Vale a pena investir na energia fotovoltaica em residências?

Projetista explica como convencer os clientes a apostarem na geração própria e renovável. E ressalta que o primeiro passo é aumentar a eficiência energética nas edificações

Publicado em: 23/02/2022

Texto: Eric Cozza

imagem do teto de uma casa que está repleto de paineis fotovoltaicos
Retorno do investimento pode variar de cinco a sete anos, mas custo crescente da energia e o aumento natural da demanda podem diminuir ainda mais o payback (Foto: Shutterstock)

Nove entre cada 10 brasileiros querem gerar a própria energia em casa. Divulgada pela Absolar (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica) com base em levantamento do Ibope Inteligência, em 2020, a informação deixa claro o potencial de mercado desse tipo de energia renovável no País. Ainda segundo a entidade, o aumento da geração própria pode permitir uma economia superior a 173 bilhões de reais, que hoje são descontados na conta de todos os consumidores. 

Mas como convencer os clientes de que se trata de um bom investimento? Essa é uma pergunta que muitos profissionais da Arquitetura, Engenharia Civil e Construção tem feito para si mesmos. Afinal, uma coisa é querer gerar a própria energia em casa e a outra é colocar a mão no bolso para aguardar o retorno do dinheiro entre 5 a 7 anos.

Engenheiro civil formado pela Universidade Mackenzie com mestrado em Energia pela Universidade de São Paulo, José Jorge Chaguri Jr. atua como projetista de sistemas prediais. Trabalha com gestão de energia, comissionamento e projetos de água quente, principalmente sistemas a gás e de energia solar. Ele é o convidado do podcast “AEC Responde” para falar sobre a implantação de sistemas de geração de energia solar fotovoltaica em residências e condomínios.

AEC Responde – Nossa pergunta de hoje é sobre geração de energia fotovoltaica. É sempre um desafio para o profissional da construção civil ou arquitetura explicar para os clientes a razão de investir nesse tipo de sistema, por exemplo, em uma residência ou em um condomínio. O que você falaria para auxiliar esses profissionais?

José Jorge Chaguri Jr. – Hoje em dia, a argumentação ficou muito mais simples. O primeiro motivo é que o custo da energia é sempre crescente. Não temos expectativa nenhuma de que haja uma redução. Então, quando os profissionais começam a pensar em análise de custo, ou seja, quanto vou investir e qual será o retorno, estamos olhando as tarifas de hoje. É sempre importante observar que um edifício tem uma vida longa. Nós temos que olhar para a edificação daqui a 20, 30, 40 anos. Não mais é cabível deixar de pensar no edifício do amanhã, pelo menos na infraestrutura. Pensar e já deixar preparado para o futuro. Isso é fundamental. E como o nível tecnológico tem avançado muito rápido, nós temos que deixar essa infra pronta. Veja, por exemplo, apenas como comparativo, um apartamento ou uma casa construída há 20 anos. Veja se nos atende hoje do ponto de vista de tomadas, por exemplo. Não atende, pois nosso consumo muda muito rápido. Então, a fotovoltaica, assim como outros tipos de energia, são fundamentais para pensarmos nessa infraestrutura. E, depois, tem o custo, o payback, o tempo de retorno do investimento. Hoje, vemos casos de cinco, seis, sete anos, que é um período extremamente curto. Então, vale a pena o investimento.

AEC Responde – Como funciona hoje a questão do retorno da energia elétrica gerada pela residência, seja unifamiliar ou um condomínio, para a rede de distribuição? A legislação já permite há algum tempo. Como isso acontece?

Chaguri Jr. – A grande sacada da energia fotovoltaica é permitir a devolução do excedente para rede. Os períodos de maior insolação, onde tenho melhores condições de aproveitar a energia, não necessariamente correspondem ao período de maior consumo. Então, é possível que eu produza mais energia do que estou consumindo. E, caso isso ocorra, ao invés de ter um sistema de armazenamento, que seriam baterias ou sistemas que pudessem acumular essa energia, eu posso usar a própria rede de distribuição. Ou seja, o medidor de energia é bidirecional: mede tudo o que entra e tudo o que sai. Então, quando há excedente, eu devolvo para a rede. E quando eu preciso consumir mais do que estou gerando, puxo de volta da rede. A concessionária faz duas leituras: tudo que entra, menos tudo que sai. Dessa forma, se evita a necessidade de qualquer infraestrutura adicional no sistema. Usamos a rede elétrica de distribuição, que é da concessionária, para fazer a devolução.

Trabalhar a eficiência energética é sempre o mecanismo mais barato, mais simples. E, com aquilo que eu não consigo mais reduzir, eu trabalho com outra energia renovável, sendo a fotovoltaica uma das opções
Eng. José Jorge Chaguri Jr.

As pessoas também perguntam: O que devem prever os projetos de sistemas prediais?

AEC Responde – Você acredita que, com o advento da energia solar fotovoltaica, fica resolvida a questão da conservação da energia, ou melhor, do uso eficiente da energia? Ou outros passos e ações técnicas continuam sendo importantes?

Chaguri Jr. – Olha, eu diria que a fotovoltaica e outras energias renováveis não são o primeiro passo. Para mim, seriam os últimos. Trata-se de um sistema de alto custo de investimento, que demanda uma infraestrutura e que vai gerar uma certa economia de energia. Porém, ter um sistema desse em uma edificação ineficiente não faz muito sentido. O primeiro passo de uma edificação, tanto nova quanto existente, é trabalhar a eficiência energética. Será que o sistema de iluminação está adequado? E a automação? Será que os equipamentos que estou usando estão adequados? E a minha infraestrutura? Depois que eu aumento a eficiência da edificação, que estou com o consumo enxuto, aí sim eu invisto em energias renováveis. Um exemplo simples: eu projeto uma edificação, por exemplo, com um conjunto de 6 a 8 placas solares, que correspondem ao meu consumo atual. Mas, de repente, eu derrubo o meu consumo com mais eficiência. A minha necessidade de placas se torna menor. Trabalhar a eficiência energética é sempre o mecanismo mais barato, mais simples. E, com aquilo que eu não consigo mais reduzir, eu trabalho com outra energia renovável, sendo a fotovoltaica uma das opções.

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Colaboração técnica

José Jorge Chaguri Jr – Engenheiro civil formado pela Universidade Mackenzie, possui mestrado em Energia pela Universidade de São Paulo. Diretor da Chaguri Consultoria e Engenharia de Projetos, é presidente do Conselho Deliberativo da Abrinstal (Associação Brasileira da Conformidade e Eficiência das Instalações) e professor de Instalações Prediais no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo.