Teatro da Praça Pamplona: arrojo arquitetônico e concretagem especial

A cobertura composta por três camadas – membrana de concreto, camada de cobre suportada por vigas metálicas e membrana de projeção – impôs muitos desafios técnicos. Confira!

Publicado em: 19/06/2017Atualizado em: 24/08/2021

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

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Teatro digital em forma de planetário construído na Praça Pamplona (divulgação/ Kruchin Arquitetura)

Recém-concluído na região da avenida Paulista, em São Paulo, o complexo Praça Pamplona é repleto de particularidades. O empreendimento da Tegra de quase 37 mil m² construídos é composto por uma torre comercial de 22 pavimentos, um edifício destinado ao centro de pesquisa do Instituto de Física Teórica da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e um casarão preexistente totalmente restaurado, além de bosque e praça de convivência. Também conta com um teatro digital em forma de planetário, que poderá ser utilizado para a projeção de vídeos, exposições, palestras e eventos.

As formas do teatro digital ficaram mais claras em minha mente quando me deparei com uma concha encontrada casualmente em um passeio na praia
Samuel Kruchin

Esta última construção, capaz de acomodar até 130 espectadores, é o elemento esteticamente mais impactante do complexo. A estrutura consiste em uma cúpula de cobre em formato de meia esfera para projeção 360 graus, envolvida por uma casca rochosa de formas irregulares.

Em sintonia com o contexto no qual se insere – o teatro pertence ao Instituto de Física – a arquitetura faz clara referência ao cosmos e ao nascimento das estrelas. O conjunto também remete às conchas calcárias, de superfícies rugosas, que envolvem pérolas. O arquiteto responsável pelo projeto, Samuel Kruchin, conta que isso não foi à toa. “As formas do teatro digital ficaram mais claras em minha mente quando me deparei com uma concha encontrada casualmente em um passeio na praia”, conta.

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Esboço do projeto do teato digital na Praça Pamplona (divulgação/ Kruchin Arquitetura)

A PÉROLA DO EMPREENDIMENTO

Para viabilizar a ideia de Kruchin, os construtores enfrentaram uma série de desafios técnicos. O projeto estrutural, realizado pela engenheira Neide Góes para o teatro, previu a construção de uma estrutura de aço composta por treliças e dois pilares de sustentação laterais preenchidos com concreto bombeado. Sobre essa estrutura, que sustenta a tela de projeção, foram instaladas as placas de cobre para fechamento. De fora para dentro, a cobertura é composta por três camadas juntas e sobrepostas: uma membrana de concreto, uma camada de cobre suportada por vigas metálicas e, por fim, uma membrana de projeção.

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Construção do teato digital na Praça Pamplona (divulgação/ Kruchin Arquitetura)

A cúpula em formato de concha mede 21m de largura x 30m de comprimento x 17 m de altura. Para a sua construção, utilizou-se concreto projetado via úmida com espessuras variáveis de 60 a 20 cm. O material foi lançado sobre moldes de madeira resinada apoiada em escoramentos metálicos. O resultado foi uma cobertura com textura lisa do lado interno e uma rugosidade expressiva do lado externo.

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Construção interna da cobertura do teato digital na Praça Pamplona (divulgação/ Kruchin Arquitetura)

A angulação da cúpula, que demandou inclinação variável das fôrmas e a alta taxa de armadura, exigiu treinamento extra do operador e cuidados especiais no momento da aplicação do concreto. O material deveria ficar bem adensado e proporcionar uma cúpula estanque. Isso exigiu a especificação de um concreto com baixa relação água/cimento e a impermeabilização com pulverização de polimetil-metacrilato.

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Camadas da cobertura do teato digital na Praça Pamplona (divulgação/ Kruchin Arquitetura)
Para atingir tais características [concreto com fck 50 MPa de resistência à compressão e 34 GPa de módulo de deformação], adotou-se um traço com adição de sílica ativa
Pedro Bilesky

CONCRETAGEM ESPECIAL

Para a confecção da cúpula, foi especificado concreto com fck 50 MPa de resistência à compressão e 34 GPa de módulo de deformação. “Para atingir tais características, adotou-se um traço com adição de sílica ativa, que confere maior coesão à mistura, ajuda a prevenir possíveis reações dos agregados com os álcalis do cimento, reduz calor de hidratação e aumenta a resistência à compressão”, revela Pedro Bilesky, engenheiro da PHD Engenharia, empresa de consultoria que desenvolveu o estudo de dosagem do concreto e elaborou o procedimento executivo para a concretagem do teatro.

Também foram adicionadas à mistura fibras de polipropileno. O objetivo foi atender melhor ao desempenho físico esperado, combatendo a fissuração por conta da retração hidráulica das primeiras idades. Para aumentar a estanqueidade e a durabilidade da estrutura, fixou-se a relação água/cimento máxima em 0,45.

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Detalhes da concretagem com concreto projetado (divulgação/ Kruchin Arquitetura)

Segundo Bilesky, as premissas de resistência à compressão não foram apenas atendidas, como superadas. Na cobertura do teatro, a média obtida de resistência passou de 65 Mpa, e o módulo de elasticidade médio superou os 42 GPa.

Uma vez definido o traço, foi construído um protótipo (mockup) em escala real no próprio canteiro de obras, para testar e analisar possíveis dificuldades de execução, desde o fornecimento do concreto até a sua aplicação e acabamento. As inclinações mais acentuadas em alguns trechos e a região de concretagem com maior acúmulo de armaduras foram previamente estudados. Ao todo, foram utilizados 355 m³ de concreto, dos quais 42 m³ lançados normalmente e 313 m³ foram projetados.

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A arquitetura faz referência ao cosmos e ao nascimento das estrelas (divulgação/ Kruchin Arquitetura)

O acabamento final, que confere à casca um efeito etéreo e de profundidade, foi realizado com pintura spray de base azul e vermelha, como um grafite. “Internamente, fixado à treliça metálica, o teatro recebeu camada de lã de rocha para absorção acústica”, finaliza Samuel Kruchin.

Colaboração técnica

Samuel Kruchin – Arquiteto e urbanista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, titular da Kruchin Arquitetura. Foi um dos primeiros arquitetos a trabalhar com o tema da preservação e restauro no Brasil no âmbito privado..
Pedro Bilesky – Engenheiro civil, mestre em tecnologia do concreto. Compõe o corpo técnico da PHD Engenharia, empresa de consultoria liderada pelo professor Paulo Helene (Poli-USP).