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Industrialização pode aumentar produtividade da construção

A pré-fabricação de materiais aliada à mecanização de processos e à organização do trabalho reduzem esforços físicos no canteiro e agilizam as etapas da obra

Texto: Gabriel Bonafé

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Para agilizar ainda mais as etapas, a pré-fabricação deve aliar-se à mecanização (MNBB Studio/shutterstock.com)

Uma das maneiras de aumentar a produtividade na construção civil, ou seja, elevar o rendimento dos serviços por hora de trabalho, é por meio da industrialização. Além de reduzir esforços físicos no canteiro, o conceito atua em outros aspectos variáveis da construção, como a caracterização arquitetônica e a fabricação dos materiais.

Baseada na pré-fabricação, a industrialização permite agilizar a produção de estruturas, vigas e outros elementos utilizados na construção. Esses elementos são fabricados em ambientes controlados fora do canteiro e, depois, levados à obra para montagem.

Para agilizar mais etapas, ainda, a pré-fabricação deve aliar-se à mecanização e à organização do trabalho. “A falta de um desses itens ou tê-los de uma maneira precária leva a níveis de industrialização mais baixos”, afirma Ubiraci Espinelli Lemes de Souza, doutor em engenharia de construção civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (EPUSP) e pela Pennsylvania State University.

Para que isso seja possível, o especialista diz que é necessário integrar diversos agentes da cadeia produtiva, como operários, subempreiteiros, construtores, projetistas e fornecedores, entre outros. “A boa industrialização pressupõe o trabalho conjunto. A cooperação dos vários agentes dessa cadeia de suprimentos pode ser a grande diferença para uma mudança dos níveis de produtividade da construção”, aponta.

A boa industrialização pressupõe o trabalho conjunto. A cooperação dos vários agentes dessa cadeia de suprimentos pode ser a grande diferença para uma mudança dos níveis de produtividade da construção
Ubiraci E. Lemes de Souza

PRODUTIVIDADE VARIÁVEL

Um estudo elaborado pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP) junto à FGV (Fundação Getúlio Vargas) identificou níveis variáveis na produtividade da construção brasileira. Embora apresente maiores embasamentos no que diz respeito a questões econômicas, relacionando estrutura tributária e afins, a pesquisa também reconhece que é preciso medidas institucionais e empresariais que otimizem o processo produtivo e organizem o canteiro.

Com base nesses dados, nota-se que a questão física demandada no canteiro interfere diretamente na produtividade. “Pensando na mão de obra, trata-se do esforço dos trabalhadores medido em homem-hora para gerar uma certa quantidade de serviço”, esclarece Lemes. O cálculo de quantas pessoas são necessárias para concretar um número x de m³, por exemplo, é feito por meio de um indicador chamado RUP (Razão Unitária de Produção). “É medido, assim, homem-hora por m², homem-hora por quilo e homem-hora por litro de aplicação de revestimento, entre outros” revela.

Dessa forma, os diferentes níveis de industrialização na construção que existem no país podem refletir a variável nos índices de produtividade da construção brasileira. De acordo com os dados comparativos, enquanto uma obra utiliza cinco homens-hora para produzir 1 m³ de construção, outras requerem 80 homens-hora ou mais para edificar a mesma quantidade no mesmo intervalo de tempo.

Outra frente da industrialização na construção civil refere-se à caracterização arquitetônica, na qual o conceito permite amenizar aspectos que tornam as obras menos produtivas. “Por exemplo, uma casa de alto padrão equivale a vários ambientes, subdivisões, vedações verticais, revestimentos bacanas, sistemas prediais acoplados e uma cobertura com várias camadas. É um produto complexo, que aumenta a quantidade de homem-hora”, justifica Lemes.

ASPECTOS DE MECANIZAÇÃO E ORGANIZAÇÃO

Pelo fato de a industrialização lidar com materiais pré-fabricados, que, em sua maioria, apresentam peso próprio elevado, há demanda por máquinas e equipamentos que viabilizem e facilitem as montagens no canteiro. Sem eles, a mão de obra pode ficar sobrecarregada, reduzindo o rendimento por hora. “Não adiantaria encher a obra de pré-fabricado e colocar uma talha para montar esses materiais. A falta de equipamentos pode minimizar todo um ganho de potencial que a pré-fabricação vem a trazer”, adverte Lemes.

É necessário incluir no projeto do canteiro um plano de ataque adequado, um sistema de transporte necessário e um desenho das posições bem coerentes
Ubiraci E. Lemes de Souza

A redução na mão de obra para a execução da construção pode representar um grau de mecanização. “Quando se faz um transporte manual de blocos com pallet por meio de uma grua é gasto um número de homem-hora completamente diferente daquele gasto com um concreto bombeado ou um concreto transportado com giricas”, compara.

A diferença extrema entre os níveis de mecanização pode ser notada ao comparar casos em que há ausência total de equipamentos para execução de um serviço e outros em que é aplicada a robotização em larga escala dos processos. Lemes exemplifica citando um vídeo famoso da Internet que mostra um garoto empilhando tijolos na cabeça, descendo de um barco e andando sobre uma tábua até chegar ao local onde deposita os materiais. “Esse seria o cúmulo da não-mecanização”, observa. “E, por outro lado, já é possível fazer prédios inteiros com impressoras 3D, de forma totalmente mecanizada”, compara.

Em relação à organização do trabalho, a otimização se dá por meio de práticas e métodos adotados pelos executores de obras que atendam às demandas de uma construção industrializada. “É necessário pensar como que é o trabalho da equipe que está ali na frente, como incluir no projeto do canteiro um plano de ataque adequado, um sistema de transporte necessário e um desenho das posições bem coerentes”, considera Lemes.

“A desorganização do trabalho refere-se a um local de produção onde as coisas não estão nos devidos locais, onde a forma de estocagem e de movimentação levam ao desperdício de tempo e de material, além da geração de resíduos”, conclui.

Colaboração técnica

 
Ubiraci Espinelli Lemes de Souza – Engenheiro civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (EPUSP) em 1983. Mestre em Engenharia de Construção Civil, também pela EPUSP, em 1989. Doutorado pela EPUSP/Pennsylvania State University em 1996. Livre docente pela EPUSP em 2001.
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