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Centro Sebrae de Sustentabilidade é o prédio mais sustentável das Américas

Inspirada nas ocas indígenas, a edificação recebeu o prêmio Breeam Awards 2018. Os destaques da obra são o conforto térmico e o aproveitamento da luz natural

Publicado em: 03/05/2018

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

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O Centro Sebrae de Sustentabilidade tem como objetivo disseminar os conhecimentos sobre sustentabilidade entre os pequenos negócios (foto: divulgação/Agência Sebrae de Notícias)

A Building Research Establishment, instituição inglesa responsável pela certificação Breeam, condecorou, em 2018, a arquitetura brasileira. O projeto do Centro Sebrae de Sustentabilidade (CSS), localizado em Cuiabá (MT), foi o vencedor de duas categorias do prêmio anual: melhor edifício sustentável das Américas pelo júri e pelo voto popular. Inspirado nas ocas indígenas, o prédio destaca-se pelo conforto térmico e pelo aproveitamento da luz natural.

“Foi muito bom receber o Breeam Awards 2018. Mas melhor mesmo é ver o desenho das habitações indígenas reconhecido como tecnologia e influenciando o julgamento internacional, com o respeito e cuidado que merece, e inserido na arquitetura contemporânea do país. O prêmio é dedicado aos índios do Brasil”, declara o arquiteto José Afonso Portocarrero, responsável pelo projeto e docente da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

Foi muito bom receber o Breeam Awards 2018. Mas melhor mesmo é ver o desenho das habitações indígenas reconhecido como tecnologia e influenciando o julgamento internacional. O prêmio é dedicado aos índios do Brasil
José Afonso Portocarrero

Segundo o professor, a inspiração para o CSS nasceu de trabalhos anteriores. “Em 1985, com o projeto do Centro de Ensino Superior do Médio Araguaia, influenciado pelas construções da tribo Bororo, iniciei uma lenta e longa pesquisa sobre as habitações indígenas. Com o aprofundamento de meus estudos na UFMT, aprendi que o desenho daquelas casas é carregado de tecnologia”, ele conta.

Com toda essa experiência na bagagem, o arquiteto recebeu o convite do superintendente do Sebrae-MT, José Guilherme Ribeiro, para elaborar o projeto do CSS. A premissa básica era que o edifício incorporasse inovação e sustentabilidade sem deixar a identidade local de lado. Assim, foram realizadas mais de 20 visitas a aldeias no Xingu, onde viveram os primeiros habitantes da região do Mato Grosso.

O CSS, inaugurado em 2010, abriga um laboratório de práticas ambientalmente responsáveis voltado para empresários, estudantes e instituições públicas. O principal objetivo do centro é disseminar os conhecimentos sobre sustentabilidade entre os pequenos negócios. “Nesses oito anos, já foram recebidos mais de 70 mil visitantes”, informa Portocarrero.

TÉCNICAS ARQUITETÔNICAS E CONSTRUTIVAS

De acordo com o arquiteto, “o projeto mostra que sustentabilidade é fundamental. Não se trata de copiar soluções, mas de buscar o desenho mais apropriado para cada situação, em qualquer lugar do país”. Ele lembra que os povos indígenas desenvolveram alternativas extremamente interessantes usando apenas o material disponível localmente.

O projeto mostra que sustentabilidade é fundamental. Não se trata de copiar soluções, mas de buscar o desenho mais apropriado para cada situação, em qualquer lugar do país
José Afonso Portocarrero

O sombreamento da edificação é essencial em Cuiabá. Inspirado na cobertura das ocas – que tem diferentes camadas de palha –, o telhado do CSS tem duas cascas separadas por cerca de 40 cm. Essa técnica é responsável pelo insulamento de ar quente. Além disso, quando chove, o telhado é capaz de captar a água pluvial e direcioná-la para o espaço entre as cascas, auxiliando no resfriamento do ambiente interno. Posteriormente, essa água é filtrada e armazenada para lavagem de pisos, irrigação, entre outras atividades. “Somada à ventilação natural, é uma técnica arquitetônica que diminui a necessidade do ar-condicionado”, complementa Portocarrero.

As fachadas contam com brises que fazem o controle da iluminação. Durante o dia, a luz do sol alcança todo o interior do prédio, reduzindo bastante o consumo de energia. Já a pequena correção na claridade é realizada com lâmpadas solares. Com isso, a iluminação é 100% independente de eletricidade.

Parte da vegetação nativa que existia no terreno foi mantida, pois a construção aconteceu sem a retirada de terra ou cortes no solo. Assim, o projeto teve de se adaptar ao declive existente. Outra premissa era o reaproveitamento dos materiais retirados da área, como madeira e pedras. Os resíduos orgânicos provenientes da lanchonete e da poda de árvores também são tratados no edifício através da vermicompostagem, técnica que aproveita minhocas e alguns microrganismos para degradar a matéria orgânica e gerar o húmus de minhoca, substância rica em nutrientes e bastante indicada para adubar plantas.

MATERIAIS E TECNOLOGIAS

Nesse projeto, as tecnologias mais avançadas foram deixadas de lado. “Prestamos atenção no desenho das habitações indígenas, analisando o que vinha sendo feito há muito tempo e que, de repente, parou de ser olhado”, comenta Portocarrero. Apesar de ter sido concebido sem sistemas modernos, o empreendimento recebeu, recentemente, microusinas fotovoltaicas em sua cumeeira, que reduzem o consumo de energia em 30%.

No prédio, arquitetura e estrutura estão integradas. Dessa forma, não há separação entre a cobertura e as paredes, o que foi possível graças ao uso do concreto aparente. “Para tanto, foi necessário o auxílio dos responsáveis pelo projeto estrutural, os engenheiros Manoel Santinho e Alberto Dalmaso”, destaca o arquiteto. Nos fechamentos laterais, foram usados aço e vidro.

Durante a execução, a construtora e os engenheiros tiveram de estudar bem o projeto, especialmente por ele ser diferente dos prédios convencionais.

Eficiência energética

No CSS, toda a economia de energia e água é frequentemente monitorada, bem como a gestão de resíduos. “O CSS foi o primeiro prédio do Mato Grosso a receber a etiqueta Procel, de eficiência energética, com nível A para projeto e edificação, em 2013. Três anos depois, foi considerado excelente e condecorado com o certificado Breeam in Use”, lembra José Afonso Portocarrero.

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Colaboração técnica

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José Afonso Botura Portocarrero – Graduado em Arquitetura pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Santos-SP. Em 1980, iniciou a carreira de docente no departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Em 1984, fez especialização em Planejamento Urbano na Dortmund Universität, na Alemanha. Foi presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil em Mato Grosso (IAB/MT) no período 1989/1990. Participou, em 1995, da criação do departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFMT. Cursou mestrado no departamento de História da UFMT e apresentou dissertação sobre a casa Bororo no ano 2000. Em 2006, defendeu a tese de doutorado Tecnoíndia, aprovada na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). Recebeu, em 2014, o título de arquiteto do ano da Federação Nacional dos Arquitetos (FNA).