Por que construir prédios altos com o sistema de parede de concreto?

Estudo realizado por projetista de estruturas indica que a viabilidade econômica da tecnologia aumenta quanto maior for o edifício. Integrações com drywall e sistema convencional também são bem-vindas

Publicado em: 16/01/2024

Texto: Eric Cozza

O sistema construtivo de parede de concreto começou a ganhar escala no Brasil no início da década passada. O foco, naquele momento, era atender ao mercado de habitação de interesse social. Ou seja, edifícios baixos, com poucos pavimentos.

Publicada em 2012, a norma técnica NBR 16055 – “Parede de concreto moldada no local para a construção de edificações – Requisitos e procedimentos” espelhava o estágio do mercado na época.

O tempo passou e projetistas, construtores, consultores e diferentes profissionais do meio técnico ganharam experiência e know-how para ir além. Hoje, a construção de edifícios altos com o sistema de parede de concreto é uma realidade no Brasil. A revisão da NBR 16055, em 2022, retratou o novo momento e abriu ainda mais possibilidades nesse sentido.

Mas por que construir prédios altos com esse sistema construtivo? Quais são as vantagens? A tecnologia é competitiva no custo? Quais são os desafios envolvidos? O que diz a nova norma a respeito?

Para falar sobre o assunto, convidamos o engenheiro civil e projetista de estruturas, Francisco Graziano, sócio-diretor da Pasqua & Graziano Associados. Ouça o podcast e/ou leia entrevista na íntegra, a seguir:

“Comparamos edifícios com vários tipos de solução estrutural: convencional, alvenaria autoportante e parede de concreto. Percebemos que, quanto mais alto o prédio, mais a parede de concreto se viabilizava em relação aos demais sistemas”
Francisco Graziano (Pasqua & Graziano Associados)

AECweb – Por que construir prédios altos com o sistema de parede de concreto? Quais são as vantagens?

Francisco Graziano – Desde o princípio, quando começamos a utilizar o sistema em edifícios de menor porte, percebíamos claramente a capacidade exuberante – vamos chamar assim – do sistema em termos de resistência ao estado limite último (ELU). Ou seja, havia uma reserva de segurança bastante razoável. Percebíamos que a utilização de todos os elementos de partição do edifício em concreto poderia ser até um exagero para aquela estatura de prédio. Porque você ficava com tensões muito baixas nas paredes e sobrava capacidade de resistência. Tudo indicava, então, que tínhamos condições de usar melhor essa exuberância de resistência, colocando mais carga, ou seja, construindo edifícios mais altos. Essa foi a primeira percepção que acabou, de fato, se tornando uma realidade. Em um estudo que fizemos em 2010, comparamos edifícios com vários tipos de solução estrutural: convencional, alvenaria autoportante e parede de concreto. Percebemos que, quanto mais alto o prédio, mais a parede de concreto se viabilizava em relação aos demais sistemas.

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AECweb – O que a revisão da norma técnica NBR 16055, em 2022, trouxe de avanços para o projeto e execução de edifícios altos com o sistema?

Graziano – O primeiro ponto foi trazer para a norma algo que já vínhamos praticando em algumas soluções, que é viabilizar a integração do sistema convencional, baseado na NBR 6118 (Projeto de estruturas de concreto – Procedimento), a norma mãe, com o sistema de parede de concreto. O segundo ponto foi permitir paredes com maior espessura, de até 18 cm, armadas com uma tela central. Anteriormente, isso estava limitado a 15 cm. Também aumentou um pouco a capacidade limite das paredes para utilização da expressão simplificada. Tudo isso progride na direção da economia. A nova norma também elucidou procedimentos de verificação de dimensionamento que viabilizam os edifícios com maior número de andares. Ou seja, ofereceu um caminho para não ser necessário usar apenas a expressão simplificada, mas outras mais completas, que estão apoiadas na NBR 6118, para fazer as verificações das paredes. Creio que esses são os principais tópicos.

“Você pode, portanto, detalhar as paredes da fachada pelo sistema de parede de concreto e os elementos internos de acordo com a NBR 6118”
Francisco Graziano (Pasqua & Graziano Associados)

AECweb – O senhor mencionou a integração do sistema convencional com o de paredes de concreto para alcançar resultados ainda melhores nas obras. Explique melhor esse ponto, por favor.

Graziano – Esse é um tema mais focado no projeto estrutural. Temos alguns edifícios mais altos e de um padrão mais elevado, no quais podemos ter todas as fachadas externas em concreto. Isso caracterizaria o uso do sistema. Por outro lado, os elementos interiores da edificação podem empregar pilares, vigas, pilar-parede, que estão mais contemplados na NBR 6118. Esse mix é possível hoje e está previsto na norma. Você pode, portanto, detalhar as paredes da fachada pelo sistema de parede de concreto e os elementos internos de acordo com a NBR 6118. Isso tudo já estava, de alguma forma, insinuado em tudo em que vínhamos defendendo, mas não estava explícito no texto da norma. Isso agora permite, inclusive, outras combinações que o projetista considerar importantes, necessárias e convenientes. É ele que toma essas decisões e, obviamente, responde por elas. Mas é algo coerente, possível, sem nenhum tipo de problema.

“O sistema não admite improvisações. Requer engenharia integrada. Tem que pensar desde o início, fazer o planejamento, compatibilizar todos os projetos de tal maneira que todo mundo entenda como a tecnologia funciona”
Francisco Graziano (Pasqua & Graziano Associados)

AECweb – E a integração do uso do sistema parede de concreto com divisórias internas em drywall?

Graziano – É uma simbiose interessante. Mesmo no caso de edifícios mais altos, ainda costuma sobrar capacidade de resistência, se todas as partições forem feitas em concreto. Por várias razões. Quando se trata de habitação de interesse social, você tem piso a piso da ordem de 2,70 m. Em um padrão mais elevado, ultrapassa 2,80 m e, normalmente, costuma ser 3,06 m, dependendo um pouco da classe do imóvel. Aí você tem, localmente, para dimensionamento dessas paredes, um efeito de flambagem – o correto é falar em estabilidade do equilíbrio – e teremos a necessidade de paredes um pouco mais espessas por esse efeito, localmente, entre andares. Acabo, então, sendo obrigado a ter uma parede um pouco maior em termos de espessura. Ao mesmo tempo, se eu tentar usar todas as paredes de partições em concreto, acabo consumindo um volume alto desse material. Hoje, nós temos lajes, obrigatoriamente, de 12 cm, por questões de incêndio e atendimento à Norma de Desempenho. Então, para esgotar a capacidade das lajes, a fim de que elas se tornem econômicas com aquela espessura, isso vai nos levar a um aumento dos vãos entre apoios, do ponto de vista estrutural. Assim, podemos introduzir o drywall, justamente para substituir as paredes que seriam de concreto e agora já não são necessárias. Isso gera uma queda do consumo de concreto por metro quadrado e, portanto, a espessura média cai. Você tem um peso inferior àquele que efetivamente ocorreria se utilizasse todas as partições em concreto. Então, ao final das contas, eu tenho uma economia de concreto e de fundações, porque o peso total da estrutura é menor. E eu utilizo melhor as minhas lajes. Ou seja, é um conjunto mais interessante. Vale lembrar também a economia nas fôrmas que, no caso do sistema de parede de concreto, são industrializadas, de alta qualidade.

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AECweb – Quais são os principais cuidados ou pontos de atenção que projetistas e construtores devem observar ao trabalhar com o sistema construtivo de parede de concreto em edifícios altos?

Graziano – Tenho falado isso de forma meio repetitiva, mas acho que é uma coisa importante: o sistema não admite improvisações. Requer engenharia integrada. Tem que pensar desde o início, fazer o planejamento e compatibilizar todos os projetos de tal maneira que todo mundo entenda como o sistema funciona. Tanto o arquiteto quanto o pessoal de instalações elétricas e hidrossanitárias. E, depois, durante a execução, o engenheiro ou o grupo que vai executar a obra precisa encarar, de maneira muito séria, o planejamento e a logística, que são cruciais nesse tipo de empreendimento. É a diferença entre o sucesso e o insucesso. Então, eu diria que é necessário ter muita engenharia. Caso contrário, você acaba se perdendo e desclassificando, injustamente, um sistema que oferece uma solução efetiva para as edificações.

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Colaboração técnica

Francisco Graziano  – Formado em engenharia civil pelo Instituto Mauá de Tecnologia, possui mestrado em engenharia de estruturas pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. É autor do livro “Projeto e Execução de Estruturas de Concreto Armado – Coleção Primeiros Passos da Qualidade no Canteiro de Obras”. Manteve extensa carreira docente em instituições como a Escola Politécnica da USP e a Escola de Engenharia Mauá. É sócio-diretor da Pasqua & Graziano Associados, que possui cerca de 5 mil projetos realizados e coordenados.