Como assentar revestimento cerâmico e evitar descolamentos?

Especialista ressalta importância do projeto e relaciona procedimentos para o preparo da superfície e a colagem adequada

Publicado em: 21/03/2022

Texto: Eric Cozza

imagem de uma pessoa consertando um piso. No momento, ele passa a massa de concreto com uma espátula no chão. Ao redor, os azulejos já estão posicionados.
Para placas cerâmicas com menos de 30 cm x 30 cm e reentrâncias no tardoz inferiores a 1 mm, pode-se usar a simples colagem. Para peças maiores, é necessária a dupla, que requer a aplicação da argamassa tanto na base quanto na própria placa (Foto: Shutterstock)

Todo material empregado em larga escala na indústria da construção civil sofre com algum tipo de patologia. Em geral, não há uma causa única para os problemas que, muitas vezes, têm origem nos diferentes elos da cadeia produtiva, desde o projeto e especificação, passando pela execução, a qualidade do material até a falta de manutenção adequada. Os revestimentos cerâmicos não são exceção.

Até o início da década passada, os problemas de descolamentos eram mais comuns nas fachadas dos edifícios. A partir de então, começaram a aparecer também em ambientes internos, como cozinhas e banheiros. Resultados de estudos solicitados pela Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica para Revestimentos, Louças Sanitárias e Congêneres (ANFACER) ressaltaram a relevância do assentamento correto das placas como forma de evitar tais patologias.

Para elucidar o assunto e orientar os profissionais, a engenheira química Amanda Neme, consultora do Centro Cerâmico do Brasil (CCB), é a convidada do podcast “AEC Responde” para falar sobre os cuidados de projeto e execução de revestimentos cerâmicos.

AEC Responde – Como devem ser executados revestimentos cerâmicos com argamassa colante de maneira a evitar futuros desplacamentos?

Amanda Neme – A pergunta é ampla e extremamente importante. Vemos, infelizmente, muitas ocorrências de descolamentos de placas cerâmicas e sistemas construtivos com problemas. Para iniciar, sempre gosto de comentar que o ponto número um a ser considerado – e muitas vezes ignorado – é o projeto. Antes de começar a execução, não dá para pedir para o fabricante da placa ou da argamassa que nos diga o que é o ideal. Porque isso depende do projeto. Se estou construindo, por exemplo, em uma parede de drywall, isso configura uma determinada situação. Já se estou executando em uma base de contrapiso ou em uma laje esbelta que vai se movimentar, é outra coisa. Preciso ter dados para poder avaliar. É um sistema que vai estar propenso a uma condição muito úmida? Ou uma condição de uso específica, muito quente, como uma lareira? Ou uma fachada que recebe muita insolação solar? Então, a especificação dos materiais e da metodologia segue alguns conceitos preliminares de análise de projeto. Isso já consta nas normas de execução, o detalhamento do mínimo de recomendações de avaliação prévia, que devem ser observadas antes de você sair executando. Isso é fundamental mesmo no caso de reformas residenciais, onde temos visto muitos problemas. Este seria o primeiro ponto. O item número dois está relacionado à qualificação de mão de obra. Temos visto execução com problemas de mão de obra em inúmeros casos, mesmo com investimentos altos, placas de excelente qualidade e argamassa boa. Aí temos falha na execução e se perde todo aquele conjunto. Além disso, é importante que o engenheiro que vai coordenar a obra, que vai dar o suporte, tenha o conhecimento das normas técnicas vigentes de assentamento, que já preconizam os cuidados com a base e as limpezas prévias.

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Para cerâmicas com áreas acima de 900 cm quadrados (...) ou seja, para uma placa acima de 30 cm por 30 cm, já é obrigatória a dupla colagem. Mas tem que ser de verdade: duas camadas de argamassa úmida (...)
Amanda Neme, consultora do Centro Cerâmico do Brasil

AEC Responde – Em relação ao preparo da base, vamos supor que estamos falando de uma alvenaria de bloco. Como deve ser o preparo da base antes do assentamento?

Amanda – A base sempre depende muito da tipologia, mas a primeira coisa que devemos lembrar, se estamos usando uma argamassa cimentícia colante, é que precisamos de ancoragem, ou seja, de porosidade. Por vezes, escutamos alguém dizer que a “superfície estava perfeita, até brilhando”. Até brilhando?!? Não vai ter uma boa aderência. A superfície precisa estar até áspera para a argamassa conseguir, com a umidade, penetrar e proporcionar o que chamamos de ponte de ancoragem. Preciso da superfície porosa para poder usar uma argamassa cimentícia convencional. Se eu não tenho porosidade, é uma base impermeável ou uma parede de concreto ou não fiz a limpeza do desmoldante, terei problemas de aderência. Nesse caso, eu parto para alternativas de argamassas resinadas, saio do universo cimentício. Aí preciso apenas da superfície lisa e bem homogênea. Outra questão: se eu não estiver com a base nivelada, vou ter problemas de aderência, de área de contato. Imagina que estou com uma parede toda torta. Não consigo, abrindo o cordão da argamassa, ter a aderência da placa, que é reta, em uma base torta. Vai ficar oco e aí eu tenho a possibilidade de descolamento. E tem também a questão da resistência da base. Vemos, muitas vezes, camadas espessas de emboço em fachadas ou em regularização de pisos, devido aos desníveis. Aquilo cria uma espessura frágil, um ponto de descolamento, de fragilidade do sistema.

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AEC Responde – Entrando na questão do assentamento, qual é a diferença entre a colagem simples e a dupla colagem? Quando cada uma delas é indicada?

Amanda – A norma já estabelece, de forma bem clara, em uma tabela, quando a dupla colagem é indicada. Na verdade, não é nem uma indicação, mas uma obrigatoriedade, um requisito mínimo. O motivo de sair de uma simples colagem para a dupla é minimizar a possibilidade de falha de preenchimento. A norma estabelece que você deve ter 100% do espalhamento da argamassa no verso da placa. Não apenas para a aderência inicial, mas para a longevidade, a vida útil. Estamos falando de um sistema cerâmico para 50 anos. Então, se você deixar falhas, com o tempo, isso vai reduzir a vida útil daquele revestimento cerâmico. Você vê por aí descolamentos com 10 anos de uso e as pessoas perguntam: ‘puxa, mas por que descolou agora?’ Na verdade, já estava com falhas e, ao longo do tempo, ficou demonstrado o malefício da falta de preenchimento. A simples colagem é recomendada para cerâmicas de pequenas dimensões. Isso realmente foi consolidado, em nível mundial, por testes práticos. Eu consigo ter um bom espalhamento numa placa de pequeno formato quando faço um único cordão, ou seja, passo a argamassa só na base. Na dupla colagem, eu passo na base e passo o cordão no verso da placa. É obrigatória para cerâmicas com áreas acima de 900 cm quadrados. Ou seja, para uma placa acima de 30 cm por 30 cm, já é obrigatória a dupla colagem. Mas tem que ser de verdade: duas camadas de argamassa úmida, porque se eu passar uma camada inteira de argamassa na base e demorar para abrir o cordão no tardoz e aderir – ou seja, se uma das superfícies estiver seca –, não vai adiantar de nada. Vou gastar muito e terei patologia da mesma forma. A argamassa tem que estar úmida, devemos fazer panos pequenos para conseguir aderir. E aí, assim, com a dupla camada, você vai conseguir ter um bom espalhamento e uma boa área de contato.

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Colaboração técnica

Amanda Neme – Graduada em engenharia química pela Escola de Engenharia Mauá, possui mestrado profissional em “Gestão da Competitividade: Linha Sustentabilidade” pela Fundação Getúlio Vargas. Atua na Anfacer (Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica para Revestimentos, Louças Sanitárias e Congêneres), sendo responsável pela Iniciativa Anfacer + Sustentável e gestão técnica e da qualidade. Atua também como consultora do CCB (Centro Cerâmico do Brasil). Possui expertise técnica no ramo de revestimentos cerâmicos, incluindo produtos para uso industrial, assentamento, rejuntamento, fachadas aderidas e novas tecnologias construtivas.