Maturidade e valor são as novidades da versão 4 da certificação LEED

Vários aprimoramentos foram apresentados pela certificação de sustentabilidade, de modo a responder a críticas do mercado em relação às suas versões anteriores

Publicado em: 20/02/2018

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

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As inovações na versão 4 do LEED tornam mais claro o processo de obtenção do certificado (petrmalinak / Shutterstock.com)

O U.S. Green Building Council (USGBC) introduziu importantes inovações na versão 4 do LEED, o que pode representar impactos importantes nos projetos arquitetônicos que buscam essa certificação. Muitas das melhorias implementadas tornam mais claro o processo de obtenção, enquanto outras respondem a críticas recorrentes às versões anteriores. Abrangente, o guia da certificação para novas construções tem, agora, 817 páginas. “Houve um crescimento explícito de conteúdo em relação ao que se tinha antes”, observa o arquiteto David Douek, diretor da OTEC Consultoria.

De caráter formal, a primeira mudança que ele destaca foi a substituição da numeração dos créditos por sua denominação. “É interessante observar com atenção essa mudança, pois reflete a preocupação do órgão auditor (o USGBC) em destacar o conteúdo de cada crédito”, diz.

PROCESSOS INTEGRATIVOS

A certificação ganhou um novo crédito denominado “Processos Integrativos”. Ele incentiva a realização de um processo organizado entre todos os atores do projeto, inclusive com a participação do proprietário do empreendimento. O objetivo é que, desde o início do projeto, as análises fluam para a identificação de potenciais melhorias em eficiência energética e hídrica.

“Funciona à semelhança da prática da charrete, reunião multidisciplinar dos profissionais envolvidos no projeto, que foi formalizada em um crédito”, esclarece Douek. “Trata-se de uma melhoria porque reforça a importância da interação entre as disciplinas na busca pelo equilíbrio entre as soluções de sustentabilidade”, completa o especialista.

Deve-se ressaltar que esse é um crédito e não um pré-requisito. O consultor entende que, pelo histórico da certificação, o USGBC poderá tornar esse crédito obrigatório, em uma próxima versão, inclusive aumentando as exigências. No caso dos projetos hospitalares, os Processos Integrativos já são obrigatórios.

TIPOLOGIAS

Diante de questionamentos ocorridos no passado, quanto a se determinados créditos se aplicavam a todas as tipologias de empreendimentos, a nova versão vem com o máximo de definição. “Muitos profissionais entendiam que o crédito que fazia sentido para um centro logístico era inadequado para hospitais ou cabia bem para edifícios corporativos, e assim por diante”, observa Douek.

A versão 4 define, no início de cada pré-requisito, para qual tipologia ele se aplica. Por exemplo: no crédito de “Medição do nível energia consumida no prédio”, o LEED esclarece que diz respeito a novas construções, core and shell, escolas, varejo, data centers, centros de distribuição, hotelaria e hospitais.

Outro exemplo de alteração diz respeito à instalação de bicicletários. “Dependendo das condições de contorno, a instalação de um bicicletário, embora contribuísse com um dos créditos da versão anterior, era avaliada com atenção. A ausência de uma malha cicloviária colocava em xeque a decisão de instalá-lo ou não. A segurança do ciclista era obviamente ponderada na decisão”, afirma o consultor. Na nova versão, a instalação do bicicletário será pertinente em edifício localizado em região onde há ciclovia. E, mais, que essa faixa exclusiva conecte o prédio com serviços de transporte, como estação de metrô.

“Para os projetos implantados em meios onde não há uma infraestrutura cicloviária adequada, a busca pela respectiva pontuação ficará provavelmente prejudicada. Ainda assim, mesmo que sem impacto para a certificação LEED, considerar a inclusão de um bicicletário deve levar em conta outros aspectos tais como facilidade de acesso ao local por bicicleta, perfil de deslocamento dos ocupantes do edifício e perspectiva de conexão com outras malhas cicloviárias”, explica.

O crédito de “Otimização Energética” é exemplo de adequação da pontuação à tipologia da edificação. Para novas construções, vai de de 01 a 18 pontos; escolas, de 01 a 16; e hospitais, de 01 a 20.

“Essa ponderação é válida em função da influência do perfil de consumo energético de cada edifício sobre as oportunidades de eficiência energética. Considerando dados como a ocupação, horário de uso, tipologia dos sistemas instalados, tipologia do edifício (verticalização ou horizontalização), temos de adotar diferentes estratégias para alcançarmos a eficiência energética almejada. Como para cada uma delas há condicionantes diferentes, é razoável considerar que o peso da respectiva pontuação LEED varie de caso a caso”, diz.

BAIRROS

A nova versão instituiu um novo crédito para “New Constructions” (novas construções) que forem instaladas em projetos certificados pelo LEED ND – Bairros. De acordo com Douek, essa é mais uma forma do USGBC incentivar projetos de incorporação e de urbanismo sustentável, com efeito exponencial.

VEÍCULOS ‘VERDES’

Um crédito que aponta tendência é voltado para veículos ‘verdes’, antes denominados de transporte alternativo, de baixa emissão ou de combustíveis eficientes. Além de uma área mínima destinada a esse tipo de transporte, agora 2% da capacidade de estacionamento do prédio deve ser destinada a pontos de abastecimento para carros elétricos ou sala de bateria para recarga.

“É uma exigência bastante interessante, pois responde à dúvida de quem está pensando em ter um carro elétrico, mas que não tem onde recarregar no edifício em que trabalha ou mora. Na medida em que a infraestrutura predial dispuser desse posto de abastecimento, estará incentivando o usuário a ter um carro elétrico. Ou seja, cumpre o ciclo da sustentabilidade”, observa o consultor.

ESQUADRIAS

Caso o proprietário do empreendimento opte por buscar o crédito de comissionamento avançado por meio do comissionamento da envoltória (fachadas e cobertura), será necessário ensaiar as esquadrias. O desempenho desse item envolve testes de infiltração de ar, infiltração de água, exaustão, desempenho térmico, pressão, vazamento de ar e controle de ofuscamento.

Aqui, Douek abre um parêntese para explicar o papel do comissionamento: “O proprietário do empreendimento, por intermédio de um engenheiro ou agente de comissionamento, tem os seus requisitos verificados ao longo do projeto e da execução da obra. O objetivo é que o edifício opere em consonância com o desejo do proprietário, sublinha.

Ele considera essa novidade na versão 4 uma evolução, inclusive porque tangencia as exigências da ABNT- NBR 15575 em relação ao desempenho do sistema de fachadas. “Ainda que sendo um crédito – e não um pré-requisito –, o tema passa a ser discutido”, comenta.

CICLO DE VIDA

Uma inclusão igualmente importante é a da Análise do Ciclo de Vida (ACV) das edificações como forma de medir e de, portanto, identificar oportunidades de redução do impacto ambiental. Alinhada com uma crescente tendência internacional, a prática já encontra eco no Brasil. Essa análise parte das informações básicas dos materiais e equipamentos, que permitem projetar o tempo mínimo de uso para cada um deles.

A Análise do Ciclo de Vida foi mais uma resposta da versão 4 a uma preocupação recorrente no mercado quanto à inexistência de critérios para estabelecer uma relação entre o edifício novo e sua fase de operação
David Douek

“Essa foi mais uma resposta da versão 4 a uma preocupação recorrente no mercado quanto à inexistência de critérios para estabelecer uma relação entre o edifício novo e sua fase de operação”, considera o especialista. “A inclusão da ACV traz mais valor ao LEED. O esforço é visivelmente direcionado a ampliar o efeito das ações adotadas nas fases de projeto e obra para a fase de operação e manutenção”, diz.

CONCLUSÕES

Na análise de David Douek, a nova versão do LEED demonstra um notável nível de maturidade, consequência do aperfeiçoamento da versão anterior. Com isso, ela renova o valor da certificação do ponto de vista da percepção do mercado.

Quem obtém o LEED ganha o reconhecimento da sociedade de um feito significativo
David Douek

“Quem obtém o LEED ganha o reconhecimento da sociedade de um feito significativo. Isso leva ao acréscimo da responsabilidade ambiental à estratégia de comunicação dos incorporadores e/ou proprietários do empreendimento. Um feito, portanto, inquestionável do ponto de vista de valor”, conclui.

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Colaboração técnica

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David Douek – LEED AP, é diretor de desenvolvimento da OTEC, professor convidado do Green Building Council Brasil e mestrando pela Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP). Arquiteto e urbanista pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), administrador de empresas pela Universidade Mackenzie, especialista em Green Buildings pela Colorado State University e especialista em investimentos imobiliários pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).