As exigências da vida útil dos edifícios

Um dos eixos da sustentabilidade da construção, a vida útil das edificações é prevista no projeto, passa pela durabilidade dos materiais, manutenção, inspeção e eventuais correções.

Publicado em: 01/03/2012Atualizado em: 09/04/2020

Texto: Redação AECweb

Entrevista: Luis Carlos Pinto da Silva Filho

As exigências da vida útil dos edifícios


Redação AECweb

A vida útil das edificações está diretamente relacionada aos quesitos de sustentabilidade, desempenho e segurança. “Estamos falando de economia de recursos: quanto mais tempo o material durar, menor será a necessidade de substituição, e mais sustentável será a construção”. Quem afirma é o engenheiro Luiz Carlos Pinto da Silva Filho, professor do Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e ex-presidente da Associação Brasileira de Patologia das Construções. Em entrevista ao AECweb, ele explica que durabilidade é um conceito aplicado aos materiais que, combinados e manipulados, são prioritários na vida útil dos edifícios. O engenheiro dá especial atenção à durabilidade do concreto armado, sistema estrutural que, apesar de recente, já está consolidado. E alerta para a importância da manutenção, inspeção e de eventuais correções das estruturas e dos componentes para garantir a vida útil dos edifícios.

AECweb – Durabilidade e vida útil são conceitos distintos?

Luiz Carlos Pinto da Silva Filho – Sim. O conceito de durabilidade está associado às propriedades do material e à sua exposição ao longo do tempo, num certo ambiente. Um pedaço de madeira ou de ferro vai manter suas propriedades numa atmosfera marinha por menos tempo se comparado às condições ideais dentro de um museu, por exemplo. Já a vida útil está diretamente relacionada à atividade econômica empregada para criar algo, desde uma peça estrutural até um equipamento. Ao investir energia e recursos financeiros para que determinado material se transforme num pedaço de uma cadeira ou de um edifício, é preciso que esses elementos durem o tempo suficiente que justifique o investimento. Quando falamos em edificações, portanto, temos que adotar o conceito de vida útil.

AECweb – Ou seja, a durabilidade do material é fundamental para a vida útil da edificação?
Luiz Carlos – Sim. Ao combinar a durabilidade de diferentes materiais, a edificação alcançará níveis de sustentabilidade, desempenho e segurança. É preciso considerar que os prédios são constituídos de microambientes de exposição: as fachadas, por exemplo, estão em um ambiente de exposição muito maior do que alguns elementos internos. É preciso fazer a gestão da durabilidade, escolhendo e manipulando as propriedades, e combinando materiais. A pintura de uma estrutura de concreto não altera a durabilidade desse material, mas aumenta sua vida útil em cerca de 20 anos. Assim é com boa parte das pontes de Porto Alegre que, pintadas com tinta acrílica desde os anos 90, registram deterioração muito inferior a das pontes de qualquer outro ponto do país.


AECweb – Quais os parâmetros que determinam a sustentabilidade de um material?

Luiz Carlos - A sustentabilidade é determinada pelo custo ambiental ao longo de todo o seu ciclo de vida. Temos que estabelecer a relação entre energia gasta e durabilidade. Se usamos um material que dura muito, porém gasta muita energia na sua produção, o cálculo será diferente daquele que usa pouca energia. O alumínio é um bom exemplo: gasta muito na partida, mas é durável. Já a madeira pode ter uma extração local, mas dura menos. Os metais que corroem, como o aço, têm mais problemas de durabilidade. Assim, se usássemos uma madeira polimérica dentro do concreto, em vez do aço, ele duraria muito mais. Porém, haveria o problema do alto custo e o concreto seria mais suscetível ao fogo.

AECweb – Qual a relação entre vida útil e desempenho?

Luiz Carlos - A vida útil do edifício se refere, também, ao desempenho que ele terá ao longo do tempo e que, por algumas razões, vai decaindo. Depois de certo período, o prédio chegará a um nível de performance insatisfatória, momento que define o final da vida útil do projeto. A ideia corrente de que a vida útil de uma edificação é de aproximados 50 anos, significa que, ao projetá-la, quero que todas as cláusulas de desempenho sejam, pelo menos, aceitáveis.

AECweb – O projeto consegue prever a vida útil do edifício?

Luiz Carlos – Depende. Acidentes como um carro que colide numa ponte, levando a uma situação inaceitável de desempenho – o que vai exigir a recuperação de um pilar, por exemplo – são imprevistos que acontecem no projeto. Já outros processos, como a corrosão de estruturas que podem ocorrer ao longo do tempo, exigem uma equação que explique como será o seu avanço e quais as alternativas para evitá-lo.

AECweb – Como evitar?

Luiz Carlos - Essa é a nossa dificuldade porque temos pouca história de concreto armado: as grandes estruturas construídas nos Estados Unidos datam da década de 20 do século passado, e não se sabe como esses prédios vão se comportar com idades mais elevadas. Conhecemos bem o histórico de estruturas de alvenarias de até mil anos e sabemos como se comportaram até hoje. Mas não temos nenhuma estrutura com 100 anos. O que se tem, atualmente, são apenas expectativas de quais são os mecanismos que vão afetar o desempenho do concreto armado. Os modelos existentes são muito complexos e exigem profundo e amplo conhecimento, e não há muitos outros disponíveis. Em âmbito acadêmico temos modelos que demonstram, por exemplo, como a ação de gelo e degelo nos países nórdicos irá degradar o concreto armado. Modelos como esse são de difícil utilização e estão, ainda, em fase experimental.

AECweb – O que há de certo hoje? 

Luiz Carlos - Basicamente, o grande desafio da vida útil é definir que modelo usar para prever o desempenho do concreto ao longo do tempo. Os modelos mais utilizados hoje são os da corrosão que, no fundo, é o grande mecanismo de deterioração das estruturas. Isso foi, em parte, o que orientou a questão dos 50 anos – pano de fundo da norma técnica de cálculo de concreto armado, ABNT NBR 6118. A norma faz algumas estimativas de que não deveria ocorrer a corrosão antes de 50 anos para certos concretos, com determinados comprimentos, desde que utilizados os parâmetros e ambientes de exposição que ela determina. Essa questão dos 50 anos não ficou exatamente explícita na norma – período que considero muito curto, se pensarmos em obras de barragens ou de estruturas submersas, que exigem manutenção de custo mais elevado. É possível afirmar, no entanto, que os prédios construídos a partir de 2003 ficaram muito mais seguros depois da revisão da norma.

AECweb – Qual o papel do uso e manutenção na vida útil do edifício?

Luiz Carlos – A manutenção do edifício é estratégica para sua vida útil e deve estar prevista já no projeto. Será preciso, muitas vezes, substituir os materiais que deterioram mais rápido, para que se compatibilizem com outros que têm mais durabilidade. É o caso, por exemplo, da troca de pintura das fachadas para proteger a alvenaria ou o concreto, a ser feita com frequência determinada pelos manuais de uso e manutenção dos edifícios. Já os cabos dos elevadores serão trocados mais cedo do que qualquer intervenção na estrutura de concreto.

AECweb – Inspeções frequentes são bem-vindas? 

Luiz Carlos – Mais do que isso, é preciso que os prédios adotem um sistema de inspeção, para verificar se os cálculos de vida útil feitos em projeto estão acontecendo na prática. Esse monitoramento vai permitir ajustar as previsões ou intervir, caso sejam detectados problemas não considerados no projeto, como algum fenômeno, carga ou qualidade inferior de material que influenciaram a rápida deterioração. Resumindo: a manutenção, que já vem do projeto, a inspeção e a eventual intervenção para correção como estratégia de acompanhamento, são fundamentais para garantir a vida útil.

AECweb – A construção civil vem considerando todos esses aspectos?

Luiz Carlos - A engenharia trabalha com muita segurança e, mesmo com eventuais pequenos erros ou com o abandono parcial da manutenção, os edifícios têm muita reserva, o que faz com que sobrevivam. O que temos que fazer, no Brasil, é um grande processo de valorização do que chamamos de conservação de estruturas. O país passa por uma forte onda de construções, porém, em médio prazo, será muito mais importante manter o patrimônio construído do que erguer obras novas. Isto levará ao crescimento do mercado de conservação de estruturas, que vão envelhecer e demandar mais intervenções.

AECweb – E qual o papel do poder público nessa ação?

Luiz Carlos - O poder público terá que aumentar a fiscalização de inspeção predial – serviço cada vez mais especializado de empresas com suas equipes multidisciplinares nas várias áreas da engenharia. Porque o síndico, responsável pelo condomínio, não tem formação para conduzir a inspeção e a manutenção. Cabe a ele contratar especialistas e jamais autorizar reformas por pessoal não habilitado – fator contribuinte dos colapsos que ocorreram recentemente no país.

AECweb – Quais os problemas identificados em prédios de Pernambuco?

Luiz Carlos - Em Pernambuco, prospecções feitas em edificações com 30 anos ou mais de existência mostraram que o solo tem determinadas propriedades altamente agressivas, que atacam e fraturam o concreto das fundações. Nada caiu até o momento, mas é um processo de deterioração que nenhum projetista considerou antes. A solução seria um programa de recuperação de algumas dessas estruturas para garantir que as edificações não venham a cair no futuro.

AECweb – Os engenheiros estão preparados para essa nova realidade?

Luiz Carlos – A Associação Brasileira de Patologia das Construções, que já presidi, considera que é preciso tornar obrigatória a disciplina de Patologias das Construções no currículo dos cursos de engenharia. O Brasil foi o primeiro na América Latina a desenvolver esse campo, tem grandes expoentes e muito conhecimento acumulado. Mas tudo isso tem que chegar aos engenheiros. Além disso, terá que haver um pacto um pouco mais claro entre quem cria e quem usa a edificação, definindo como serão compartilhados os riscos – que são pequenos, mas a tendência é que cresçam conforme os prédios vão envelhecendo.

Redação AECweb


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Luiz Carlos Pinto da Silva Filho - Engenheiro Civil e Mestre em Engenharia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. PhD em Civil Engineering pela Leeds University/UK. Professor Associado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, atualmente é coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil (PPGEC) e líder dos Grupos de Pesquisa LEME (Ensaios e Modelos Estruturais) e GRID (Gestão de Riscos em Desastres). Foi presidente da Associação Brasileira de Patologia das Construções (ALCONPAT Brasil) e da Associação Latino Americana de Controle de Qualidade e Patologia das Construções (ALCONPAT INTL). Fez parte do corpo diretivo da Associação Sul Americana de Engenharia Estrutural (ASAEE), do Instituto Brasileiro do Concreto (IBRACON) e da Associação Luso-Brasileira de Segurança contra Incêndio (ALBRASCI). É membro e consultor de várias associações científicas nacionais e estrangeiras e atua como representante brasileiro em comitês de normalização internacional. Já orientou mais de 30 trabalhos de mestrado e doutorado e publicou mais de 250 artigos científicos.