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Como iniciar a industrialização das obras em uma construtora?

Conectar-se a empresas especializadas ou sistemistas pode ser um caminho interessante para as empresas que trabalham com métodos construtivos tradicionais. Escassez de mão de obra no setor torna a questão ainda mais urgente

Publicado em: 15/04/2024

Texto: Eric Cozza

Construtora utilizando processo de industrialização ao executar uma obraA compatibilização de projetos em ambiente virtual, como as plataformas BIM, é essencial no processo de obras industrializadas, pois se trabalha com precisão milimétrica e tudo precisa se encaixar. É praticamente impossível trabalhar com construção modular sem atender tal premissa (Imagem: Brasil ao Cubo)


A falta de mão de obra na construção civil brasileira tem preocupado construtores, incorporadores e profissionais do setor. Os jovens têm demonstrado pouco interesse em atuar nos canteiros e dado preferência às atividades em outros setores da economia.

Com isso, a idade média das equipes de obra têm aumentado e não surgem novos profissionais para ocupar funções tradicionais como, por exemplo, mestre de obra, encarregado e pedreiro.

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Uma das alternativas mais comentadas, no momento, para minimizar os efeitos dessa nova realidade tem sido aumentar o grau de industrialização e mecanização das obras. Mas como promover uma mudança tão radical em uma empresa que sempre construiu de maneira tradicional, empilhando tijolos?

Para falar sobre industrialização no setor, convidamos para o Podcast AEC Responde o Ricardo Mateus, fundador da Brasil ao Cubo, empresa pioneira em construção modular no País. Ouça o áudio e/ou leia entrevista, a seguir:

AECweb – Como iniciar o processo de industrialização das obras em uma construtora?

Ricardo Mateus – Bom, é importante salientar que, de fato, a construção convencional impera no Brasil, em larga escala. Em sua grande maioria, as obras aqui são atendidas por construtoras que têm metodologias tradicionais. Mas essas empresas que já atuam, ao longo de muito tempo, com modelos convencionais já podem olhar para o mercado de obras industrializadas. Precisam se conectar ao ecossistema. Na minha opinião, é muito mais fácil nascer de maneira industrializada, com DNA para a inovação e a industrialização. Não é simples ser uma construtora tradicional e resolver procurar componentes, se conectar ao ecossistema para buscar inovação. Mas, sim, isso é possível. Existem mecanismos e até entidades capazes de conectar essas empresas. Temos startups e novas companhias que podem trocar figurinhas com as construtoras tradicionais. O segredo, na minha opinião, é não limitar tal ação à criação de um departamento de inovação. É preciso envolver toda a hierarquia e começar a respirar inovação em todos os departamentos. Aí, com certeza, será mais fácil explorar caminhos rumos às obras industrializadas.

Se atuasse no setor de obras convencionais, eu estaria me conectando a alguns players que estão surgindo no mercado e plugando no meu modelo de negócio. Aí, em conjunto, iria desenvolver a inovação e a industrialização na empresa
Ricardo Mateus

AECweb – É melhor procurar desenvolver um sistema construtivo próprio ou buscar opções entre os fornecedores / sistemistas especializados em construção industrializada ou modular?

Mateus – Se pensarmos em uma empresa com metodologias convencionais de construção, acho muito mais simples se conectar com sistemistas nas diferentes áreas. Você pode escolher, por exemplo, empresas que trabalham com light steel frame ou wood frame. São várias companhias que estão surgindo e que podem ser conectadas. Se atuasse no setor de obras convencionais, eu estaria me conectando a alguns players que estão surgindo no mercado e plugando no meu modelo de negócio. Aí, em conjunto, iria desenvolver a inovação e a industrialização na empresa.

AECweb – Qual é a importância da fase de projeto, planejamento e prototipagem nesse processo?

Mateus – Hoje temos uma facilidade muito grande, pois as modelagens 3D nos permitem melhorar demais a compatibilidade de projetos. É possível visualizar erros em ambiente virtual, algo muito mais barato do que no canteiro. Errar em um computador é muito mais barato do que na obra. A facilidade de compatibilização dos projetos traz uma assertividade muito maior do ponto de vista dos materiais, visto que é possível gerar um modelo virtual, ou seja, reproduzir aquilo que seria físico. Assim, podemos ser muito mais assertivos e evitar incompatibilidades nas obras. Por exemplo, a passagem de uma tubulação em uma viga. Na fábrica, ao contrário do canteiro, é muito mais barato prever esse tipo de problema. As plataformas de compatibilização de projetos são muito importantes no processo de obras industrializadas, nas quais não se trabalha com precisão de metros, mas de milímetros. Tudo tem que se encaixar. É impossível avançar se a empresa não tiver um domínio amplo dessa etapa de projetos virtuais, de modelagem. Fica quase inviável trabalhar com obras industrializadas sem atender tal premissa. E, sobre a prototipagem, é algo fundamental. Na Brasil ao Cubo, empresa que fundei, prototipamos um novo produto a cada semestre. Fazemos um MVP (mínimo produto viável) para entender, de fato, a construção, antes de avançar. Nós estamos agora numa fase de protótipo de uma casa de 166 m², outra de 122 m² e um loft de 20 m². Todos estão sendo prototipados em nossa fábrica para termos um produto de prateleira e, depois, podermos avançar para uma melhoria contínua em nossa linha de produção. Só aí vamos colocar no mercado. A prototipagem é superimportante.

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AECweb – A falta de mão de obra já é uma realidade na construção civil brasileira e a industrialização é vista como uma das soluções para amenizar o problema. Temos fornecedores, sistemistas e mão de obra capacitada para trabalhar nessa nova realidade?

Mateus – Quando se coloca a construção modular em uma linha de produção, há uma grande similaridade com outras indústrias de montagem, que já operam, em larga escala no País. A indústria automobilística pesada é o nosso benchmark na Brasil ao Cubo. Pense em uma montadora de ônibus. Nós também trabalhamos com um bloco e um módulo com dimensões até similares a um ônibus. Temos estrutura metálica, instalações elétricas, hidráulicas, teto, cobertura, chão, chassi e parede. Não é fato, portanto, que precisamos desenvolver uma mão-de-obra específica. Ela já existe em outras indústrias. Isso nos proporciona uma certa facilidade. Por outro lado, tenho um certo receio do que vem acontecendo na construção civil brasileira. Há 10 anos, tínhamos mão de obra para fazer uma casa: pedreiros, carpinteiros, mestre de obras etc. Já existe, hoje, muita dificuldade na contratação de pessoas para atuar em uma obra de modelo convencional. Pense nisso para os próximos 10 anos. Em 2030, como estaremos nesse mercado, com uma tremenda escassez de mão de obra? Se não caminharmos para um modelo mais industrializado e produtivo, com menos necessidade de operários, o que vai acontecer? O suporte para suprir esse gap da mão de obra na próxima década será, certamente, a construção modular, industrializada. Acredito muito nisso.

AEC Responde

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Colaboração técnica

Ricardo Mateus – Engenheiro civil e de produção, iniciou a trajetória profissional como soldador e montador de estruturas metálicas, desempenhando tais funções por cerca de 15 anos. Fundou, em 2016, a Brasil ao Cubo (BR3), construtech focada em soluções construtivas ágeis, pioneira em construção offsite volumétrica no Brasil.