Paisagismo e a nova ordem

Publicado em: 03/12/2007


Em nossas cidades, a cada dia mais conturbadas, as questões ambientais passaram a ser assunto corriqueiro, transformando o paisagismo em quesito preponderante na mensuração da qualidade de vida. No momento em que todos voltam a atenção para o patrimônio verde de suas vizinhanças e à medida que a legislação ambiental vai se tornando mais minuciosa e rigorosa, a classe empresarial passa a perceber que um bom projeto paisagístico não só valoriza como ajuda a vender seus empreendimentos, não importando mais se estão destinados à classe A, B ou C. A nova ordem não admite mais os espaços despidos de vegetação, o predomínio do asfalto e do concreto, os rios espremidos entre muros e a natureza distante, restrita aos canais de tevê a cabo ou aos livros recheados com belas fotos mantidos sobre a mesa diante do sofá.


Se compararmos a publicidade dos lançamentos imobiliários dos anos 1970-1980 com a atual, constataremos que naquela época todo o esforço de venda se concentrava no apartamento e as plantas humanizadas, coloridas e muito elaboradas, eram imprescindíveis. Hoje em dia, freqüentemente deparamos com peças de propaganda que sequer mostram a unidade habitacional, pois é mais importante enfatizar a oferta de piscinas, gazebos, fontes d’água, praças, palmeiras e caminhos arborizados no condomínio. Por tudo isso, o empreendedor esperto já pensa duas vezes antes de mandar o trator “passar a régua” no terreno, derrubando o que encontrar pela frente antes de começar a obra – procedimento absurdo mas que imperou no Brasil desde o Descobrimento. E, a bem da verdade, ainda ocorre em muitos lugares.


Alguma coisa mudou, mas não sejamos ingênuos a ponto de achar que todos os nossos problemas acabaram, pois sabemos que o mercado responde apenas aos modismos – no caso, à moda ambientalista. Mas em função do acelerado crescimento do nível de consciência (e exigência) do consumidor padrão, estou convicto de que esse processo é irreversível, pois o que poderia parecer mera moda efêmera transformou-se em necessidade básica. Ainda estamos distantes do ideal, o que só contribui para aumentar a responsabilidade do arquiteto paisagista, de quem se exige, além das tradicionais preocupações estéticas na composição dos jardins, compromissos ambientais, uma vez que cada jardim do terceiro milênio deve ser compreendido como um fragmento do ecossistema envolvente, participando, ainda que de forma pontual, da monumental empreitada de resgate do que se deixou perder nos últimos quinhentos anos.