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Gestão de engenharia e manutenção é função essencial em hospitais

O bom desempenho do gestor garante a continuidade da operação predial e dos equipamentos da instituição de saúde, além da segurança dos pacientes

Publicado em: 14/10/2022

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

foto de um engenheiro consertando uma máquina de tomografia
(Foto: Radiological imaging/Shutterstock)

Dados do Health Services Accreditation (IQG), a maior instituição acreditadora da América Latina, indicam que o Brasil hoje tem cerca de 6.800 hospitais. “A prática nos mostra que não existem hospitais iguais nesse universo. Cada instituição tem as suas particularidades e necessidades, mesmo pertencendo a uma mesma rede administrada por uma mesma empresa”, analisa o engenheiro Fumio Araki, especialista em administração hospitalar.

A gestão de engenharia e manutenção varia de hospital para hospital, públicos ou privados, em decorrência de fatores políticos, disponibilidade ou não de recursos financeiros, boa ou má administração, entre outros.

É, no entanto, determinante para a operação hospitalar, tanto predial como dos equipamentos. “Qualquer descontinuidade operacional coloca em risco de morte uma vida humana”, alerta Araki. A função abrange todas as disciplinas da engenharia, desde que o profissional tenha formação na área técnica da saúde, e se subdivide em duas áreas.

O gestor de engenharia e manutenção, propriamente, ocupa-se de gerenciar todas as instalações de um complexo hospitalar, desde a fase de projetos de arquitetura, atendendo integralmente as normas técnicas vigentes. É de sua responsabilidade manter os equipamentos e casas de máquinas na mais perfeita ordem, com uma eficiente gestão de manutenção preditiva, preventiva e corretiva.

Já o especialista em engenharia clínica ou graduado em engenharia biomédica realiza o gerenciamento do parque tecnológico do hospital e administra a operação e a manutenção dos equipamentos médico hospitalares. Estão incluídas tecnologias como ressonância magnética, tomografia, radiologia, medicina nuclear, acelerador linear, robótica, cardioversores, ventiladores mecânicos, carros de anestesia, entre vários outros.

O objetivo final do nosso trabalho é sempre oferecer a máxima segurança aos pacientes, médicos, enfermeiros e colaboradores. Ou seja, vidas humanas dependem de nós
Fumio Araki

O objetivo final do nosso trabalho é sempre oferecer a máxima segurança aos pacientes, médicos, enfermeiros e colaboradores. Ou seja, vidas humanas dependem de nós. Para tanto, esse profissional deve ter pleno domínio sobre as normas técnicas vigentes e de todos os processos operacionais técnicos”, diz. É preciso que tenha liderança e equipe corretamente dimensionada e capacitada, além de muita iniciativa e proatividade.

foto de um engenheiro consertando uma máquina de tomografia

Casas de máquinas: grupos geradores, central de energia elétrica, central de aquecimento, ar-condicionado, central de água gelada com filtragem

Ambientes críticos

Hospitais são constituídos de ambientes de missão crítica, com níveis de criticidades elevadíssimas, como os centro cirúrgicos de alta complexidade e unidades de terapia intensiva (UTIs). “Para esses ambientes, o gestor responsável deve fazer uso de equipamentos e sistemas conhecidos como fault tolerance, que garantem que sempre há outro equipamento de retaguarda, caso o principal falhe e deixe de funcionar”, fala.

Os hospitais são conhecidos por três grandes áreas: críticas, semicríticas e não críticas.

A área crítica é aquela que apresenta alto risco de transmissão de doenças infecciosas por conta da realização de procedimentos invasivos ou manuseio de equipamentos contaminados. Consequentemente, são áreas onde os pacientes correm riscos de morte em níveis mais elevados. “Portanto, não permitem falhas técnicas e humanas em hipótese alguma”, adverte Araki, elencando a UTI, centro cirúrgico, centro obstétrico, UTI neonatal, hemodiálise, hemodinâmica, laboratório de patologia clínica, unidade de queimados e banco de sangue, entre outras.

Ele define a área semicrítica como a que possui um menor risco de transmissão de agentes infecciosos. É o caso, por exemplo, de enfermaria, ambulatório, farmácia de medicamentos e banheiros. “Mas, ainda assim, precisam de todo o cuidado para que não haja contaminação”, comenta.

Já as áreas não críticas não apresentam nenhum risco de transmissão de doenças, pois não há pacientes contaminados. Por exemplo, recepção, almoxarifado, elevadores, administração, raio-X, ultrassom e área de tomografia.

Reforçando os cuidados redobrados que o gestor de engenharia e manutenção hospitalar deve ter nas áreas críticas, Araki menciona os problemas mais recorrentes nos hospitais do país:
• A quantidade alarmante de incêndios que tem ocorrido nas edificações hospitalares provocados por curtos-circuitos elétricos por falta de manutenção ou por sobrecargas;
• Geradores que falham numa interrupção de energia elétrica e levam pacientes a óbito nas áreas críticas, inclusive nos setores de emergência e recuperação pós-anestésica;
• As inundações de água e de esgotos nos diversos ambientes hospitalares por rompimentos ou obstruções de tubulações, provocando enorme risco de contaminação e infecção hospitalar;
• Elevadores que despencam causando vítimas e óbitos por falhas de operação e por falta de manutenção.

Erros nos projetos de arquitetura

As edificações hospitalares são as mais complexas e as mais caras, em função das suas características e especificações. O projeto de arquitetura hospitalar e os complementares, onde tudo começa, deve considerar requisitos essenciais. “O profissional que se propõe a projetar um espaço de saúde não pode se limitar apenas aos aspectos de ambientação, embelezamento, funcionalidade, humanização e novas tecnologias”, adverte.

“Ele deve ter conhecimento sistêmico das instalações de infraestrutura predial, que oferecem todo o suporte necessário para que o espaço de saúde projetado e suas instalações operem adequadamente em todos os seus níveis de complexidade. É na fase de projeto de arquitetura que deve ser planejada a gestão de manutenção predial e das suas inúmeras instalações”, acrescenta.

É fundamental que o projeto atenda a Resolução RDC nº 50, de 21 de fevereiro de 2002, do Ministério da Saúde – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que dispõe sobre o Regulamento Técnico para planejamento, programação e avaliação de projetos físicos de estabelecimentos assistenciais de saúde. Precisa, também, contemplar a expansibilidade e a flexibilidade. “O bom projeto é aquele que permite visualizar como e de que forma o hospital crescerá ao longo do tempo, com o mínimo de intervenções e gastos por ser flexível”, observa.

Na fase de concepção da edificação, deve ser elaborado o estudo de viabilidade econômica e financeira, para garantir a sustentabilidade da instituição de saúde a ser projetada. Independentemente de se tratar de instituição pública ou privada, de obra nova, reforma ou ampliação.

O bom projeto é aquele que permite visualizar como e de que forma o hospital crescerá ao longo do tempo, com o mínimo de intervenções e gastos por ser flexível
Fumio Araki

“Sem esses cuidados estaremos fadados a fracassos, com projetos de arquitetura e de instalações mal elaborados, mal dimensionados e que não permitem o equacionamento e o equilíbrio entre o ‘capex’ e o ‘opex’, fundamentais para o sucesso do investimento. Todo hospital, público ou privado, deve ter resultado financeiro positivo para a sua operação e sobrevivência no mercado”, defende.

Entre os erros de projetos de arquitetura e complementares mais relevantes, que impactam a operação hospitalar, o especialista cita o comprometimento na biossegurança, controle de infecção hospitalar e segurança do paciente; casas de máquinas e instalações subdimensionadas; instalações entre forro e laje improvisadas por falta de projetos que impossibilitam um bom planejamento de manutenção preditiva, preventiva e corretiva.

É comum, também, os editais de licitação/concorrência mal elaborados e com falhas nas especificações técnicas para contratação de construtora ou empresa de instalações. Em consequência, há importante comprometimento da qualidade dos serviços executados.

Falhas na execução das obras

Obras de construção civil e de instalações de infraestrutura predial em hospitais não são as mesmas de uma edificação residencial, comercial ou corporativa. “Uma série de cuidados e planejamentos adicionais devem ser tomados, por exemplo, sob o ponto de vista de infecção hospitalar. Não podemos permitir que em obras ou reformas, as demolições e circulação de materiais, entulhos e de pessoas sejam feitas sem a rotina de procedimentos segura”, explica.

É preciso, entre outros cuidados, que o canteiro faça o controle da poeira gerada na obra. O material é grande transportador de microrganismos e partículas que provocam a contaminação e a infecção hospitalar.

Outro cuidado é que os tapumes de vedação incorporem materiais de isolação acústica, pois a poluição sonora colabora para aumentar a pressão arterial e a ansiedade dos pacientes internados.

Segundo Araki, ocorrem muitas falhas durante a execução das obras e instalações até a fase do aceite final. Ele aponta as de fiscalização; de segurança do trabalho; falta de controle do cronograma físico e financeiro e, também, de controle da qualidade dos materiais e da mão de obra; e materiais acondicionados de forma inadequada.

“Erro na execução de rede de gases medicinais é gravíssimo. A inversão de oxigênio e de ar comprimido na cabeceira de um leito de UTI provocou vários óbitos numa instituição hospitalar brasileira há pouco tempo”, conta.

O improviso de instalações diversas entre forro e laje das áreas críticas não oferece as mínimas condições de manutenção preventiva e corretiva. Resultam em curto-circuito, princípio de incêndio, rompimentos de tubulações de água e esgoto que se verificam em grande quantidade nas instituições hospitalares.

foto de um engenheiro consertando uma máquina de tomografia

“Quando o hospital começa a operar, necessita de manutenção e, invariavelmente, aparecerão reformas. Portanto, é uma roda viva, pois hospitais são eternas obras”, observa. Antes de iniciar reformas ou ampliações, deve ser feito um bom planejamento para definir o passo a passo de cada etapa a ser executada. Os responsáveis pela execução e condução dos trabalhos devem ter o conhecimento das normas vigentes da ABNT e do Ministério da Saúde.

Mitigar infecções hospitalares

O Ministério da Saúde define, em Portaria, que a “infecção hospitalar é qualquer infecção adquirida após a internação do paciente e que se manifesta durante a internação ou mesmo após a alta, quando puder ser relacionada com a internação ou procedimentos hospitalares”.

Com a experiência de mais de 40 anos em gestão de engenharia e manutenção hospitalar, Araki afirma que inúmeras atividades vinculadas à função podem mitigar as infecções hospitalares, como a utilização de materiais de revestimentos para pisos, paredes e forros de boa qualidade e que facilitem a higienização.

A manutenção preditiva, preventiva e corretiva programada das diversas instalações e equipamentos tem importante papel no controle de infecção hospitalar. É o caso das centrais de ar-condicionado das áreas críticas, que exigem filtragem com controle da qualidade do ar. E, também, das autoclaves de esterilização com validação e qualificação térmica; reservatórios de água potável com limpezas programadas e laudos; e sistemas de tratamento da água por osmose reversa.

Os dutos de ar-condicionado também podem se tornar focos de proliferação de fungos e bactérias se não forem feitas limpeza e manutenção frequentes, ou pela falta de filtros no sistema de climatização. “Sabemos que um vírus de 0,07 µm a 0,08 µm se manifesta agregado a uma partícula ou gotícula, atingindo dimensões de 0,5 µm a 0,7 µm. O filtro HEPA é a solução para as áreas críticas hospitalares, com 99,99% de eficiência ao reter partículas maiores que 0,3 µm”, recomenda Araki.

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Colaboração técnica

Fumio Araki – É Engenheiro Civil e de Segurança do Trabalho pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp (1975), com especialização em Administração Hospitalar na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paul - USP (1999). Tem mais de 40 anos no gerenciamento em engenharia e manutenção hospitalar, engenharia clínica, serviços de apoio (lavanderia, higiene, segurança patrimonial, segurança do trabalho, suprimentos) em hospitais de grande porte de São Paulo. Atuou como Gerente de Planejamento de Obras Industriais na Construtora Toda do Brasil SA. Foi coordenador e professor de cursos de Especialização Lato Sensu em Manutenção e Engenharia Hospitalar – Faculdade de Administração Hospitalar do Instituto de Pesquisas Hospitalares Arquiteto Jarbas Karman – IPH (2000/2006), e na Faculdade de Engenharia Industrial – FEI (2006/2010). Atualmente, é coordenador e professor dos cursos de extensão e de pós-graduação de Engenharia e Manutenção Hospitalar do Instituto Brasileiro de Educação Continuada – INBEC.