Como fazer o treinamento da mão de obra na construção civil?

Em tempos de dificuldades na contratação de equipes qualificadas, a capacitação é fundamental para fidelizar profissionais e subempreiteiros, investir em sistemas construtivos industrializados e aumentar a produtividade nos canteiros

Publicado em: 23/02/2023

Texto: Eric Cozza

foto de trabalhadores vestidos com equipamentos de segurança e reunidos com uma pessoa falando ao centro
Participar de programas setoriais em parceria com sindicatos, SENAI ou outras instituições especializadas em capacitação pode ajudar as construtoras a escaparem do círculo vicioso de apenas reclamar sobre a falta de mão de obra qualificada (Imagem: Shutterstock)

Já ouviu frases como essas? “Vou gastar em treinamento para os outros aproveitarem?” Ou, então: “invisto em capacitação para, depois, ter que pagar mais para o empreiteiro?” Pior: “não adianta, pois o pessoal de obra tem muita dificuldade de aprendizado”. Esses são alguns dos antigos receios – ou preconceitos mesmo – que, vira-e-mexe, ainda se ouvem por aí, vindo de algum empresário do setor. Felizmente, cada vez menos.

Toda vez que a construção civil passa por algum aquecimento na demanda e a produção é pressionada, a discussão sobre o treinamento da mão de obra volta à tona. Fica mais difícil encontrar bons subcontratados disponíveis e os subempreiteiros – mesmo aqueles com bom histórico de serviços prestados – começam a apresentar variações sensíveis de qualidade, em geral, por recrutarem novas equipes não treinadas.

Surgem, então, algumas palavras mágicas que, em tese, seriam capazes de solucionar todos os problemas de uma vez só. A bola da vez é a industrialização. Essencial para um setor caracterizado pela produção artesanal, a adoção de sistemas construtivos industrializados, da mecanização e da construção modular constituem uma necessidade premente para aumentar a produtividade e colocar o setor no século XXI. Isso é quase consenso.

O ponto é que sistemas industrializados exigem treinamento e capacitação da mesma maneira – possivelmente em uma escala ainda maior – do que a construção tradicional. “Os equipamentos e maquinários capazes de agilizar os processos são fundamentais, mas não vão aumentar a produtividade se as pessoas que forem operá-los não forem capacitadas”, afirma o diretor da escola SENAI “Orlando Laviero Ferraiuolo” – Construção Civil, Abilio Weber.

O construtor precisa criar oportunidades para o subempreiteiro capacitar a mão de obra no canteiro. A nossa vantagem será a maior qualidade do serviço. Do lado do subcontratado, ele vai conseguir praticar um preço melhor. É todo um conjunto que deve funcionar, um círculo virtuoso
Eng. Haruo Ishikawa

CASES E REFERÊNCIAS

A indústria de materiais de construção está aí para provar que é possível avançar na capacitação setorial. Basta lembrar, por exemplo, o que fizeram os fabricantes de sistemas drywall a partir dos anos 1990 no País. Sem cultura local de aplicação do gesso acartonado, sem mão de obra especializada para a execução e enfrentando preconceitos dos usuários, dos profissionais e de boa parte do mercado, conseguiram virar o jogo.

Hoje, é possível localizar bons profissionais especializados em drywall em praticamente todas as localidades do Brasil. Concorrentes ferrenhos se uniram em uma associação, desenvolveram diversos projetos em conjunto e souberam colocar o desenvolvimento técnico e de mercado acima dos interesses comerciais do dia a dia. Funcionou.

Isso não significa que o desafio para a construção civil seja pequeno. Pelo contrário, nada disso é fácil de promover em um setor caracterizado pela pulverização dos players (dezenas de milhares de construtoras e incorporadoras em todo o País), pelo caráter nômade da atividade (ausência de local fixo de produção), pela alta rotatividade da mão de obra, a imensa diversidade de serviços e tarefas a serem realizadas e a fragilidade econômica e de gestão dos subcontratados.

Temos muita gente nova fazendo cursos conosco. Garotos e garotas, todos bastante interessados na profissão. Investir em novos equipamentos e mecanização, capacitando e treinando a mão de obra para a utilização adequada, certamente vai atrair muitos jovens interessados
Abilio Weber

Já existem iniciativas em andamento. O SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) desenvolve um trabalho de referência na área há muito tempo. No Estado de São Paulo, por exemplo, em parceria com o SindusCon-SP, disponibiliza para os associados do sindicato vagas gratuitas em cursos voltados para o setor de construção civil em diversas modalidades: formação continuada e inicial, aprendizagem industrial e cursos técnicos.

Entre os temas trabalhados pelo SENAI-SP, constam: armador de fôrmas, carpinteiro, construtor de alvenaria, eletricista instalador residencial, leitura e interpretação de desenhos e projetos de obras civis, manutenção em instalações elétricas residenciais, técnicas básicas para instalação de aquecedor solar e pintura. O SindusCon-SP também tem oferecido cursos práticos de curta duração pela internet.

PROJETO PILOTO

Em 2007, a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e a Abramat (Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção) produziram um trabalho de referência sobre o assunto: “Capacitação e Certificação Profissional na Construção Civil e Mecanismos de Mobilização da Demanda.”

A cartilha preparada pela Poli-USP propunha um projeto piloto com ações de curto e médio prazo para a capacitação progressiva e certificação dos trabalhadores, articulado a partir da criação do que seria o Sistema Nacional de Capacitação e Certificação Profissional (SiCAP), a ser abrigado pelo Ministério das Cidades. Lideranças setoriais e autoridades governamentais poderiam resgatar e aproveitar diversos princípios e conceitos desenvolvidos ali.

“O construtor precisa criar oportunidades para o subempreiteiro capacitar a mão de obra no canteiro”, afirma Haruo Ishikawa, sócio-diretor da Haruo Ishikawa Engenharia e vice-presidente de relação capital-trabalho do SindusCon-SP. “A nossa vantagem será a maior qualidade do serviço. Do lado do subcontratado, ele vai conseguir praticar um preço melhor. É todo um conjunto que deve funcionar, um círculo virtuoso.”

A seguir, levantamos alguns dos desafios envolvidos e possíveis soluções para promover o treinamento das equipes de obra na construção civil. A base de tudo é a tomada de decisão pela direção das empresas. Sem o comprometimento dos principais líderes e gestores, as dificuldades serão intransponíveis e qualquer esforço, mesmo que bem-intencionado, corre o risco de ser desperdiçado.

1) Falta de tempo
Costuma ser a principal preocupação das empresas interessadas em investir na capacitação das equipes. Com prazos exíguos, forte concorrência no mercado e carência de pessoal, as construtoras têm dificuldade em disponibilizar o tempo necessário para o aprendizado e treinamento dos trabalhadores. Esquecem, por vezes, que será um investimento para futuros ganhos de produtividade e, por consequência, de redução de prazos e cronogramas dos empreendimentos. Sem o firme propósito da alta direção das empresas, a falta de tempo costuma ser a justificativa certeira para deixar qualquer iniciativa eternamente para depois.

2) Escola ou canteiro?
Há coisas que só podem ser ensinadas na prática, na obra, em situações iguais ou similares às que serão encontradas no dia a dia. O ideal é criar condições para que o próprio canteiro seja também um espaço de aprendizado. E recorrer ao ambiente das escolas nos casos em que isso seja, de fato, necessário. “Depende da especialidade. No caso de eletricista ou encanador, uma sala especial talvez seja mais apropriada. Para o carpinteiro ou um azulejista, o canteiro pode ser mais interessante para aprender na prática, no próprio local de trabalho”, afirma Ishikawa.

Vale a pena mencionar também os crescentes recursos tecnológicos disponíveis, que permitem o ensino à distância por meio de diferentes plataformas, como computadores e, em especial, os celulares, amplamente difundidos entre os trabalhadores do setor. É um recurso adicional, capaz de complementar a capacitação presencial ou resolver aspectos específicos, sem a necessidade de deslocamentos ou a utilização do canteiro.

Dependendo do tipo de capacitação, conseguimos fazer até de graça, tanto aqui na escola quanto nas obras. Basta que a construtora se responsabilize pelo transporte dos alunos ou pela organização do canteiro para receber o treinamento
Abilio Weber

3) Subcontratados
A terceirização tem sido apontada como vilã quando se trata de promover o treinamento da mão de obra na construção civil nacional. Além de eventuais receios já mencionados – como “treinar para outros utilizarem” –, há uma correlação direta com a falta de tempo, observada no item acima. Os subempreiteiros, em geral, saem de uma obra direto para a outra, principalmente quando o mercado está mais aquecido.

O trabalho aqui começa, na verdade, pela capacitação dos subcontratados em aspectos de gestão e governança empresarial. Só a partir da consciência da relevância do treinamento para o sucesso do seu próprio negócio, é que esse prestador de serviço, muitas vezes sem a formação necessária, poderá se movimentar e utilizar o treinamento constante como diferencial de mercado. Algo difícil de colocar em prática, que demanda apoio e colaboração das construtoras e incorporadoras. O Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) possui todas as condições de oferecer esse tipo de suporte e treinamento em gestão.

4) Geração refratária ao trabalho braçal?
Há uma tese, bastante difundida nos últimos anos, de que as novas gerações não têm interesse em trabalho braçal ou, como se diz, por aí: “o filho de pedreiro não quer mais seguir o ofício do pai”. Há controvérsias a respeito. O diretor da escola SENAI “Orlando Laviero Ferraiuolo” – Construção Civil, Abilio Weber, tem uma visão um pouco diferente.

“O que afasta o trabalhador é a falta de respeito ou a desvalorização do seu trabalho”, afirma o diretor. “Temos muita gente nova fazendo cursos conosco. Garotos e garotas, todos bastante interessados na profissão”. Para Weber, nem todo o trabalho na construção civil precisa ser braçal. “Investir em novos equipamentos e mecanização, capacitando e treinando a mão de obra para a utilização adequada, certamente vai atrair muitos jovens interessados.”

As pessoas também perguntam:
Quando terceirizar ou manter equipes próprias na construção?

5) Custo
O volume de investimento necessário para treinar as equipes de campo também é um ‘fantasma’ que ronda as iniciativas de capacitação profissional na construção civil. Os empresários costumam achar que se trata de algo inviável, inatingível especialmente para as pequenas construtoras. Será mesmo? “Dependendo do tipo de capacitação, conseguimos fazer até de graça, tanto aqui na escola quanto nas obras. Basta que a construtora se responsabilize pelo transporte dos alunos ou pela organização do canteiro para receber o treinamento”, afirma Weber. “Para um curso mais específico, com 60 horas, o custo médio é de R$ 900 por aluno.”

6) Iniciativa própria ou setorial?
As duas maneiras são indicadas e necessárias. Até porque nenhuma ação setorial vai decolar se os gestores e os líderes das empresas não demonstrarem interesse em aderir. A união é importante para reduzir aquele receio de ‘vou gastar em treinamento para os outros aproveitarem’. O círculo vicioso de ‘não fazer nada para não beneficiar o outro’ pode se transformar em um círculo virtuoso, no qual ‘todos fazem para que todos saiam ganhando’.

Isso não invalida as ações específicas no âmbito de cada empresa. Principalmente, as grandes companhias, que possuem mais recursos e capacidade de mobilização, já têm realizado programas internos de treinamento. Mas a atividade da construção imobiliária no Brasil é extremamente pulverizada entre pequenas e médias empresas.

Somente um esforço conjunto de incorporadoras, construtoras, entidades, escolas, instituições especializadas em capacitação, governo, fabricantes de materiais, prestadores de serviços e subcontratados será capaz de reverter tal cenário no médio prazo. Ou, então, devemos nos preparar para reclamar, ainda mais, da falta de mão de obra qualificada no setor.

Carreira: qual é a sua sugestão de tema para o nosso espaço dedicado aos profissionais de Engenharia Civil, Arquitetura e Construção?

Colaboração técnica

Abilio Weber – Diretor da Escola SENAI “Orlando Laviero Ferraiuolo” – Construção Civil, é docente em processos industriais e especialista em educação profissional, com formação em pedagogia e MBA em gestão estratégica de instituições de educação profissional e tecnologia pela Faculdade de Tecnologia do SENAI/Florianópolis. Atua pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial desde 1989.
Haruo Ishikawa – Sócio-diretor da Haruo Ishikawa Engenharia, é vice-presidente de relação capital-trabalho do SindusCon-SP. Também é coordenador da Comissão Permanente de Negociação Trabalhista (CPN), membro do Comitê de Tecnologia e Qualidade (CTQ) e representante da entidade na Comissão Permanente de Relações Trabalhistas (CPRT) da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). Ex-presidente e atual conselheiro do Serviço Social da Construção (Seconci-SP).