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O que é curto-circuito e quais são as suas causas?

Fenômeno ocorre quando um caminho de baixa resistência recebe uma corrente elétrica de grande intensidade. Isso acontece, por exemplo, quando um fio energizado toca um objeto ou outro condutor que não deveria

Publicado em: 16/08/2022

Texto: Eric Cozza

foto de um curto circuito
Uma das principais causas de incêndios em edifícios no Brasil, os curtos-circuitos podem ser evitados com bons projetos elétricos, componentes de qualidade, atenção ao uso adequado das instalações e procedimentos de manutenção, realizados por empresas e profissionais habilitados (Foto: Shutterstock)

Curtos-circuitos em instalações elétricas de baixa tensão são um dos principais motivos para acidentes e incêndios em edificações no País. Esse tipo de problema pode ser causado pela falta de projeto, especificação de componentes inapropriados ou de baixa de qualidade, uso inadequado ou falta de manutenção das instalações.

Para nos ajudar a entender melhor o assunto, convidamos para participar do podcast AEC Responde o engenheiro eletricista e sócio-diretor do Grupo HMNews, Hilton Moreno. Professor, palestrante, autor e coautor de várias publicações, é consultor técnico de diversas entidades e empresas da área elétrica. Confira abaixo a entrevista.

AEC Responde – O que é curto-circuito? E quais são as principais causas desse tipo de problema?

Hilton Moreno – O curto-circuito é uma falha, um defeito na instalação elétrica. Ocorre quando o que chamamos de condutor vivo, que carrega lá os 110V ou 220V, entra em contato direto com outro condutor vivo. Ou quando ele toca o que chamamos de terra, a parte que normalmente não conduz eletricidade. Nesse momento, ocorre ali uma transferência de energia muito grande de um condutor para o outro ou para a terra. É isso que chamamos de curto-circuito. Interligam-se partes que, normalmente, deveriam estar isoladas uma da outra. Por um defeito, uma falha, elas acabam se juntando e isso gera uma quantidade de energia absurda. E esse é o problema: a energia liberada num curto-circuito, como você bem falou na introdução, pode causar, por exemplo, incêndios. É uma das principais causas no Brasil, segundo dados do Corpo de Bombeiros. De todos os motivos de incêndios, os principais estão relacionados às instalações elétricas. E, no âmbito das instalações elétricas, os curtos-circuitos constituem o principal problema. Não se trata, portanto, de um assunto teórico. Neste momento que nós estamos conversando, deve estar ocorrendo, em algum lugar, um curto-circuito que poderá causar um incêndio.

AEC Responde – O que costuma causar o curto-circuito?

Moreno – Há diversos motivos. Podemos dividir em dois grupos: o curto-circuito causado pela ação humana e aquele ocasionado por envelhecimento da instalação. O primeiro é quando alguém, por exemplo, pega duas pontas de um clipe metálico e introduz nos buraquinhos de uma tomada. Este é um exemplo extremo e intencional. Outra situação, mas involuntária: alguém está mexendo em uma instalação elétrica e acaba colocando um condutor em contato com outro. Premeditada ou não, foi uma ação humana. É um caso menos comum, mas possível, quando se está mexendo num chuveiro, numa lâmpada ou tomada. Acontece. O outro tipo, que é o mais comum, é o curto-circuito causado por envelhecimento da instalação. Quanto mais antiga, mais os materiais vão se degradando e ficando menos isolantes. Lembrando que eles estão ali exatamente para evitar o curto. Só que, com o tempo, esses materiais vão, naturalmente, se degradando ao longo da vida útil. Pode chegar um estágio no qual o material não isola mais nada e acontece o curto-circuito. Como eu evito isso? Manutenção. Eu preciso ficar de olho na vida útil, saber se está na hora de trocar para não ter um problema. Outro caso é no momento da instalação. Por exemplo, eu estou puxando um conjunto de fios, que encostaram em uma quina metálica e acabaram tendo a isolação dos cabos danificada. Por aquele corte vai escapar eletricidade e essa fuga de corrente, se eu tiver dois cabos danificados, um perto do outro, pode ocasionar um curto-circuito entre eles. Então, temos esses dois tipos de situação: um por acidente, falta de cuidado na hora de instalar e o outro pela degradação natural, com o tempo e a vida útil. Podemos mencionar um terceiro tipo, mais comum nos cabos elétricos, quando se trabalha muito tempo com sobrecarga. Suponha um cabo feito para conduzir 20 amperes e que está com 30 amperes a vida inteira. É como se estivesse trabalhando com febre o tempo todo. O resultado é a degradação do material isolante. Eu vou acelerando o fim da vida útil desse material por causa da sobrecarga. E aí chega um momento em que a isolação fica danificada e isso dá origem a um curto-circuito. Tudo isso pode ser resolvido com uma boa instalação, cuidado na execução e uma manutenção adequada.

Disjuntor caindo toda hora no quadro é um sinal de problemas, que vão se manifestar, mais cedo ou mais tarde. Ainda não é um curto-circuito franco, como chamamos. Ou seja, não aconteceu o problema para valer, mas o processo já começou
Eng. Hilton Moreno

AEC Responde – As instalações costumam dar algum tipo de aviso antes de apresentarem o problema? Como identificar?

Moreno – No caso do exemplo que eu dei agora, de sobrecarga na fiação, a instalação costuma dar avisos, sim. É aquela situação na qual você liga um determinado equipamento, eletrodoméstico ou motor e o disjuntor no quadro cai. Você liga e cai de novo, diversas vezes. Quando isso ocorre, é sinal de que há sobrecarga ou até já existe um curto-circuito acontecendo ali. Ou seja, há alguma coisa esquisita naquele circuito. É um sinal. Se isso não for resolvido, certamente vai evoluir para um problema maior. Disjuntor caindo toda hora no quadro é um sinal de problemas, que vão se manifestar, mais cedo ou mais tarde. Ainda não é um curto-circuito franco, como chamamos. Ou seja, não aconteceu o problema para valer, mas o processo já começou. No caso de envelhecimento da instalação, sem sobrecarga, aí não há aviso: a instalação vai se degradando até arrebentar de uma vez.

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AEC Responde – Uma vez ocorrido o curto-circuito, quais devem ser as providências a serem tomadas?

Moreno – O mais importante é que exista um dispositivo de proteção na instalação, capaz de abrir o circuito elétrico quando ocorre o curto: um disjuntor bem projetado, especificado de maneira correta. Tendo um disjuntor no quadro, as consequências de um curto-circuito serão quase nulas. O circuito será desligado e poderá ser consertado, sem risco de incêndio. Haverá somente um inconveniente, mas dará tudo certo. O galho é quando não tem proteção, não há disjuntor e nem fusível. Ou, o que é mais comum nos últimos tempos, ter um disjuntor ou um fusível mal dimensionado. Aí o curto evolui. Não consegue abrir o circuito e vai liberar aquela energia toda. E isso pode evoluir para um incêndio.

AEC Responde – Nesse caso, é um problema de projeto?

Moreno – Projeto ou execução. Às vezes, o projetista dimensionou errado. Em outros casos, porém, o projeto estava certo, mas um instalador executou de maneira equivocada. Por exemplo: o projetista especificou um disjuntor de 63 amperes e aí, na obra, só tinha um de 100. O instalador colocou o que tinha lá, de 100 amperes, e foi embora. Então, pode ser projeto ou execução. Como já disse, se existir a proteção certa, haverá apenas um pequeno inconveniente. Chama-se um profissional habilitado, ele identifica e resolve o problema. O que será feito depende de cada caso. Tem que analisar. Por exemplo, se o curto é localizado numa área do cabo, você corta, faz uma emenda e segue a vida. Se for em uma tomada, geralmente, troca-se por uma nova. Quando há disjuntor no quadro, não acontece grande estrago na instalação. Em geral, é possível substituir somente aquele componente e as redondezas dele. Quando não há proteção ou ela foi mal dimensionada, o problema pode se tornar generalizado. Aí você pode perder um monte de cabo, de componentes, ou até ter um incêndio. Você perde o controle da situação.

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Colaboração técnica

 
Hilton Moreno – Engenheiro eletricista pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, é sócio-diretor do Grupo HMNews. Atuou como professor de cursos de graduação e pós-graduação em instalações elétricas. Palestrante em congressos, seminários e cursos no Brasil e no Exterior, é autor e coautor de várias publicações entre livros, manuais, guias e de inúmeros artigos técnicos. Revisor da 5ª edição do livro “Instalações Elétricas”, de Ademaro Cotrim, é consultor técnico de entidades e empresas da área elétrica.