Banner AECweb
menu-iconPortal AECweb

Como se tornar diretor técnico de construtora?

Formação em engenharia civil ou arquitetura, cursos complementares em gestão, experiência de campo, habilidade para lidar com pessoas e resiliência são requisitos valorizados

Publicado em: 08/08/2022

Texto: Eric Cozza

duas pessoas com trajes de proteção em canteiros de obra conversando
Tendências como a digitalização, industrialização e sustentabilidade se somam às demandas tradicionais recebidas pelos diretores técnicos, relacionadas ao custo, prazo e qualidade dos empreendimentos (Foto: Shutterstock)

A função de diretor técnico é encarada por muitos engenheiros civis como o topo da carreira. Existem cargos no mesmo patamar hierárquico e até acima no organograma de várias grandes companhias, mas para quem se enxerga como técnico, trata-se, em geral, do posto mais cobiçado.

Em construtoras novas, um dos sócios-fundadores – em geral, aquele com mais aptidão para os assuntos técnicos da engenharia – acaba assumindo a função, mesmo que ainda não tenha a experiência necessária. Alguns conseguem se desenvolver, acertam a mão e a empresa cresce. Outros submergem junto com a companhia recém-criada.

Os desafios são complexos e começam com a participação na concepção dos empreendimentos (construtoras/incorporadoras), ou a prospecção de obras (construtoras ‘puras’), concorrências, definições de projetos e sistemas construtivos.

A ideia é estruturar os fluxos, supervisionar os gerentes de obras e gerar uma série de indicadores para controlar o dia a dia e a performance dos prazos e custos. Cruzando dados dos nossos dashboards, conseguimos extrair rapidamente informações sobre as obras, acionar as equipes e procurar equacionar os problemas
Eng. Marcos Sarge

As atribuições prosseguem pelo licenciamento dos empreendimentos, a execução das obras e a assistência técnica após a entrega. Tudo isso, com fortes exigências de custo, prazo e qualidade. Multiplique pelo número de obras da construtora e terá dimensionado o tamanho da responsabilidade desse profissional.

O desafio é tão grande que, em alguns casos, é recomendável dividir a função, principalmente quando a complexidade e/ou o número de obras forem mais elevados. É o que pensa o engenheiro e consultor Maurício Linn Bianchi, que exerceu a função de diretor técnico por mais de 35 anos, entre a BKO Incorporadora e Construtora, da qual foi um dos fundadores, e o projeto Cidade Matarazzo.

“O diretor técnico pode ser responsável pelos projetos e soluções construtivas. Outro de engenharia pelo orçamento, custos, planejamento e análise de riscos e um terceiro, de construção, se encarrega da execução nos canteiros de obras”, recomenda Bianchi para empresas de maior porte.

Ser diretor técnico é um dom vinculado ao conhecimento, ao interesse em aprender e à experiência em campo. O profissional deve estar capacitado, por formação e vivência, a discutir com grandes profissionais da área de projetos na busca pelas melhores soluções técnicas para os empreendimentos
Eng. Mauricio Linn Bianchi

O engenheiro Marcos Sarge, sócio-diretor da Tallento Engenharia, acrescenta outras recomendações. Além de trabalhar com gerentes de obras, que podem se responsabilizar por até quatro canteiros – levando sempre em conta o porte das obras e a proximidade geográfica –, ele indica a administração por fluxos: comercial, orçamentos, suprimentos, financeiro e produção.

Tudo isso acompanhado de indicadores de desempenho para cada canteiro. “A ideia é estruturar os fluxos, supervisionar os gerentes de obras e gerar uma série de indicadores para controlar o dia a dia e a performance dos prazos e custos”, afirma Sarge. “Cruzando dados dos nossos dashboards, conseguimos extrair rapidamente informações sobre as obras, acionar as equipes e procurar equacionar os problemas”, conclui o engenheiro.

Mas, afinal, para encarar um cotidiano atribulado, marcado por uma série infindável de problemas para resolver, quais são os requisitos desejados pelas construtoras na hora de nomear ou contratar um diretor técnico? Confira a seguir 6 competências e habilidades valorizadas no mercado.

1) Conhecimento Técnico

Se você não se julga capaz de debater tecnicamente com o projetista estrutural, de fundações ou instalações prediais, talvez ainda não esteja preparado para exercer a função. “Ser diretor técnico é um dom vinculado ao conhecimento, ao interesse em aprender e a experiência em campo”, afirma Bianchi. “O profissional deve estar capacitado, por formação e vivência, a discutir com grandes profissionais da área de projetos, na busca pelas melhores soluções técnicas para os empreendimentos. Sem vaidades, mas também sem receios”, conclui o engenheiro.

2) Experiência e vivência de obra

Cabelos brancos não são garantia de competência, mas a falta deles pode ser crítica em momentos decisivos na gestão de empreendimentos e obras. A engenharia civil, assim como a medicina e o direito, são áreas do conhecimento no qual a experiência prática conta bastante. Isso não significa que jovens não devam ou não possam assumir postos técnicos de comando, mas sim que terão de compensar eventuais lacunas com ainda mais estudo, dedicação e a formação de equipes competentes. “Um dos desafios hoje é o espaço reduzido para erros, com margens apertadas e empreendimentos cada vez maiores”, alerta Sarge. “Um problema específico em um canteiro pode significar o fim de uma empresa”, completa o diretor da Tallento.

O pior erro que você pode cometer na direção técnica é sentar em cima do seu conhecimento e julgar que nada vai mudar. É um defeito que verificávamos no passado e que não podemos correr o risco de repetir, em hipótese alguma
Eng. Mauricio Linn Bianchi

3) Capacidade de aprendizado e atenção às tendências

Se a vivência em obras conta bastante, ficar desatualizado é ainda mais perigoso do que ser inexperiente. Por isso, são mandatórios o aprendizado contínuo e o aprofundamento teórico e prático em relação às principais tendências do setor, tais como a digitalização dos processos, o BIM (Building Information Modeling), a industrialização dos sistemas construtivos, o desempenho, meio ambiente, governança e impacto social etc. “O pior erro que você pode cometer na direção técnica é sentar em cima do seu conhecimento e julgar que nada vai mudar. É um defeito que verificávamos no passado e que não podemos correr o risco de repetir, em hipótese alguma”, alerta Bianchi.

Tem que gostar de gente a ponto de sentir falta quando não há ninguém por perto com algum problema para ser resolvido. E se cercar de uma equipe competente, comprometida com os objetivos da companhia
Eng. Marcos Sarge

4) Saber ouvir, mas também se fazer ouvido

A capacidade de liderança e a habilidade na gestão de diferentes tipos de pessoas, em posições e esferas distintas, são fundamentais para o diretor técnico. Para isso, ser extrovertido e ter uma boa capacidade de comunicação, oral e escrita, ajudam bastante.

Empatia com as pessoas, paciência e humildade para ouvi-las também são requisitos importantes. Assim como também é vital a autoridade – natural, não imposta – para se fazer ouvido quando é o momento da tomada de decisão.

A formação de boas equipes também é um trunfo no exercício do cargo. “Tem que gostar de gente a ponto de sentir falta quando não tem ninguém por perto com algum problema para ser resolvido”, aponta Sarge, de forma bem-humorada. “E se cercar de uma equipe competente, comprometida com os objetivos da companhia”, completa.

As pessoas também perguntam:
O que faz falta na formação dos engenheiros civis?

5) Resiliência

Essa palavra designa a capacidade de uma pessoa lidar com problemas, adaptar-se às mudanças e resistir à pressão oriunda de situações adversas, estresses ou eventos traumáticos. No caso do diretor técnico, o encaixe é óbvio: a cobrança é muito alta e se estende por assuntos variados, locais e pessoas distintas. Perder a paciência e, portanto, a razão é um risco frequente no cargo. Ou, na outra ponta, se retrair e acabar, involuntariamente, se afastando das pessoas.

Em momentos de instabilidade econômica e inflação setorial, como os vividos agora, eventuais descontroles e até distúrbios encontram ambiente propício para se desenvolverem. Trabalhar o autoconhecimento e o controle, buscar terapia e/ou apoio especializado, criar conexões com familiares e amigos e não enxergar crises como problemas insuperáveis são algumas das recomendações.

6) Foco nos resultados pactuados

Todos os itens anteriores são, em maior ou menor escala, relevantes para o exercício do cargo de diretor técnico. De nada adiantará tais competências e habilidades, se as metas da função não forem buscadas e alcançadas, com uma estratégia clara, pactuada com a companhia. O resultado financeiro dos empreendimentos, com uma gestão afinada dos riscos, costuma ser o pilar central.

Cada vez mais, entretanto, as empresas têm acrescentado novas dimensões, em sintonia com os princípios do ESG (do inglês environmental, social and governance ou, em português, governança ambiental, social e corporativa). “É preciso entender que estamos fazendo algo mais do que entregar obras com lucratividade e deixar o cliente satisfeito”, afirma Sarge. “Hoje temos que pensar no longo prazo, na sustentabilidade do planeta, na saúde dos colaboradores e no impacto das nossas ações em toda a comunidade”, conclui. Compreender esse novo cenário é essencial para os jovens profissionais que aspiram, um dia, ocupar a cadeira do diretor técnico.

Carreira: qual é a sua sugestão de tema para o nosso espaço dedicado aos profissionais de Engenharia Civil, Arquitetura e Construção?

Colaboração técnica

 
Marcos Sarge  – Graduado em engenharia civil pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e pós-graduado em gestão empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Possui também mestrado profissional pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT). Sócio-diretor da Tallento Engenharia, atuou também no Grupo Schahin e Brookfield.
LinkedIn: Marcos Sarge, MSc
 
Mauricio Linn Bianchi  – Engenheiro civil formado pela Universidade Mackenzie, é membro das direções do SindusCon-SP e da FIABCI (Federação Internacional Imobiliária) Brasil. Foi sócio-fundador da BKO Incorporadora e Construtora e diretor técnico e de construção do projeto Cidade Matarazzo.
LinkedIn: Mauricio Linn Bianchi