas-de-madeira).