Emprego de materiais reciclados ainda enfrenta desafios no Brasil

Resistência cultural das construtoras e dificuldades com a logística reversa são fatores que adiam a disseminação dessa importante solução para a redução do impacto ambiental da construção civil

Publicado em: 04/01/2023Atualizado em: 30/10/2023

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

foto de uma pessoa segurando uma espátula e uma tabua com argamassa líquida em cima
(Foto: Shutterstock)

O desenvolvimento de materiais reciclados resulta de esforço que envolve vários elos da cadeia da construção civil, desde as indústrias de materiais às universidades e construtoras, passando necessariamente pela logística reversa.

O apelo para a disseminação desses materiais se assenta na redução de custos e nas ações sustentáveis. “Notamos que o setor vem ampliando sua atuação nesse sentido, principalmente em relação à implementação de Práticas ESG (Ambiental, Social e Governança, da sigla em inglês)”, identifica a arquiteta Paula Jansen, diretora-executiva da ADN Construtora e Incorporadora.

Para Rodrigo Trevisan, gerente de Qualidade, Segurança, Meio Ambiente e Saúde (QSMS) da Libercon Engenharia, ao longo dos últimos anos, com o foco em obras sustentáveis e de certificações ambientais, o uso de reciclados vem ganhando cada vez mais notoriedade. “Materiais que antes estariam classificados como resíduos são reintroduzidos no processo de produção, promovendo diminuição nos gastos com o descarte”, observa.

"Materiais que antes estariam classificados como resíduos são reintroduzidos no processo de produção, promovendo diminuição nos gastos com o descarte"
Rodrigo Trevisan

Neste momento, segundo Jansen, persiste algum receio do setor quanto ao emprego das matérias-primas recicladas nas obras, condição que, acredita, mudará nos próximos anos. “O Brasil ainda tem muito a evoluir na concepção e desenvolvimento de como fazer essa reciclagem. Já existe tecnologia no mundo para se reciclar quase tudo, mas ainda encontramos barreiras culturais e financeiras para viabilizá-la no país”, analisa, lembrando a existência de universidades brasileiras de ponta, principalmente na área de engenharia de materiais, com diversas pesquisas sobre o assunto.

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O que utilizam

Trevisan conta que a empresa emprega, por exemplo, materiais de demolição em substituição à Brita Graduada Simples (BGS) na atividade de pavimentação e piso de concreto. Cita, também, o aço, que por si só já é composto em grande parte por sucata. “A madeira reciclada é utilizada em fôrmas, fechamentos, esquadrias de madeira e revestimentos”, acrescenta.

"Já existe tecnologia no mundo para se reciclar quase tudo, mas ainda encontramos barreiras culturais e financeiras para viabilizá-la no país"
Paula Jansen

A experiência da ADN é similar: “Usamos material reciclado transformado em agregado para subleito em áreas não estruturais, como calçadas e ruas”, diz a diretora. Entre os itens de mais fácil reciclagem ela menciona a madeira, o aço e o vidro. “Mas também é possível citar materiais de maior complexidade na reciclagem, como é o caso do gesso”, complementa.

Espaço para crescimento

Paula Jansen ressalta o papel da logística reversa, responsável por dar uma destinação correta aos resíduos e reinseri-los na cadeia produtiva, minimizando os impactos ambientais. “Porém, ainda há muita dificuldade, sobretudo no interior, para que as empresas grandes façam esse fluxo contrário de recolhimento dos materiais. Mas já é uma realidade e estamos fazendo alguns projetos em parceria com fornecedores”, fala.

O aproveitamento dos reciclados provavelmente será maior no futuro, pois a construção civil tende a repensar a utilização de materiais nos seus projetos, buscando por processos produtivos que possam gerar o menor impacto ambiental.

“É muito provável que os materiais reciclados conquistem mais espaço em diversas fases da execução da obra, como acabamentos, sistemas de energia, coberturas/telhados, estrutura e fundação”, avalia Trevisan.

Como parte desse processo, a Libercon procura identificar novas tecnologias, como o aço reforçado, a fibra de vidro em substituição às barras de transferência e madeira engenheirada para as estruturas. A iniciativa é acompanhada pela otimização do transporte dos materiais, privilegiando fornecedores mais próximos ao local da obra para a redução do consumo de combustível.

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Benefícios financeiros

O custo-benefício de materiais reciclados depende, pontualmente, da obra e do processo. “A reciclagem de alguns resíduos para reuso na própria obra, como o de agregados reciclados, pode gerar retorno financeiro se comparado ao custo para seu descarte”, informa Trevisan. Por outro lado, soluções como a de materiais de revestimento reciclados ainda possuem um preço mais alto no mercado.

Ele lembra que, inicialmente, novas tecnologias são dispendiosas, porém, em longo prazo trarão um equilíbrio ao projeto. “Especialmente quando somadas ao benefício financeiro oriundo dos ganhos com financiamentos de empreendimentos que possuem selos de impacto ambiental”, explica.

Jansen constata que, em geral, o emprego de materiais reciclados é financeiramente positivo. Por enquanto, essa tecnologia se vê diante de desafios como a barreira cultural, de alguns estudos ainda em fase iniciais, dos custos para recolhimento, transporte e reprocessamento dos materiais. “Porém, a logística deverá se viabilizar a partir da evolução e da escala que esses processos alcançarem, resultando em redução de custos”, defende a diretora.

Colaboração técnica

Paula Jansen – É formada em Arquitetura e diretora-executiva da ADN Construtora. Atualmente desenvolve e lidera equipes multidisciplinares que criam todas as linhas de produto da empresa, realizando estudos de viabilidade técnica e legal de novos negócios, projetos dos condomínios-clube, bem como todo o material técnico, executivo e comercial. Também lidera o comitê de sustentabilidade da empresa e foi responsável pela criação do comitê de inovação.
Rodrigo Trevisan – É Engenheiro Ambiental e de Segurança do Trabalho. Atua há mais de dez anos no setor da construção civil, nas áreas de qualidade, meio ambiente, segurança e saúde do trabalho de obras comerciais e residenciais; saneamento básico; infraestrutura; obras de arte especiais; construção e manutenção de rodovias; reformas prediais; retrofits; galpões logísticos e industriais, além dos segmentos de contratos ambientais.