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Entulho incorporado em edificações

Fernanda Belizario Silva – Laboratório de Tecnologia e Desempenho de Sistemas Construtivos

Publicado em: 31/05/2021

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Coordenação técnica: Adriana Camargo de Brito
Comitê de revisão técnica: Adriana Camargo de Brito, Cláudio Vicente Mitidieri Filho, José Maria de Camargo Barros, Luciana Oliveira e Maria Akutsu
Apoio editorial: Cozza Comunicação

ficha de avaliação

31/05/20201 | 17:00 - A cena é comum: tão logo é feita a entrega de um empreendimento imobiliário, a rua em frente ao terreno é imediatamente ocupada por caçambas de entulho. Os moradores iniciam a reforma de suas unidades, o que frequentemente envolve retirar aquilo que acabou de ser entregue pela construtora: revestimentos cerâmicos que não agradam, paredes de dormitórios ditos “reversíveis”, esquadrias que separam a sala da varanda gourmet (que é fechada com vidros), bancadas, louças sanitárias, metais. Embora alguns desses componentes possam ser reaproveitados no mercado de materiais de segunda mão, uma parte significativa vira entulho.

Muito se discute sobre o desperdício de materiais na fase de obra, mas pouco se fala sobre o “entulho incorporado” nas edificações, que são esses materiais e componentes demolidos, que viram entulho assim que a obra é entregue. A remoção desses itens indesejados representa um transtorno tanto para o proprietário do imóvel, que precisa iniciar a reforma pela demolição desses itens, quanto para a vizinhança, que precisa conviver com a poluição sonora causada por marretas e marteletes. Além disso, essa geração de entulho representa um problema para a sociedade, tendo em vista que as caçambas ocupam um espaço público e o entulho é destinado a aterros de resíduos de construção e demolição, os quais apresentam um impacto ambiental e social significativo no seu entorno.

Entretanto, esses não são os únicos impactos gerados pelos “entulhos incorporados” nas edificações. Ao analisar o ciclo de vida desses materiais, constata-se que, ao serem fabricados, consumiram matérias-primas, energia e água, bem como geraram emissões atmosféricas, efluentes e resíduos sólidos. Depois, esses materiais tiveram que ser transportados até a obra, operação esta que requer o consumo de combustíveis e gera emissões de poluentes. Por fim, sua aplicação em obra também requer o consumo de energia, de água (por exemplo, na produção de argamassas) e gera resíduos sólidos decorrentes das perdas que ocorrem durante o processo de fabricação. Tudo isso para que o material tenha uma vida útil igual a zero.

Para que se tenha uma dimensão dos impactos ambientais gerados pela fabricação desse “entulho incorporado”, vale analisar alguns números. Considerando os indicadores de emissão de dióxido de carbono (CO¬2) e de potencial de aquecimento global (medido em kg CO2eq) apurados respectivamente para a fabricação de blocos de concreto (CBCS; ABCP; BLOCO BRASIL, 2015) e de uma argamassa de múltiplo uso (VOTORANTIM CIMENTOS, 2019), tem-se que a produção dos materiais necessários para 1 m² de parede equivale a um potencial de aquecimento global entre 9,0 a 15,3 kg CO2eq, conforme apresentado na Tabela 1 (esse valor não considera o transporte desses materiais até a obra). Supondo um dormitório reversível cuja área em planta seja de 2,50 x 2,00 m, com pé-direito de 2,70 m e uma porta de 0,70 x 2,10 m, a remoção de duas paredes implicaria em uma área de alvenaria de 10,7 m², que equivale a um potencial de aquecimento global entre 96 e 163 kg CO2eq para a fabricação da alvenaria que é demolida.

Tabela 1 – Cálculo do potencial de aquecimento global devido à fabricação dos materiais necessários para a construção de 1m² de parede de alvenaria de blocos de concreto com revestimento em argamassa

ficha de avaliação
* Variação entre fabricantes participantes do estudo de ACV modular de blocos de concreto. Embora esse estudo tenha contabilizado apenas as emissões de CO2, sem os demais gases de efeito estufa, é razoável considerar que, para materiais cimentícios, a emissão de CO2 é aproximadamente igual ao potencial de aquecimento global, medido em CO2eq, o que permite somar os valores do bloco aos da argamassa

Outro exemplo: segundo um estudo de Avaliação do Ciclo de Vida realizado pela Anfacer (Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica para Revestimentos, Louças Sanitárias e Congêneres), a produção de 1 m² de placa cerâmica para revestimento corresponde a um potencial de aquecimento global entre 3,37 e 9,24 kg CO2eq (INICIATIVA ANFACER + SUSTENTÁVEL, s.d.). Em um imóvel semelhante ao da Figura 1, com uma área de aproximadamente 70 m², dois sanitários e uma área de revestimento cerâmico aproximada de 70 m², a produção do revestimento cerâmico implica em um potencial de aquecimento global entre 236 e 647 kg CO2e, isso sem considerar a argamassa colante, tampouco o transporte desses materiais até a obra.

Isso significa que, para uma reforma de um apartamento médio, em que se removem algumas paredes e o revestimento cerâmico, é bem provável que o potencial de aquecimento global associado à fabricação dos materiais que foram descartados alcance a marca de 1 tonelada de CO2eq, haja vista que não foram contabilizadas as operações de transporte, a fabricação das esquadrias, entre outros itens. Considerando que a emissão anual de CO2 per capita no Brasil é de 2,2 toneladas (OUR WORLD IN DATA, 2021), o impacto ambiental desse “entulho incorporado” está longe de ser desprezível. Embora tenha sido analisado aqui o potencial de aquecimento global, o mesmo raciocínio se aplica a outros impactos ambientais, como o consumo de água, de materiais, entre outros.

Portanto, é evidente que as práticas de entregar acabamentos padronizados, sem levar em consideração a preferência do consumidor, e de oferecer opção de reversão de ambientes através da demolição de algumas paredes causam impactos ambientais negativos que vão além da geração de resíduos de construção e demolição. Isso é incompatível com o conceito de construção sustentável, ainda que muitos desses empreendimentos ofereçam “itens de sustentabilidade”. Por outro lado, evitar esses impactos ambientais é relativamente simples do ponto de vista técnico, embora haja alguns entraves burocráticos, como regras para concessão do habite-se pelas prefeituras e de financiamento imobiliário.

Uma opção seria realizar a personalização ou customização das unidades, oferecendo um cardápio de acabamentos ao cliente, tal como a opção “monte seu carro” oferecida pelas montadoras de veículos. Algumas empresas incorporadoras já oferecem esse serviço; no entanto, a personalização normalmente está restrita aos empreendimentos de padrão mais alto, que representam apenas uma pequena parcela dos imóveis. Embora a personalização exija mais da gestão da obra, os avanços em sistemas de gestão, tais como aplicativos, podem facilitar essa tarefa e viabilizar a adoção da customização em massa (mass customization) na construção civil. Além disso, modelos de negócios inovadores, que reúnam empresas incorporadoras, construtoras, fabricantes de materiais de construção e arquitetos podem impulsionar iniciativas de customização de edificações.

Por outro lado, caso a oferta da personalização não seja possível ou viável, há ainda a opção de entregar as unidades “no osso”, para que o proprietário aplique os acabamentos que mais lhe agradarem posteriormente. Do mesmo modo, ao invés de construir a parede do “dormitório reversível” para que depois o cliente faça a sua demolição, pode-se inverter a lógica, oferecendo uma área que pode ou não ser dividida, conforme sua necessidade. Tanto a personalização quanto a entrega do imóvel “no osso” permitiriam eliminar o “entulho incorporado” das obras, além de acelerar a execução e reduzir o custo da reforma para o proprietário do imóvel.

Entretanto, é necessário fazer uma ressalva para as habitações de interesse social e edifícios destinados à população de baixa renda. Nesses casos, entregar a unidade “no osso” pode gerar um prejuízo ao morador ou proprietário, pois nem sempre esse público tem condições financeiras de personalizar os acabamentos das suas unidades. Além disso, a ocupação rápida do imóvel após a entrega é uma necessidade. Por isso, deve-se ter cuidado ao alterar as normas e regulamentos que atualmente criam um entrave à entrega de unidades no osso, para não gerar um impacto social negativo na população mais vulnerável.

A questão da integração entre sala e varanda gourmet, que leva ao descarte de itens de alto valor agregado (esquadrias) e, em alguns casos, também à demolição de paredes, requer maior atenção. Dependendo do código de obras e da legislação do município, as varandas são consideradas áreas não computáveis. Desse modo, caso seu fechamento e incorporação à sala fosse considerado desde a concepção, haveria impacto sobre o projeto do empreendimento como um todo, bem como sobre a sua aprovação legal. Além disso, o “envidraçamento” da varanda, em conjunto ou não com o gradil (a depender da configuração de cada projeto), precisa atender aos requisitos de desempenho exigidos de vedações externas conforme a norma brasileira de desempenho de edifícios, ABNT NBR 15575-4 (ABNT, 2013).

Observa-se que não há dados quantitativos que permitam avaliar a frequência da realização de demolições em imóveis recém-entregues conforme suas características (localização, número de dormitórios, número de sanitários etc.), tampouco dados sobre quais itens são removidos dessas edificações. A existência desses números setoriais seria muito importante para delinear estratégias de mercado e políticas públicas visando reduzir a incidência de “entulho incorporado”, bem como para quantificar os benefícios ambientais dessas medidas.

A redução dos impactos ambientais causados pelo setor da construção é urgente. As projeções do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) indicam a necessidade de reduzir as emissões líquidas de CO2 a zero até o ano de 2050 para limitar o aquecimento global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais e, com isso, manter as consequências negativas das mudanças climáticas (por exemplo, o aumento do nível do mar) dentro de níveis aceitáveis (IPCC, 2018). A construção civil é responsável por 39% das emissões mundiais de CO2, sendo que parte dessas emissões ocorrem de maneira desnecessária, como no caso do “entulho incorporado” discutido no presente artigo.

Sendo assim, pode-se afirmar que a geração de impactos ambientais para a fabricação de produtos que são descartados antes mesmo de serem utilizados é inadmissível do ponto de vista ético e injustificável do ponto de vista técnico. Medidas simples, como a mudança das normas e regulamentos que levam as empresas a incorrerem em práticas ineficientes, bem como a consideração das necessidades do cliente desde a concepção do projeto, podem trazer uma grande contribuição para reduzir os impactos ambientais gerados pelo setor da construção, sem a necessidade de investimento em tecnologias avançadas ou de alto custo.

Referências

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 15575-4. Edificações habitacionais — Desempenho. Parte 4: Requisitos para os sistemas de vedações verticais internas e externas — SVVIE. 2013.

CBCS; ABCP; BLOCO BRASIL. Projeto Avaliação de Ciclo de Vida Modular de Blocos e Pisos de Concreto. 2015. Disponível em: http://www.cbcs.org.br/_5dotSystem/userFiles/ACV-m/CBCS_ACV-blocos-concreto.pdf

INICIATIVA ANFACER + SUSTENTÁVEL. Avaliação do Ciclo de Vida – Placas cerâmicas para revestimento [média nacional]. Disponível em: https://e1e7330f-cb85-4e1a-ba3f-413a4b27473f.filesusr.com/ugd/88821d_be0287419cff40e5821c34aea5ce7225.pdf

IPCC. Special Report on 1.5 degrees: Summary for Policymakers. 2018. Disponível em: https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/sites/2/2019/05/SR15_SPM_version_report_LR.pdf

OUR WORLD IN DATA. Per capita CO2 emissions – Brazil. 2021. Disponível em: https://ourworldindata.org/co2-emissions

VOTORANTIM CIMENTOS. EPD – Environmental Product Declaration. 2202 Matrix Revestimento Fachada, 2203 Matrix Projeção, 4201 Matrix Contrapiso and 5201 Múltiplo Uso by Votorantim Cajamar Unit. Registration number S-P-01122. 2019. Disponível em: https://portal.environdec.com/api/api/v1/EPDLibrary/Files/8f415234-5677-46b8-9461-fb503c4a84df/Data

Colaboração técnica

Fernanda Belizario Silva – é Engenheira Civil, Doutoranda na USP, Pesquisadora do Laboratório de Componentes e Sistemas Construtivos do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo, IPT.