Como o arquiteto pode atuar na indústria?

O setor industrial pode ser bastante promissor para a carreira do arquiteto. Entenda onde é possível atuar, as vantagens oferecidas e as principais habilidades requeridas nesta área.

Publicado em: 14/11/2023

Texto: Hosana Pedroso

Casa na tonalidade branca com três andares em 3D representando um projeto de arquitetura
(Foto: Adobe Stock)

Assim que se formou, em 2005, a arquiteta Paula Omizzolo cumpriu o roteiro idealizado por jovens arquitetos de trabalhar em escritórios de projetos. Logo teve a oportunidade, que abraçou, de atuar em distribuidores de materiais de construção a seco, como drywall e forros. Essa experiência abriu para ela a porta da indústria. Há 15 anos entrou para a equipe da Knauf Ceiling Solutions, onde hoje é gerente Técnica e de Especificação Sênior Latam, respondendo pela área da multinacional em toda a América Latina.

É com essa vivência acumulada que ela, em entrevista ao Portal AECweb, fala sobre o papel dos arquitetos na indústria, especialmente na área de especificação, que é a que mais absorve esses profissionais. O trabalho é, ao mesmo tempo, desafiador e compensatório. Exige conhecimento técnico, que acaba se acumulando ao longo da carreira através da participação em cursos, seminários e viagens, muitas vezes internacionais.

A opção pela atuação na indústria e não em escritórios de projetos representa segurança financeira, já que na maioria dos casos é pautada pela contratação formal. Entre as recomendações da arquiteta para os profissionais que almejam trabalhar no setor estão o perfil técnico comercial e uma boa oratória.

A seguir, confira a entrevista completa!

AECweb – Conte como você, arquiteta, passou a trabalhar na indústria.

Na empresa distribuidora em que trabalhei no início da minha carreira, tinha a função de visitar escritórios de arquitetura para apresentar os produtos de construção a seco que eram comercializados. Naquele período, conheci indústrias fabricantes de diversos tipos de materiais. Entre elas, estava a Knauf Ceiling Solutions que, na época, era a Knauf AMF. Em 2008, houve uma oportunidade de atuar na empresa na área de especificação, atividade diretamente relacionada com o trabalho dos arquitetos. Achei muito interessante, inclusive porque já conhecia os produtos, principalmente os forros acústicos. E aqui estou há 15 anos.

AECweb – Na Knauf Ceiling Solutions, como é o trabalho dos arquitetos?

Nós visitamos os escritórios de arquitetura e auxiliamos na especificação técnica dos projetos com nossos produtos. Na prática, discutimos com eles os projetos e verificamos qual a melhor solução para cada um dos ambientes. Diante da ampla gama de produtos, com diferentes performances, é fundamental ter o domínio das propriedades de cada um deles para orientar os projetistas. Atuamos, também, no desenvolvimento de mercado, visitando e ministrando treinamento técnico aos distribuidores. Afinal, são essas empresas parceiras que efetivamente vendem os produtos especificados por nós – a Knauf Ceiling Solutions não faz venda direta. Essa capacitação técnica também abrange os vendedores, arquitetos e instaladores, ação necessária, pois os forros têm várias características técnicas, principalmente de acústica.

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AECweb – No setor industrial, predominam as arquitetas?

De fato, tanto na Knauf Ceiling Solutions quanto nas indústrias que conheço predominam as mulheres arquitetas, principalmente na área de especificação. Não tenho informação concreta das razões, mas acredito que as mulheres se adaptam melhor à função. Já os arquitetos acabam indo para áreas mais comerciais.

AECweb – Quais as principais habilidades e competências necessárias aos arquitetos para atuar na indústria?

O arquiteto deve ter um perfil técnico comercial para trabalhar nesta área. Ou seja, eu não vendo produtos, mas os apresento aos arquitetos com base em todo o conhecimento técnico necessário, além da desenvoltura própria do comercial. Habilidade importante é ter boa oratória, pois é o arquiteto quem dá os treinamentos para diferentes públicos: o especificador, o vendedor e o instalador. Esse profissional vai aplicar todo o conhecimento de arquitetura para discutir o projeto, analisar as interfaces, verificar detalhamento da instalação. Se ocorre um problema na obra, é o arquiteto quem faz a vistoria, a análise técnica e os relatórios.

Habilidade importante é ter boa oratória, pois é o arquiteto quem dá os treinamentos para diferentes públicos: o especificador, o vendedor e o instalador
Paula Omizzolo

AECweb – Faz parte da carreira do arquiteto na indústria atualizar-se permanentemente em cursos e encontros técnicos?

Sim, fazemos vários cursos. Vou relatar minha experiência. Nesses 15 anos de Knauf Ceiling Solutions, cursei uma pós-graduação em Arquitetura Sustentável Bioecológica e outra em Neuroarquitetura, além de especialização em Acústica. Na minha área, o aprofundamento em acústica é essencial para que eu possa discutir um projeto que vai usar nossos produtos, que são focados em desempenho acústico. Esse é um conteúdo ensinado na faculdade, mas de maneira superficial. Precisamos entender de aspectos dos forros, como o comportamento frente ao fogo e, também, de refletância luminosa e suas normas técnicas. A Knauf Ceiling Solutions promove treinamentos contínuos tanto internos quanto fora da empresa, como gerenciamento de projetos, e nos apoia para cursos de pós-graduação, para que possamos nos especializar cada vez mais.

Homem posicionado à direita da imagem trabalhando em seu computador. Título do ebook na cor azul, posicionado à esquerda.

AECweb – O que atrai arquitetos para o setor industrial?

Os jovens que se formam geralmente vão trabalhar em escritórios de arquitetura, o que não é algo fácil. Mesmo aqueles que conseguem criar seus próprios escritórios podem levar tempo para se firmar. A indústria, por sua vez, é um setor sólido e está sempre inovando. Com seus conhecimentos, o arquiteto pode participar do desenvolvimento de tecnologia e de novos produtos, além de áreas como especificação e comercial. No meu caso, a oportunidade de entrar para a indústria me encheu os olhos, porque entendi que poderia exercer minha formação em arquitetura dentro de uma empresa consolidada, multinacional, que tem visão de futuro e preocupada com sustentabilidade.

AECweb – A indústria oferece mais segurança?

Se comparado ao trabalho em escritórios de arquitetura, a indústria dá mais segurança e estabilidade ao profissional. Nela, a contratação é formalizada, ou seja, seus direitos trabalhistas são assegurados, além de vários benefícios. Esse aspecto, com certeza, é um atrativo.

AECweb – Os profissionais têm que estar disponíveis para viagens frequentes?

Sim. No nosso caso, tanto para viagens internacionais, onde fazemos treinamentos e visitamos feiras e eventos, como para vários pontos do país com a missão de desenvolver o mercado e dar treinamentos. Isso não é problema para quem atua em indústrias com esse tipo de atividade, porque sempre há uma agenda, um planejamento.

AECweb – Há, na indústria, possibilidade de ascensão na carreira?

No setor da construção civil existem vários tipos de indústrias, com estruturas e hierarquias próprias. Em geral, o arquiteto pode ter um crescimento na carreira, passando de especificador para um cargo de coordenação e, depois, uma gerência técnica. Por outro lado, algumas indústrias são mais horizontais, sem tantos cargos.

AECweb – É frequente a desistência da carreira por arquitetos que trabalham na indústria?

Até agora, aqui na Knauf Ceiling Solutions, ninguém desistiu. Estão todos satisfeitos. É difícil generalizar, mas os profissionais da área de especificação de outras empresas com quem tenho contato trabalham na indústria há muitos e muitos anos. Alguns até trocam de empresa, saindo, por exemplo, de um fabricante de metais sanitários para outro de fachadas. Mas dificilmente saem da indústria.

Defendo que os arquitetos deveriam estar mais abertos à possibilidade de trabalhar na indústria. Porque essa é uma área muito boa, que traz ótimos conhecimentos técnicos e possibilita criar uma rede de relacionamentos profissionais, além de conhecer outros lugares
Paula Omizzolo

AECweb – Quais recomendações você daria a arquitetos que têm interesse em trabalhar na indústria?

Defendo que os arquitetos deveriam estar mais abertos à possibilidade de trabalhar na indústria. Porque essa é uma área muito boa, que traz ótimos conhecimentos técnicos e possibilita criar uma rede de relacionamentos profissionais, além de conhecer outros lugares. O arquiteto vai viver num mundo muito interessante, em que conversa com vários perfis: com o arquiteto, o instalador, o distribuidor, com um especialista em acústica e um projetista de iluminação, com um fabricante de outro material e com dono de empresa que quer usar o seu produto em suas instalações. É muito enriquecedor. O arquiteto cresce profissional e tecnicamente, porque precisa estar preparado para se comunicar bem para as apresentações. E, ainda, a enfrentar desafios, como o de metas de especificação por metro quadrado. Na indústria, há também vários projetos com os quais conseguimos nos envolver, como propor programas de relacionamento com os instaladores, por exemplo.

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Colaboração técnica

Paula Omizzolo – É formada em Arquitetura e Urbanismo na Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP (2005), com pós-graduação em Arquitetura Sustentável e Bioecológica e Neurociência Aplicada à Arquitetura. Com curso de extensão sobre acústica na Universidade de São Paulo. Com mais de 15 anos de experiência na área, é gerente Técnica e de Especificação LATAM na Knauf Ceiling Solutions.