Cursar engenharia civil ou pós no Exterior: vale a pena?

Benefícios são evidentes. Clareza sobre os objetivos, pesquisa para detecção de oportunidades e planejamento financeiro são algumas recomendações importantes

Publicado em: 01/08/2022

Texto: Eric Cozza

duas pessoas com jalecos analisam uma maquete em uma mesa
Estudar fora para retornar e atuar no Brasil é muito diferente de viver e trabalhar no Exterior por prazo indefinido. Planejamento deve levar em conta objetivos profissionais e particularidades de cada país (Foto: Shutterstock)

Um currículo com experiência acadêmica em instituições de ensino reconhecidas em países desenvolvidos costuma ser valorizado pelos contratantes de engenheiros civis no Brasil.

O desejo de morar e trabalhar no Exterior também motiva muitos estudantes e profissionais a buscarem opções de curso superior, extensão universitária, mestrado ou pós-graduação mundo afora.

A tomada de decisão, entretanto, nem sempre é fácil. Há vários fatores a serem considerados e condições específicas de cada país, o que demanda uma pesquisa caso a caso.

Estudar fora do país de origem é sempre enriquecedor. Não apenas para o currículo, mas também como experiência de vida. Não é fácil encarar uma cultura diferente, dificuldades de adaptação e novos aprendizados
João Luis Casagrande, sócio-fundador da Casagrande Engenharia & Consultoria e PhD em engenharia civil pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa

O professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, Silvio Melhado, que realizou pós-doutoramentos na França, no Canadá e na Inglaterra, vê dois motivos para o sucesso e a atratividade desse tipo de intercâmbio: o primeiro é a valorização da experiência acadêmica no Exterior pelo mercado e as empresas contratantes.

A segunda razão é a boa performance que os estudantes e pesquisadores brasileiros costumam demonstrar nos países mais desenvolvidos. “Saímos de um ambiente complexo, instável, cheio de altos e baixos. Quando encontramos um cenário mais previsível e estabilizado, fica muito mais fácil”, pondera o livre docente da USP.

“Estudar fora do seu país de origem é sempre enriquecedor. Não apenas para o currículo, mas também como experiência de vida”, afirma João Luis Casagrande, sócio-fundador da Casagrande Engenharia & Consultoria e PhD em engenharia civil pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa. “Não é fácil encarar uma cultura diferente, dificuldades de adaptação e novos aprendizados. Sinaliza o potencial da pessoa”, complementa o empresário.

Recomendo muito cuidado ao se inscrever em um curso no Exterior. É importante verificar previamente a validade no Brasil. Infelizmente, há uma série de pequenas armadilhas como, por exemplo, fazer um master e descobrir, ao retornar, de que ele não tem aceitação como mestrado
Prof. Silvio Melhado, Escola Politécnica da Universidade de São Paulo

PARCERIAS INTERNACIONAIS DE ESCOLAS BRASILEIRAS

Para quem ainda não está formado, há sempre a dúvida: fazer a graduação em engenharia civil no Exterior ou pensar, depois de formado, em um curso de extensão, mestrado ou pós-graduação?

Um bom começo é examinar as opções de cursos em parcerias com escolas e universidades brasileiras, que permitem intercâmbios e até dupla diplomação, o que facilita o eventual exercício acadêmico ou profissional no Exterior, sem a necessidade de revalidação de diploma. Veja abaixo alguns exemplos:

Centro Universitário FEI
Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo
Escola Politécnica da Universidade de São Paulo
Universidade Federal da Bahia
Universidade Federal do Paraná
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Uma vantagem, nesses casos de parceria com escolas brasileiras, é a segurança do ponto de vista acadêmico. “Recomendo muito cuidado ao se inscrever em um curso no Exterior. É muito importante verificar previamente a validade no Brasil”, afirma Melhado. “Infelizmente, há uma série de pequenas armadilhas como, por exemplo fazer um master e descobrir, ao retornar, de que ele não tem aceitação como mestrado”, completa o professor.

Mas, afinal, o que o estudante ou profissional deve considerar ao tomar a decisão de fazer a faculdade, pós-graduação, mestrado ou outros cursos na área de engenharia civil no Exterior? Quais são os aspectos mais importantes?

CINCO RECOMENDAÇÕES PARA ESTUDAR ENGENHARIA CIVIL NO EXTERIOR

1) Defina muito bem o seu objetivo

Você quer fazer o curso, valorizar seu currículo e voltar para trabalhar no Brasil? Ou a ideia é permanecer e trabalhar no Exterior? A carreira que pretende desenvolver possui perfil acadêmico ou corporativo? Será a graduação inteira, parcial, dupla diplomação ou pós? Estabelecer o seu objetivo, de forma clara, é o primeiro passo no processo de análise. Sem isso, você pode tomar outras decisões erradas que, posteriormente, vão custar tempo e dinheiro. Evidente que, no meio do caminho, novas e atrativas oportunidades podem aparecer. Isso é ótimo, basta realinhar o planejamento. O problema é sair do País, deixando família, carreira e amigos para trás, sem saber direito o que se pretende com isso.

2) Pesquise oportunidades em diferentes países

Mapear bem as oportunidades pode ser a diferença entre alcançar, ou não, o objetivo traçado. Há chances de bolsas? Parcerias com escolas nacionais? Estímulo para estudantes estrangeiros? Se a ideia for mudar, há mercado para engenheiros civis? Qual é a política de imigração? Como validar o diploma? Tudo isso precisa ser bastante pesquisado.

Um exemplo interessante é Portugal. Considerado um dos países europeus mais baratos para morar, especialmente fora dos maiores centros urbanos, possui ótimas escolas a preços bastante competitivos, tem a facilidade da língua e costuma aceitar notas do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). De outro lado, se a ideia for trabalhar lá como engenheiro civil, o mercado não oferece muitas oportunidades no momento. “Há excesso de engenheiros em Portugal e, por isso, faltam empregos”, revela Casagrande. Então, com base no seu objetivo, avalie alternativas em diferentes países e localidades.

3) Domine a língua

Se morar em um país no qual não se fala a língua já não é simples, imagine, então, a dificuldade fazer um curso de alto nível. Algumas escolas exigem exames de proficiência, mas nem sempre. Sair do Brasil com nível avançado no idioma do curso é fundamental. E uma dica importante: vários cursos mundo afora, em países que não são de língua inglesa, são vendidos como se fossem dados em inglês. Verifique bem antes. Não confie somente no material de divulgação. Fale com alguém que já fez o curso e certifique-se sobre a questão da língua. Há relatos de situações em que a realidade dentro da sala de aula não condiz, exatamente, com o que foi divulgado.

Outro ponto importante: dada a predominância do idioma inglês no mundo, cursos em outras línguas acabam sendo menos procurados e, portanto, subvalorizados. Capacitar-se em outro idioma pode abrir oportunidades em centros bastante respeitados. “O governo do Québec, no Canadá, promove e incentiva o aprendizado do francês, inclusive com a possibilidade de auxílio financeiro para o estudante”, exemplifica Melhado.

As pessoas também perguntam:
O que faz falta na formação dos engenheiros civis?

4) Avalie a universidade e o curso que pretende fazer

Estudar em uma boa escola é algo bastante valorizado pelos contratantes na área da engenharia civil. Isso vale tanto para o Brasil quanto para o Exterior. Não é difícil para um recrutador verificar a reputação de qualquer faculdade no mundo. Para ter certeza da sua escolha, é recomendável conversar com profissionais mais experientes, pesquisar rankings internacionais confiáveis e, em especial, falar com ex-alunos. Lembre-se que uma boa escola não está imune de oferecer cursos ruins ou de qualidade inferior à sua reputação. Por isso, ninguém melhor do que os veteranos para avaliarem a qualidade e a relação custo-benefício. Faça contato com eles.

5) Tenha um bom planejamento financeiro

Estudar fora, em uma boa escola, é caro. Não tem jeito. E não dá para contar com a possibilidade de trabalhar, principalmente no curto prazo. A recomendação, portanto, é garantir os recursos necessários para o término do curso. Se isso não for possível, reavalie suas escolhas ou, se estiver mesmo disposto a arriscar, reserve o máximo possível de recursos (um ano, por exemplo) e verifique bem as regras de imigração e atuação profissional de estrangeiros, além das condições do mercado de trabalho local. Terminar um sonho com uma deportação é algo traumático na vida de qualquer pessoa. Outras dicas para tornar o curso mais econômico:

- Procure boas escolas fora dos grandes centros. Subúrbios e cidades do interior costumam ser mais baratas;
- Verifique bem a cotação da moeda local e, em especial, o seu poder de compra;
- Planeje em que local vai morar, onde se alimentar a um custo acessível e como vai se locomover com transporte público. Estude bem as alternativas mais econômicas, mas sem aventuras. Afinal, o barato, às vezes, sai caro;
- Prepare e verifique muito bem toda a documentação necessária antes de viajar. Surpresas nessa área costumam ser caras e, dependendo da gravidade, podem mandá-lo de volta para casa.

Carreira: qual é a sua sugestão de tema para o nosso espaço dedicado aos profissionais de Engenharia Civil, Arquitetura e Construção?

Colaboração técnica

 
João Luis Casagrande – Engenheiro Civil pela Universidade Santa Úrsula com ênfase em Estruturas. Presidente do Conselho da Casagrande Engenharia & Consultoria, com mais de 400 projetos no Brasil e no Exterior. Diretor de Pontes e Estruturas da ABECE (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural). PhD em engenharia civil pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa, Portugal.
LinkedIn: João Luis Casagrande
 
Silvio Melhado –Doutor em Engenharia Civil pela Universidade de São Paulo (USP), realizou também pós-doutoramentos na França, no Canadá e na Inglaterra. Livre-docente da USP, tem experiência em gestão do processo de projeto, gestão de empresas de projeto, gestão da qualidade, sistemas de gestão e certificação de sistemas. É autor do livro “Coordenação de Projeto de Edificações”.
LinkedIn: Silvio Melhado