Treliças lançadeiras viabilizam o lançamento de vigas pré-moldadas em pontes

Capaz de vencer grandes vãos, equipamento automotor é utilizado em situações de difícil acesso, muitas vezes em substituição aos guindastes. Seu uso requer projeto de engenharia adequado

Publicado em: 21/05/2018Atualizado em: 22/05/2018

Texto: Juliana Nakamura


As treliças lançadeiras substituem os guindastes em determinadas aplicações (foto: divulgação / Protende)

As treliças lançadeiras são equipamentos automotores destinados ao lançamento de vigas pré-moldadas e que viabilizam a construção de pontes e viadutos com amplos vãos livres. Além de permitir o lançamento de vigas de comprimentos, dimensões e pesos variados, elas podem otimizar a construção quando o plano de movimentação de cargas é complexo, inclusive em terrenos e vales aos quais o sistema de guindastes não tem acesso.

As treliças lançadeiras são úteis principalmente quando usadas em obras de arte longas formadas por vãos isostáticos com vigas bi-apoiadas. Esse tipo de equipamento foi empregado, por exemplo, na construção da ponte Anhumas, em São Paulo. Nessa obra – que envolveu o lançamento de vigas de até 40 metros e 80 toneladas em uma altura de 20 metros – o consórcio construtor precisava de uma solução que não dependesse das condições do terreno, nem interferisse no fluxo de veículos das vias.

SUBSTITUINDO GUINDASTES

Uma aplicação importante das treliças lançadeiras é em substituição ao guindaste no lançamento de peças lineares. O que define a escolha por uma ou outra solução são, basicamente, as condições do terreno. A treliça pode se apoiar sobre os pilares já construídos, o que permite maior versatilidade de utilização. “Já o guindaste precisa estar em um piso regular, que deve suportar o peso do equipamento e da viga”, comenta o engenheiro Manuel Carlos Escaleira, diretor operacional da Rohr. Ele conta que, em obras sobre rios, por exemplo, o lançamento com guindaste fica mais complicado, pois precisa ser apoiado em balsas.

Mas também não é qualquer situação de projeto que admite o uso de treliças. Esse equipamento tem como uma de suas limitações os raios de curva da ponte, que não podem ser muito fechados. “Outra restrição é o trabalho em inclinação. A rampa máxima admissível pela treliça é de 6%, em alguns casos de 5% dependendo do peso da viga”, diz Eslaceira, lembrando, ainda, que a treliça jamais pode trabalhar em um plano inclinado transversalmente em relação à ponte.

Como estamos falando de treliças grandes e pesadas, o custo de mobilização geralmente só se justifica para lançamento de muitas vigas, em obras de arte longas
Cristiano Ferreira de Sá

“Como estamos falando de treliças grandes e pesadas, o custo de mobilização geralmente só se justifica para lançamento de muitas vigas, em obras de arte longas”, diz o engenheiro Cristiano Ferreira de Sá, diretor da Protende. Ele explica que, de modo geral, a escolha entre treliça lançadeira e guindaste está muito associada à quantidade de vigas a ser lançada e à possibilidade de se patolar o guindaste com um raio compatível com o equipamento.

As treliças lançadeiras se diferenciam das treliças de balanço sucessivo, usadas principalmente para obras de arte com estrutura em caixão fechado quando se pretende escorar a nova aduela ou segmento a ser executado na estrutura da própria obra de arte. Nesses casos, as peças movimentadas geralmente são largas e curtas, diferente das movimentadas pelas lançadeiras.

COMO USAR

O sistema de treliças lançadeiras pode cumprir todas as operações relativas ao lançamento de vigas pré-moldadas, desde a retirada das peças dos berços de fabricação até sua colocação sobre as travessas dos pilares. “No entanto, para um melhor aproveitamento do equipamento, o mais usual é o uso de sistemas auxiliares para a retirada das vigas dos berços e seu posterior posicionamento em local adequado do eixo de lançamento da treliça”, comenta o engenheiro Miguel Henrique de Oliveira Costa, coordenador técnico do departamento de engenharia da Mills.

É procedimento normal que a equipe de manutenção das empresas faça uma revisão elétrica, mecânica e estrutural antes de enviar o equipamento à obra
Manuel Carlos Escaleira

Outra solução recorrente é utilizar um equipamento que transporte mais rapidamente a viga e a entregue próximo à treliça.

MONTAGEM SEGURA

As treliças lançadeiras são equipamentos que permanecem apoiados sobre roletes que são instalados sobre os pilares da obra de arte. “Por não serem fixadas em nenhum ponto, estão sujeitas a ações do vento”, ressalta Sá.

Em função das características e do grande porte das treliças lançadeiras, o uso dessa tecnologia não pode prescindir de um projeto de engenharia adequado que leve em consideração as diversas condições de carregamento.

“Cada lançamento deve ser previsto e estudado por um técnico capaz de avaliar com exatidão todas as condições estáticas, os esforços que tais condições provocam na estrutura da treliça, as consequências de tais condições para a estabilidade e o projeto de um greide viável de lançamento das vigas pré-moldadas”, comenta Miguel Costa. “Também é fundamental que esses equipamentos sejam operados por uma equipe treinada, como ocorre com guindastes”, reforça Sá.

Por envolver muitos componentes eletromecânicos, a treliça lançadeira requer cuidado constante com a sua manutenção. “É procedimento normal que a equipe de manutenção das empresas faça uma revisão elétrica, mecânica e estrutural antes de enviar o equipamento à obra”, diz Escaleira.

Nos últimos anos, a evolução desses equipamentos esteve muito ligada à incorporação de dispositivos hidráulicos para seu acionamento. “Os avanços dignos de nota são os dispositivos que acionam os cabos externos de vagonamento das treliças para aumentar sua capacidade de carga durante o lançamento das peças”, destaca o engenheiro Cristiano Sá.

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Colaboração técnica

Miguel Henrique de Oliveira Costa – Doutor em engenharia civil, é membro da Associação Brasileira de Fôrmas, Escoramentos e Acesso (Abrasfe) e coordenador técnico do departamento de engenharia da Mills
Cristiano Ferreira de Sá – Engenheiro-civil formado pela Universidade Federal Fluminense (UFF), é diretor na Protende Sistemas e Métodos
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Manuel Carlos Escaleira – Engenheiro-civil com pós-graduação em marketing. É diretor operacional da Rohr