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Quais são os cuidados na montagem das armaduras de concreto?

Problemas de cobrimento, ausência de espaçadores e, em especial, a falta de armadura prevista no projeto estrutural podem prejudicar resistência e durabilidade do concreto

Publicado em: 06/07/2022

Texto: Eric Cozza

foto de um trabalhador da construção sobre arames
Equipe de obra deve possuir sempre um ou dois responsáveis pela verificação das armaduras nas estruturas de concreto armado. Manual orienta os profissionais sobre aspectos fundamentais da montagem em pilares, vigas e lajes (Foto: Shutterstock)

A montagem das armaduras é uma das etapas mais importantes em obras com estrutura de concreto. A eficácia desse trabalho influi diretamente em fatores relevantes como resistência e durabilidade.

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Boas práticas devem ser observadas desde a compra e armazenamento do aço, corte e dobra, amarração, espaçadores e os procedimentos de verificação de bitola, quantidade de barras, medidas, disposições de armação, cobrimento mínimo e limpeza.

O podcast AEC Responde convidou o Eng. Jorge Nakajima Satoro, para falar sobre o assunto. Conhecido no mercado como Satoro, é gerente de produção na França & Associados Projetos Estruturais e, recentemente, foi coautor do livro digital “Manual de Boas Práticas – Montagem das Armaduras de Estruturas de Concreto Armado”. Confira a entrevista na íntegra.

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AEC Responde – Quais são os principais cuidados na montagem das armaduras de concreto?

Jorge Nakajima Satoro – Todos os projetistas de estruturas, engenheiros calculistas fazem o projeto e detalham. Só que não está clara ali uma sequência executiva. Está lá a forma em sua versão final, mas não diz quem vem primeiro, se é a armadura do pilar, da viga ou da laje. Com isso, cada obra tem a sua forma de montar. E, dependendo da sequência executada, cria dificuldades para posicionar a armadura conforme o projeto. Então, eu acho que é nosso papel, do projetista, informar para a obra qual é a melhor forma de posicionar, qual é a melhor sequência de execução. É claro que há interferências em uma obra que nós acabamos não vendo nos projetos. Mas, se visitar o canteiro, você acaba verificando. Temos esse papel importante de servir como guia para o pessoal. Uma outra questão interessante: 99% das obras que eu visito tem problema de cobrimento. Sempre há um lugar que não está sendo respeitado o cobrimento ou verificamos que falta espaçador. É um problema grave que existe nas nossas obras.

O problema, como já ocorreu em alguns casos que chegaram aqui para nós, é faltar armação que consta no projeto. Aí é bem mais crítico. Pode gerar uma ruptura frágil e acontecer um acidente
Eng. Jorge Nakajima Satoro, coautor do livro digital “Manual de Boas Práticas – Montagem das Armaduras de Estruturas de Concreto Armado

AEC Responde – O senhor considera o cobrimento inadequado um dos pontos mais críticos nesse processo? Um dos erros mais comuns?

Satoro – É o mais comum, porém, não é o mais grave. Por quê? Ao longo do tempo, veremos que a durabilidade da estrutura está sendo afetada. E aí ela começa a avisar. O problema, como já ocorreu em alguns casos que chegaram aqui para nós, é faltar armação que consta no projeto. Aí é bem mais crítico. Pode gerar uma ruptura frágil e acontecer um acidente. Esse é o mais grave e perigoso. Há todo tipo de erro, mas o que é mais perceptível, quando você está na obra, é a falta de cobrimento.

foto do manual de boas práticas da gerdau
Livro digital que orienta os profissionais sobre a montagem de armaduras em pilares, vigas e lajes está disponível gratuitamente para download

AEC Responde – O senhor mencionou a necessidade de executar exatamente aquilo que consta no projeto. Como é que devem ser divididas as responsabilidades de verificação técnica nesse processo? Qual é o papel do engenheiro de obra?

Satoro – O engenheiro de obra, junto com a equipe dele, os assistentes, os estagiários e até o pessoal da empreiteira se encarregam dessa parte da armadura. Tem que haver sempre um ou dois responsáveis pela verificação. Se não tiver, corre-se um risco. Deixamos para o pessoal montar de acordo com projeto, mas pode escapar, podem acontecer erros. De repente, a equipe sai para o almoço e, quando retorna, não sabe onde parou, esquece um ferro, coisas assim. Então, tem sempre que existir um verificador. Pode ser no momento da montagem. Há muitas armaduras que são feitas (cortadas e dobradas) na bancada e depois içadas e posicionadas dentro da fôrma. E numa outra etapa, já posicionada, verificar, por exemplo, se alguém cortou um ferro. Porque tem muito disso. Está difícil de encaixar? Corto um ferro ali, um estribo para poder acomodar. Só que tem que ser feita a recomposição. Em algumas obras, já vi que o pessoal acaba não refazendo. São, portanto, duas etapas de verificação: no início da montagem e quando já estiver tudo posicionado. Toda a equipe é responsável, não apenas o engenheiro da obra. É necessário um time entrosado para que a montagem da armadura esteja perfeita.

A proposta do manual é orientar sobre dúvidas ou detalhes que vimos em campo, nas obras. Algo que estava montado de forma equivocada, porque o pessoal não sabia exatamente como fazer
Eng. Jorge Nakajima Satoro, coautor do livro digital “Manual de Boas Práticas – Montagem das Armaduras de Estruturas de Concreto Armado

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AEC Responde – O senhor preparou um livro digital a respeito desse assunto. É uma publicação voltada para o pessoal das obras? Conte-nos um pouco mais sobre o e-book.

Satoro – É uma história muito interessante. O calculista estrutural acaba não fazendo muitas visitas às obras. Diferente do consultor de solos, por exemplo, que está sempre por lá, avaliando a situação do terreno, da escavação e a execução das estacas. O engenheiro estrutural acaba não indo muito. E quando é feita essa convocação, a obra se movimenta, parece que é um fiscal que vai entrar lá para ver se está tudo certo. Mas não devemos ir com essa visão. A minha ideia, que eu tentei passar no manual, é de poder auxiliar, orientar o pessoal de obra. Mas por quê? Um projetista tem um pensamento e o pessoal de obra outro. Se eles não se conversam, cada um vai trabalhar do seu lado e não tem esse movimento, que melhora o produto final, a estrutura. Então, o pensamento foi esse. Eu ia para a obra, olhava e já pensava: puxa, mas não está legal essa montagem. E aí vem a primeira dúvida: eles não sabem fazer? Na verdade, o que falta é orientação. Então, a proposta do manual é essa: orientar sobre dúvidas ou detalhes que vimos em campo, nas obras. Algo que estava montado de forma equivocada, porque o pessoal não sabia exatamente como fazer. Fui recolhendo, então, vários aspectos. Tudo o que está no manual foi resultado de vivência em obras. Nada foi inventado aqui dentro do escritório. Certa vez, o Antonio Carlos Zorzi (ex-diretor da Cyrela, atual consultor em engenharia civil) fez essa pergunta: ‘vocês visitam muitas obras?’ Naquele momento, respondemos que não. Ele disse: ‘poxa, mas deveriam ir para ver o que acontece, como o pessoal executa. De repente, isso pode se refletir até em melhorias no projeto’. Realmente, faltava isso: ver o que está acontecendo na obra, auxiliar o pessoal e, ao mesmo tempo, melhorar o nosso projeto, facilitando a execução. É uma troca muito boa que acaba acontecendo. E o manual veio para isso. O pessoal aprende e eu também aprendo com eles. Acho que todo o calculista estrutural tinha que ter esse momento de visitar a obra, de promover essa troca de informações. É muito gratificante.

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Colaboração técnica

Jorge Nakajima Satoro – Engenheiro civil pela Faculdade de Engenharia São Paulo (FESP) e tecnólogo em construção civil – modalidade edifícios pela Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec-SP). Especialização em gestão de projetos de sistemas estruturais – edificações (ênfase em estruturas de concreto)” pelo Programa de Educação Continuada (PECE) da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Atuou na De Luca Engenharia de Estruturas e, desde 2001, tem contribuído na França & Associados Projetos Estruturais, liderando a equipe de produção, que dimensiona e detalha as armações. Foi coautor do livro digital “Manual de Boas Práticas – Montagem das Armaduras de Estruturas de Concreto Armado”.