Cuidados com o solo para implantação de painéis solares em terrenos

Por Filipe Antonio Marques Falcetta e Gisleine Coelho de Campos, pesquisadores do IPT

Publicado em: 29/03/2021

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Coordenação técnica: Adriana Camargo de Brito
Comitê de revisão técnica: Adriana Camargo de Brito, Cláudio Vicente Mitidieri Filho, José Maria de Camargo Barros, Luciana Oliveira e Maria Akutsu
Apoio editorial: Cozza Comunicação

29/03/2021 | 12:00 – Em grandes projetos, como os dos grandes conjuntos habitacionais, é de crucial importância a avaliação dos impactos no escoamento concentrado das águas superficiais em solos, porque nestas obras ocorrem grandes movimentações de terra e, por conseguinte, redução da permeabilidade da camada superficial do terreno e supressão de vegetação, com consequentes riscos de processos erosivos.

Esses processos se tornam ainda mais evidentes quando há a implantação de plantas solares, que consistem em um conjunto de painéis solares como os fotovoltaicos, dispostos sobre o terreno para a geração de parte da energia elétrica do empreendimento.

Ainda há carência de normas técnicas e diretrizes nacionais que tratem do tema, mas há bibliografias técnico-científicas que apresentam boas práticas de projeto e cuidados com o solo na implantação de plantas solares. De modo geral e em caráter orientativo, apresentam-se aqui algumas práticas recomendadas, considerando-se aspectos diretamente relacionados ao sistema de drenagem do empreendimento:

- Compactação do solo superficial: o processo construtivo das plantas solares envolve a compactação do solo e, em consequência, o aumento das taxas de escoamento superficial e a redução da erosividade do solo. Há casos onde se opta pelo uso de placas sintéticas, de material não permeável, nas áreas de sombra, combinado com canaletas de drenagem, para melhorar o escoamento e impedir a formação de sulcos erosivos.

- Camadas superficiais de solo: a movimentação intensa no terreno na fase construtiva pode levar à remoção das camadas superficiais mais férteis do solo. Como consequência direta deste fato, devem ser adotadas técnicas de contenção de erosão (canaletas de drenagem, por exemplo) e aplicação de técnicas de cultivo, tais como hidrossemeadura e irrigação constante, para garantir que novas camadas de grama sejam formadas entre as placas solares.

- Escoamento superficial: imediatamente após a construção das plantas solares e até que seja revegetada a área de implantação das mesmas, faz-se necessário o controle do excesso de escoamento superficial com a utilização de bacias de retenção localizadas ao final das linhas de placas solares, de modo a reduzir o pico das vazões de cheia e carreamento de material proporcionado pelo incremento na geração de escoamento superficial. Recomendações de espaçamentos para que as plantas solares possam ser instaladas com menor risco de produção de erosões podem ser vistas na Figura 1.

Figura 1- Recomendação para os espaçamentos e declividades de placas solares.

Solo
Fonte: Adaptado de Cook e McCuen (2013).

- Turbidez das águas: o escoamento superficial gerado pode ser importante agente poluidor de cursos d’água próximos aos empreendimentos. Desta forma, é importante prever uma estrutura de monitoramento da qualidade do efluente pluvial gerado pela planta solar antes de direcioná-lo ao sistema de drenagem.

- Acompanhamento periódico: recomenda-se ter uma equipe dedicada a verificar as condições das camadas vegetais, dos taludes, acessos, e estruturas de drenagem realizando ações de recuperação tão logo os primeiros sinais de erosão surgirem.

- Tratamento de processos erosivos: para os processos erosivos, faz-se necessária a adoção de técnicas corretivas tais como: disciplinamento das águas pluviais e de lavagem, visando reduzir a velocidade do escoamento e o efeito danoso da concentração dos fluxos de água em solo e tratamento do terreno com cimento ou aditivos que visem aumento da coesão, com consequente incremento da resistência das camadas superficiais, possibilitando a revegetação das áreas afetadas.

A energia solar constitui uma excelente fonte de energia alternativa e, com os cuidados e boas práticas aqui indicadas, pode ser implantada com sucesso nos empreendimentos habitacionais.

Colaboração técnica

Filipe Antonio Marques Falcetta – engenheiro Civil pela Universidade Estadual de Campinas (2010), mestre em Engenharia Civil – Hidráulica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (2015) e doutorando em energia pelo Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo. Desde 2014, é pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), atuando com modelagens hidrológicas. Também atua com modelagem hidráulica visando o dimensionamento e verificação de estruturas e projetos de drenagem, elaboração de manchas de inundação e em Pesquisa Operacional na área de hidráulica, tendo operado e aprimorado a formulação de modelos de otimização de sistemas de reservatórios desde 2012.
Gisleine Coelho de Campos – engenheira Civil pela Universidade de São Paulo (1990), com Mestrado e Doutorado em Engenharia Civil pela Universidade de São Paulo (1997 e 2002, respectivamente), na área de Geotecnia. Pesquisadora do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), atua também como professora e orientadora dos cursos de pós-graduação ofertados por esse mesmo Instituto. Realiza trabalhos na área de Geotecnia, com ênfase em Fundações e Escavações, tendo experiência no desenvolvimento de pesquisas e serviços técnicos especializados em fundações por estacas, instrumentação de obras geotécnicas, investigação geológico-geotécnica, ensaios em modelos reduzidos, inspeções técnicas de obras de infraestrutura e em temas relacionados à engenharia urbana e riscos. Atualmente é coordenadora do Programa de Mestrado Profissional em Habitação do IPT, responsável técnico do IPT – OIA (Organismo de Inspeção Acreditada de Obras de Infraestrutura) e membro da Comissão Técnica de Infraestrutura da ABRAC.