Gestão integrada e conservação de água são vitais para atingir o Net Zero Water

Conheça mais sobre as tecnologias disponíveis e os cuidados necessários para captar, tratar e recircular a água nos edifícios

Publicado em: 05/05/2022

Texto: Juliana Nakamura

foto de um pingo de água caindo
A instalação de arejadores e restritores de vazão e a adoção de sistemas inteligentes para evitar perdas no aquecimento da água são algumas estratégias para reduzir o consumo e o desperdício (Foto: Peter Bocklandt/Shutterstock)

Quando falamos em eficiência hídrica, o melhor estágio que um empreendimento pode alcançar é a condição Net Zero Water. Estamos nos referindo a construções que são autossustentáveis no uso de água, combinando medidas de conservação, diversificação da matriz hídrica e preservação do equilíbrio ecossistêmico dos mananciais. “Um edifício neutro em água é aquele onde a quantidade de insumo alternativo utilizado é balanceada com o volume devolvido, com a qualidade igual ou superior à fonte original consumida na edificação”, explica a engenheira Virgínia Sodré, diretora da Infinitytech.

TECNOLOGIAS PARA CONSERVAÇÃO DE ÁGUA

A concepção de um edifício com máxima eficiência hídrica começa com ações simples para reduzir o consumo e o desperdício. Entre elas, a instalação de arejadores e restritores de vazão e a adoção de sistemas inteligentes para evitar perdas no aquecimento da água. Em empreendimentos residenciais, o maior potencial de redução está nos chuveiros, responsáveis por mais de 40% de toda a água consumida na edificação.

Em edificações comerciais, a gestão da demanda nos pontos de consumo consegue proporcionar reduções de até 30% de água potável. “A depender da conta de água do empreendimento, a implantação da maioria dessas soluções possui payback financeiro inferior a um mês de operação”, revela Sodré.

Uma estratégia fundamental em edifícios preocupados em racionalizar o consumo de água é o monitoramento da quantidade de água consumida em tempo real e dos parâmetros de qualidade. Ao comparar o balanço hídrico do empreendimento com os indicadores de consumo em tempo real, é possível verificar possíveis anomalias na operação e adotar intervenções corretivas rapidamente.

Sobretudo em edificações com grandes demandas de água, ganhos significativos podem ser obtidos com a diversificação da matriz hídrica, adotando as fontes alternativas de água potáveis e não potáveis como o reúso de efluentes, o aproveitamento de águas do sistema de ar condensado e das chuvas.

Sodré ressalta, contudo, que o uso de fontes alternativas exige uma estrutura preparada, seguindo as determinações da ABNT NBR 16.782: Conservação de Água em Edificações e da ABNT NBR 16.783: Uso de Fontes Alternativas de Água não Potável. Em vigor desde 2019, essas normas trazem conceitos importantes para o tratamento de água captada, como a definição de um plano de gestão e manutenção. “Infelizmente é comum vermos a não identificação clara de água não potável, implicando em riscos sanitários”, alerta Sodré. “Em edificações existentes, inclusive, é recomendável a realização de auditoria das normas para identificar problemas, como conexões cruzadas”, lembra Sodré, alertando para os riscos sanitários.

Complementares às estratégias para conservação de água, há as soluções baseadas na natureza, como trincheiras de infiltração e jardins de chuva, que visam garantir o melhor manejo das águas pluviais. Essas infraestruturas verdes auxiliam a recarga dos mananciais subterrâneos e a manutenção do escoamento de base que, que por sua vez, recarregam os corpos hídricos superficiais, mantendo a disponibilidade hídrica da bacia.

DESAFIOS TÉCNICOS, FINANCEIROS E OPERACIONAIS

O desenvolvimento de empreendimentos Net Zero Water impõe uma série de desafios, a começar pela viabilidade financeira, diretamente atrelada às tarifas de água pagas às concessionárias de saneamento versus os custos de implantação e de operação das soluções.

Em linhas gerais, a viabilidade do uso de fontes alternativas depende da demanda de água da edificação. Afinal, quanto maior a demanda, maiores tendem a ser as tarifas de água e esgoto. “Atualmente no Brasil, a diversificação da matriz de abastecimento por fonte alternativa potável, como a exploração de água de poço, é muito atrativa, uma vez que ainda não há cobrança pelo uso da água na maioria das bacias hidrográficas”, comenta Sodré.

Além disso, o projeto pode ter que lidar com a limitação dos espaços físicos disponíveis para as instalações de sistemas de tratamento, bem como com a condição de permeabilidade do terreno.

EXEMPLOS PRÁTICOS

Uma solução que permite tratar as águas residuais das edificações in loco é a construção de jardins flutuantes (wetlands, em inglês). Esse sistema de tratamento replica a natureza, utilizando espécies aquáticas que atuam como filtros, permitindo a devolução da água para a natureza ou para reaproveitamento em descargas sanitárias. Essa tecnologia foi utilizada no Eurobusiness, edifício de 14 andares em Curitiba, PR, o primeiro a alcançar a certificação LEED Zero Água, concedida pelo World GBC (Green Building Council).

Outro empreendimento Net Zero Water é o Catarina Fashion Outlet, em São Roque (SP). O shopping adotou uma abordagem integrada da água, incluindo estratégias de conservação e gestão de demanda, a diversificação da matriz hídrica e a instalação de infraestrutura verde. Visando elevar a resiliência frente às mudanças climáticas, foram instaladas trincheiras de infiltração para controle do escoamento superficial na fonte e no próprio reservatório de detenção. “Também foram construídos jardins de chuva, para favorecer a infiltração no solo e atenuar ainda mais os impactos na bacia”, revela Virgínia Sodré.

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Colaboração técnica

 
Virgínia Dias de Azevedo Sodré – Mestre em hidráulica e saneamento pela USP, com MBA executivo internacional pela FIA. É diretora da Infinitytech e atua, desde 2008, nos comitês técnicos de água do GBC Brasil e do CBCS (Conselho Brasileiro da Construção Sustentável). Foi coordenadora das novas normas ABNT de conservação de água e de uso de fontes alternativas não potáveis em edificações.