Banner AECweb
menu-iconPortal AECweb

Como se tornar um projetista de instalações hidráulicas?

Interesse na área desde a faculdade, perfil técnico e estágio nas empresas de projeto costumam fazer parte da trajetória desses profissionais

Publicado em: 06/09/2022

Texto: Eric Cozza

foto de vários projetos juntos, e uma mulher apontando para um projeto na tela do computador
Conhecimento técnico, capacidade de foco, concentração e visão ampla da área de tecnologia de edificações costumam ser requisitos valorizados (Foto: Shutterstock – Desenhos técnicos: INPrediais – Montagem: Cozza)

O fornecimento de água limpa e potável e a condução adequada do esgoto, sem riscos à saúde dos usuários, com sistemas hidrossanitários práticos, duráveis e de fácil manutenção. Esses são alguns princípios que devem nortear a atividade dos projetistas de instalações hidráulicas.

Em tempos de escassez hídrica e de grandes desafios ambientais, a questão da sustentabilidade também ganha espaço na agenda de trabalho desse profissional. Há, inclusive, normas técnicas específicas para a conservação de água em edificações, a NBR 16782.

Soma-se a tudo isso a revolução digital e o avanço do BIM (Building Information Modeling), que estão alterando a forma de pensar e trabalhar dos projetistas.

Com a crescente complexidade das instalações, motivada por edifícios cada vez mais altos e com múltiplos usos e funções, o projetista pode se posicionar como especialista não apenas na etapa de projeto, mas também no apoio técnico à execução dos sistemas hidráulicos nas obras.

O conteúdo específico da área nos cursos de engenharia civil, arquitetura ou tecnologia de edificações é muito superficial. Por isso, o aprendizado na prática é tão importante
Eng. Bruno Franzmann

FORMAÇÃO ACADÊMICA E APRENDIZADO NA PRÁTICA

Não há uma formação específica para os projetistas de instalações hidrossanitárias. O pessoal da engenharia hidráulica, por exemplo, costuma atuar mais na área de saneamento e recursos hídricos. Por isso, o mais comum é que engenheiros civis, arquitetos ou tecnólogos se especializem na área a partir de estágios e/ou atuação em empresas de projeto. O interesse costuma aparecer ainda na faculdade.

“Quase todos os profissionais que atuam ou trabalharam comigo foram meus alunos”, revela o engenheiro civil e professor da Universidade de Blumenau, Bruno Franzmann, sócio-diretor da Franzmann Engenharia e Consultoria. “O conteúdo específico da área nos cursos de engenharia civil, arquitetura ou tecnologia de edificações é muito superficial. Por isso, o aprendizado na prática é fundamental”, completa.

O processo não é rápido e exige esforço dos jovens profissionais e investimento das empresas de projeto nessa formação. “Costumam ser anos de dedicação para promover o aprendizado”, afirma o engenheiro Humberto Farina, diretor da INPrediais e professor convidado de cursos de extensão e educação continuada da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

A tendência dos empreendimentos é serem cada vez mais complexos e novos requisitos vem sendo exigidos por contratantes, legislações, certificações e concessionárias
Eng. Humberto Farina

COMPETÊNCIAS E HABILIDADES DO PROJETISTA DE INSTALAÇÕES HIDRÁULICAS

Como se preparar para entrar nessa carreira? Quais são os pré-requisitos e as habilidades valorizadas pelos contratantes na hora de selecionar os projetistas de sistemas prediais hidrossanitários? Listamos abaixo alguns pontos relevantes.

1) Conhecimento técnico

Prédios cada vez mais altos e empreendimentos imobiliários com múltiplos usos e funções (residencial, comercial, hotelaria etc.) exigem uma capacitação técnica elevada do projetista de instalações. O profissional passa a ser visto como especialista não apenas na etapa de projeto, mas também no apoio técnico à execução dos sistemas hidráulicos prediais e durante a manutenção, ao longo da vida útil das edificações.

“A tendência dos empreendimentos é serem cada vez mais complexos e novos requisitos vem sendo exigidos por contratantes, legislações, certificações e concessionárias”, destaca Farina. Por isso, assim como a vivência em obras, o conhecimento das normas técnicas relacionadas é essencial.

Veja algumas normas técnicas que o projetista de instalações hidráulicas deve conhecer

NBR 5626 – Sistemas prediais de água fria e água quente — Projeto, execução, operação e manutenção
NBR 8160 – Sistemas prediais de esgoto sanitário
NBR 10844 – Instalações prediais de águas pluviais
NBR 15526 – Rede de distribuição interna para gases combustíveis em instalações residenciais e comerciais
NBR 16981 – Proteção contra incêndio em áreas de armazenamento em geral, por meio sistemas de chuveiros automáticos – Requisitos
NBR 16782 – Conservação de água em edificações – Requisitos, procedimentos e diretrizes

2) Habilidade com sistemas

Conhecer os softwares CAD, em 2D, é primordial para iniciar a atividade. Serão muito importantes para a preparação de croquis e estudos, por exemplo. Em muitos escritórios de projeto, ainda são as ferramentas mais utilizadas até para a entrega final ao contratante. Parar por aí, entretanto, não é recomendável, visto que a representação gráfica tridimensional e os sistemas BIM, que permitem modelar o ambiente construído, vieram para ficar. Ainda mais em uma área como as instalações prediais, cuja compatibilização com as demais disciplinas, caso da arquitetura e da estrutura, é atividade central.

3) Fluência em BIM

Building Information Modeling é muito mais do que apenas operar software. Para avançar com o BIM em sistemas prediais, é necessário domínio profundo das ferramentas, mas também qualificação no processo de troca de informações, experiência em compatibilização e uso do IFC (formato de arquivo padrão para transferência de modelos BIM) e organização e padronização da base de dados.

“Esse tipo de conhecimento pode ser um diferencial muito forte para os jovens profissionais”, aponta Farina. “Hoje, em dia, com as tecnologias disponíveis e a complexidade dos empreendimentos, não consigo mais enxergar uma empresa ou profissional de projeto trabalhando apenas em 2D”, complementa Franzmann.

Falta ainda uma visão sistêmica, de projetar e construir bons edifícios e não apenas de trabalhar em disciplinas isoladas. Tudo é interconectado
Eng. Humberto Farina

4) Foco e concentração

Uma característica importante para o projetista de instalações, bastante mencionada pelos profissionais da área, é a capacidade de concentração, o foco nas atividades desempenhadas e a atenção aos detalhes. “Existem grandes engenheiros de obras que não teriam paciência para permanecer horas seguidas na frente de um computador. É uma questão de perfil”, aponta Franzmann.

Outra habilidade valorizada, que demanda um pouco mais de tempo e experiência, é conseguir visualizar mentalmente os projetos, antes da modelagem. “Antever a solução que se pretende desenvolver no projeto é algo muito difícil, mas que deve ser perseguido pelos profissionais da área”, afirma o professor.

As pessoas também perguntam:
Como se tornar um projetista de instalações elétricas?

5) Compreensão ampla das edificações

O profissional da área que se atém exclusivamente ao projeto de instalações hidráulicas, sem compreender a complexidade dos edifícios atuais, e ignora os desafios posteriores de execução e manutenção, corre o risco de se tornar obsoleto. “O profissional deve ter a capacidade de antever problemas e futuras patologias”, comenta Franzmann. “Precisa ter conhecimento de obra e se colocar no papel de quem vai executar, para encontrar as melhores soluções”, completa. “Falta ainda uma visão sistêmica, de projetar e construir bons edifícios e não apenas de trabalhar em disciplinas isoladas. Tudo é interconectado”, conclui Farina.

Carreira: qual é a sua sugestão de tema para o nosso espaço dedicado aos profissionais de Engenharia Civil, Arquitetura e Construção?

Colaboração técnica

 
Bruno Franzmann – Professor da Universidade de Blumenau, é sócio-diretor da Franzmann Engenharia e Consultoria, empresa que já projetou mais de 6 milhões de m2, sendo responsável por projetos de 7 dos 10 maiores edifícios do Brasil.
 
Humberto Farina – Graduado em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, com mestrado pela mesma instituição, é diretor da INPrediais, atuando em consultoria e inovações tecnológicas na área de Engenharia de Sistemas Prediais e Infraestrutura. Professor convidado de cursos de extensão e educação continuada da Poli-USP, é especialista em sistemas prediais hidráulicos, de energia, de telecomunicações e de prevenção e combate a incêndio.