O uso da habitação em tempos de pandemia: conforto ambiental e salubridade

Adriana Camargo de Brito, Cristina Yukari Kawakita Ikeda, Maria Akutsu, Laboratório de Conforto Ambiental do IPT

Publicado em: 25/06/2020

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Coordenação técnica: Adriana Camargo de Brito
Comitê de revisão técnica: Adriana Camargo de Brito, Cláudio Vicente Mitidieri Filho, José Maria de Camargo Barros, Luciana Oliveira e Maria Akutsu
Apoio editorial: Cozza Comunicação

conforto residencial
O estímulo para as pessoas permanecerem mais tempo em casa está atrelado ao conforto dos ambientes (foto: shutterstock/HilaryGraphic)

25/06/2020 | 15:58 - Na atual situação da pandemia de Covid-19, em que o isolamento social torna-se fundamental para reduzir a transmissão do vírus, muitas pessoas estão passando praticamente todo o tempo em casa, especialmente em cidades fortemente adensadas como São Paulo. Além disso, as residências estão sendo utilizadas para outras funções além das tradicionais, incluindo de modo mais significativo atividades de trabalho, estudo, exercícios físicos e lazer.

Nesse contexto, o conforto ambiental nos ambientes passa a ter uma importância ainda maior. Para estimular a permanência por tempo prolongado em um recinto, o usuário precisa sentir-se confortável do ponto de vista térmico, acústico, lumínico e ergonômico. Entretanto, há muitas residências que não oferecem condições mínimas de conforto, ou mesmo de salubridade – um grande problema em habitações precárias.

As habitações precárias comumente encontradas em favelas constituem um universo à parte, que não trataremos neste artigo, pois merecem uma atenção especial, dadas as dimensões de problemas relacionados ao desconforto e à insalubridade em qualquer época. Além da falta de saneamento básico, a proximidade entre habitações, com espaços diminutos, sem atendimento a fatores ergonômicos, a questões térmicas e acústicas, de ventilação, de iluminação e de segurança ao fogo (ABNT, 2013a), expõem a população a uma condição crítica. Especialmente neste momento, isso se torna um desafio ao setor público: como proteger essas pessoas de doenças?

Por outro lado, mesmo as habitações não precárias, em muitos casos também não apresentam condições adequadas de conforto ambiental e de salubridade para se exercer todas as atividades requeridas atualmente, principalmente se considerarmos a necessidade de convivência entre pessoas infectadas ou potencialmente transmissoras da Covid-19 com outras que estão no grupo considerado de risco pelas autoridades sanitárias.

1. Iluminação natural e escuridão

O acesso à iluminação natural durante o dia, bem como a escuridão de dormitórios no período noturno, são fundamentais para o funcionamento do corpo humano, por meio do ciclo circadiano, como destacado em muitas pesquisas (ENGWALLA et al, 2015; AKACEMA et al, 2016; KONIS, 2019; ALBINI, 2020). Além disso, a adequada quantidade e qualidade da iluminação são fundamentais para se exercer atividades cotidianas, especialmente as que exigem grande acuidade visual, como desenhos e leitura. Todavia, os fatores ligados à iluminação natural ou à escuridão, são alguns dos mais negligenciados nos projetos de arquitetura das habitações atuais.

Quanto à luz natural, é comum a ausência de aberturas diretas para o exterior em banheiros (com ventilação mecânica) e cozinhas (voltadas para áreas de serviço), além de salas escurecidas por sacadas desproporcionais ao tamanho da sua área de piso em apartamentos ou por coberturas de garagens de veículos em casas. No contexto das pessoas que trabalham ou estudam em casa, as condições de iluminação natural desses ambientes podem não atender aos critérios estabelecidos em normas específicas para essas atividades como a NBR ISO/CIE 8995-1 (ABNT, 2013) com necessidade de complemento com uso de luz artificial mesmo durante o dia.

Por outro lado, há excesso de luz disponível em muitas cidades no período noturno. É comum haver edifícios de escritórios que mantêm as luzes acesas a noite toda, edifícios variados com iluminação excessiva de espaços como quadras de esporte e estacionamentos ou em painéis de publicidade. Isso dificulta o total escurecimento dos dormitórios nos prédios vizinhos, seja por conta do uso de esquadrias inadequadas nas janelas ou pela ausência de cortinas tipo “blackout” que poderiam auxiliar a resolver esse problema. Dessa forma, além de desconforto no momento de dormir, a ausência de escuridão noturna pode prejudicar a saúde das pessoas, visto que é necessária para a produção de determinados hormônios e o adequado funcionamento do organismo.

2. Conforto térmico

Em edifícios ventilados naturalmente, como a maior parte das habitações brasileiras, dependendo do clima do local não é possível garantir o conforto térmico o ano todo. Entretanto, é viável conseguir condições térmicas mais adequadas ao conforto humano com um projeto arquitetônico bem elaborado e a utilização de componentes com comportamento adequado ao clima.

Geralmente, em locais com grande amplitude térmica diária, acima de 10°C, edifícios com alta inércia térmica, com componentes pesados, proporcionam recintos com comportamento mais adequado ao clima e, consequentemente, com maior conforto térmico para o usuário. Em locais com clima quente e úmido, com amplitudes térmicas diárias menores, elementos leves e cobertura com materiais isolantes térmicos são mais adequados, assim como em locais com clima frio é imprescindível o uso de materiais isolantes térmicos na envoltória para se reduzir a perda de calor. A norma brasileira NBR 15575 NBR 15575-1 (ABNT, 2013a) leva em conta essas questões na avaliação do desempenho térmico de habitações pelo método simplificado, exigindo componentes de paredes com maior capacidade térmica onde é requerida, nas Zonas Bioclimáticas 1 a 7, segundo a NBR norma 15220 NBR 15220 (ABNT, 2005), e elementos leves na Zona Bioclimática 8, com clima quente e úmido.

Atualmente há uma tendência do uso de elementos construtivos leves em decorrência de vantagens construtivas, o que proporciona edifícios com baixa inércia térmica, com comportamento inadequado ao clima de muitas cidades brasileiras, como São Paulo, por exemplo. As habitações construídas nessas condições podem resultar na necessidade do uso de sistemas de ar condicionado para garantir as condições de conforto térmico dos usuários.

O desconforto por frio ou por calor pode afetar a produtividade das pessoas que trabalham em casa e até mesmo as incentivar a sair de casa para buscar condições mais agradáveis. No contexto da atual pandemia, os usuários de edifícios inadequados ao clima têm poucos artifícios para melhorar suas condições de conforto térmico. Resta-lhes somente operar janelas e cortinas conforme necessidade, vestir roupas com isolamento térmico adequado ou usar equipamentos de climatização artificial, o que acarreta dispêndio significativo de energia em momento no qual muitas pessoas estão com problemas financeiros decorrentes de perda de empregos e redução de salários e jornadas. Além disso, o uso de sistemas de ar condicionado impõe hoje atenção especial à qualidade do ar, principalmente no que concerne à concentração de elementos potencialmente letais como a Covid-19. Esses cuidados vão desde o tipo de sistemas que garantam um mínimo de renovação do ar, como de aparatos capazes de promover a eliminação de agentes patogênicos nos diversos componentes dos sistemas de climatização.

Nesse momento é evidenciada a necessidade de construtoras terem maiores cuidados no projeto dos edifícios, sem o uso de padronizações, mas sim com adaptação dos edifícios ao clima de cada local para se produzir ambientes com mais conforto térmico para os usuários exercerem suas atividades. Portanto, projetar e construir edifícios que possam dispensar o uso de sistemas de condicionamento térmico, adequando-os ao clima local, é hoje mais do que um imperativo por questões de economia de energia, mas de saúde pública.

3. Conforto acústico

Com a redução da circulação de veículos em função da quarentena, a redução do ruído gerado nas cidades tem sido evidenciada pelo mundo (DICO, 2020; NUNES, 2020; PEREIRA e SOUZA, 2020; ZAMBRANO-MONSERRATE, RUANO e SANCHEZ-ALCALDE, 2020). De modo geral, isso é benéfico para a redução da poluição sonora na cidade. Entretanto, os veículos não são as únicas fontes de ruído que podem causar desconforto às pessoas. Como grande parcela da população está confinada em casa devido à quarentena, os ruídos gerados dentro da própria habitação ou em edificações próximas também podem ser percebidos, seja em transmissões aéreas ou por estruturas dos edifícios, principalmente se as vedações das habitações tiverem isolação sonora inadequada.

Há várias normas nacionais que tratam de questões relacionadas ao ruído. A NBR 10151 (ABNT, 2020a), que apresenta valores limites máximos para ruído urbano em função dos usos das edificações; a norma NBR 10152 (ABNT, 2020b), que indica valores de níveis máximos de pressão sonora no interior de ambientes e a NBR 15575, que estabelece valores limites mínimos da isolação sonora para fachadas de dormitórios, para paredes divisórias entre dormitórios de unidades distintas ou paredes de dormitórios voltadas para áreas comuns (ABNT, 2013b), além de valores limites para ruído de impacto e isolação sonora ao ruído aéreo de pisos (ABNT, 2013c). Embora essas normas possam auxiliar os projetistas na escolha de vedações adequadas para as edificações, visando limitar o nível de ruído no interior dos recintos, não levam em conta todos os aspectos relacionados à percepção do ruído pelas pessoas e à incomodidade.

Na conjuntura do isolamento social, é provável que muitas pessoas se sintam incomodadas por ruídos gerados no interior da própria unidade ou provenientes de unidades vizinhas, indicando novas necessidades a serem incorporadas pelos projetos arquitetônicos futuros.

Antes da pandemia, as preocupações de muitos projetistas eram proteger cada unidade habitacional de ruídos externos e de outras unidades. Com parcela significativa da população trabalhando em casa em conjunto com crianças estudando ou brincando, é fundamental que na habitação haja a existência de pelo menos um ambiente mais silencioso. Isso implicaria no uso de vedações externas e internas com maior isolação sonora na sua envoltória, incluindo portas e janelas com melhor desempenho acústico, o que não é usual em projetos de residências. É provável que mesmo após a pandemia, parcela significativa da população continue a trabalhar em casa, reduzindo a ocupação de edifícios de escritório, que já são preparados para se exercer

atividades profissionais, e passem a exercer suas funções em casa, surgindo assim, um novo paradigma de habitação, onde se mora, se tem lazer e se trabalha.

4. Ergonomia física e contato social

Os ambientes habitacionais atuais tendem a ser cada vez menores em comparação com edificações mais antigas, especialmente em grandes cidades. Apartamentos de um dormitório com ambientes integrados e área de piso de 20 m² a 40 m² tornaram-se artigos comuns em panfletos imobiliários. Mesmo nas habitações com mais de um dormitório, os ambientes são projetados para atender requisitos mínimos de circulação e uso, nem sempre com dimensões suficientes para se exercer todas as atividades necessárias ao funcionamento de uma habitação com conforto.

A NBR 15575-1 (ABNT, 2013a) estabelece que os recintos residenciais devem abrigar determinadas quantidades de equipamentos de mobiliário considerando espaços para circulação das pessoas que atendam aos requisitos de outras normas, como por exemplo, a NBR 9050 (ABNT, 2015). Na NBR 15575-1 (ABNT, 2013a) há referências de dimensões de móveis que, em uma pesquisa rápida em sítios eletrônicos de lojas populares, se descobre que nem sempre são compatíveis com os disponíveis no mercado, que apresentam dimensões maiores do que os previstos em norma. Além disso, há vários empreendimentos com cozinhas diminutas, nas quais só há espaço para instalar “cooktops” com duas bocas e um pequeno forno micro-ondas, limitando as escolhas pessoais do morador quanto à forma de preparo de alimentos. Há outros empreendimentos, que ainda excluíram a área de serviço individual, sendo substituída por um ambiente coletivo, geralmente localizado no pavimento térreo, com várias máquinas de lavar roupas posicionadas lado a lado.

No contexto da pandemia, tanto a falta de espaço na habitação quanto a existência de ambientes de uso coletivo para atividades básicas, como lavagem de roupas, são incompatíveis com o atual cenário mundial. Cozinhas que não dão a possibilidade de se cozinhar o que se deseja incentivam o morador a comprar alimentos preparados por outras pessoas, que não se sabe se estão tomando os devidos cuidados para evitar eventuais contaminações, colocando sua saúde em risco. As áreas de serviços coletivas também são outro fator de risco aos usuários, favorecendo o contato entre pessoas.

Aos que precisam trabalhar em casa, muitas habitações não possuem espaço suficiente para acomodar todos que precisam de privacidade para exercer funções profissionais ou de estudo com seus computadores e livros, gerando improvisações por parte do usuário, que acaba por exercer suas atividades sem posturas ergonômicas adequadas, colocando em risco sua saúde.

Diante de tudo isso, vale repensar tanto as exigências de normas relacionadas ao conforto e salubridade das pessoas, quanto ao escopo dos projetos de edifícios residenciais, para adequá-los às novas tendências que estão surgindo hoje.

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Referências

AKACEMA, L.D.; WRIGHT JR, K.P.; LEBOURGEOISA, M.K. Bedtime and evening light exposure influence circadian timing in preschool-age children: A field study. Neurobiology of Sleep and Circadian Rhythms, 2016; 1: 27–31

ALBINI, A. Circadian system. In: Molecules, Reaction and Health. Londres: Elsevier, 2020, cap. 4, p. 229-246.

ABNT. NBR 15220: Desempenho térmico de edificações Parte 3: Zoneamento bioclimático brasileiro e diretrizes construtivas para habitações unifamiliares de interesse social. Rio de Janeiro, 2005.

_________. NBR 15575-1: Edificações Habitacionais – Desempenho Parte 1: Requisitos Gerais. Rio de Janeiro, 2013a.

_________. NBR 15575-4: Edificações Habitacionais – Desempenho Parte 4: Requisitos para os sistemas de vedações verticais internas e externas — SVVIE. Rio de Janeiro, 2013b.

_________. NBR 15575-3: Edificações Habitacionais – Desempenho Parte 3: Requisitos para os sistemas de pisos— SVVIE. Rio de Janeiro, 2013c.

_________. NBR ISO/CIE 8995-1: Iluminação de ambientes de trabalho Parte 1: Interior. Rio de Janeiro, 2013.

_________. NBR 9050: Acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos. Rio de Janeiro, 2015.

_________. NBR 10151:2019: Acústica - Medição e avaliação de níveis de pressão sonora em áreas habitadas - Aplicação de uso geral. Rio de Janeiro, 2020a. (Versão corrigida)

_________. NBR 10152:2017: Acústica — Níveis de pressão sonora em ambientes internos a edificações. Rio de Janeiro, 2020b. (Versão corrigida)

DICO, J.L. Silence and the future sound of London. Financial Times, Londres, 27 de março de 2020. Life & Arts.

ENGWALLA, M.; FRIDHA, I.; JOHANSSONB, L.; BERGBOMA, I. LINDAHL, B. Lighting, sleep and circadian rhythm: Anintervention study in the intensive care unit. Intensive and Critical Care Nursing, 2015; 31: 325—335.

KONIS, K. A circadian design assist tool to evaluate daylight access in buildings for human biological lighting needs. Solar Energy, 2019; 191: 449–458.

NUNES, C. O melhor da quarentena? O silêncio. Expresso, Lisboa, 25 de abril de 2020. Lifestyle.

PEREIRA, P.; SOUZA, L. Quarentena reduz ruídos urbanos e muda sons da cidade de São Paulo. O Estado de São Paulo, São Paulo, 11 de abril de 2020. Saúde.

ZAMBRANO-MONSERRATE, M. A.; RUANO, M. A.; SANCHEZ-ALCALDE, L. Indirect effects of COVID-19 on the environment. Science of The Total Environment, 2020; 728.

Minicurrículo do autor

Adriana Camargo de Brito – é doutora em Engenharia Mecânica pela Universidade de São Paulo (USP), Mestre em Tecnologia do Ambiente Construído pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT) e arquiteta formada pela Universidade Paulista (UNIP). Trabalha no Laboratório de Conforto Ambiental do IPT desde 2006, atuando em avaliações e consultorias nas áreas de desempenho térmico, acústico, lumínico e ergonômico de edifícios. Também é docente do curso de Mestrado em Habitação do IPT.
Cristina Yukari Kawakita Ikeda – é arquiteta e urbanista, doutora pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP) e mestre pela Escola Politécnica da USP. Trabalha no Laboratório de Conforto Ambiental do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo desde 2009, atuando em avaliações e consultorias nas áreas de desempenho e qualidade acústica.
Maria Akutsu – é formada em Física pelo IFUSP, tem Mestrado pela EPUSP e Doutorado pela FAUUSP. Atua na área de Conforto Ambiental desde 1975 no IPT, desenvolvendo trabalhos de pesquisa e desenvolvimento, bem como de prestação de serviços tecnológicos e como docente no curso de Mestrado Profissional. Foi docente também em várias Instituições de Ensino e é colaboradora no desenvolvimento de Normas Técnicas na área de Desempenho das Edificações e na avaliação de Projetos de Pesquisa junto aos diversos órgãos de fomento do país.