Resíduos de construção podem ser reaproveitados em obras de pavimentação

Beneficiamento pode acontecer em usinas de reciclagem ou no próprio canteiro de obras. Saiba mais sobre os processos e os equipamentos envolvidos

Publicado em: 26/09/2018

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

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Resíduos de construção e demolição podem ser reutilizados na construção civil (foto: shutterstock.com / Barbara Ash)

Ao entrar em vigor em 2002, a resolução no 307 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) provocou transformações profundas na indústria da construção. Além de obrigar as construtoras a incorporarem sistemas de gestão dos resíduos em suas atividades, a norma tornou o descarte de materiais em aterros mais custoso, aumentando o interesse pela reutilização das sobras resultantes de serviços de construção, reformas, demolições, remoção de vegetação e escavações.

Hoje, os resíduos de construção e demolição (RCD) podem ser utilizados como agregados na produção de concretos não estruturais e em obras de geotecnia e pavimentação. Nessas obras, o RCD tem aplicação em camadas de reforço do subleito, sub-base e base de pavimentação, em revestimento primário de vias não pavimentadas e em reforço de solo.

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RECICLAGEM NO CANTEIRO OU EM USINAS?

A primeira pré-condição para a reutilização dos resíduos gerados em obras é a de que eles sejam do tipo Classe A. Enquadram-se nessa categoria as sobras de blocos, concreto, rochas e argamassa, por exemplo.

Há duas rotas de reaproveitamento possíveis. A primeira é instalar uma unidade de separação e tratamento no canteiro com equipamentos móveis para moagem e separação granulométrica. Essa alternativa é viável principalmente em obras de maior porte, com grande volume de produção de resíduos e espaço disponível no canteiro.

Também é possível recorrer a usinas de reciclagem que realizam a triagem e o beneficiamento do material das construtoras. Em obras de pavimentação, a compra de RCD diretamente de usinas é mais indicada, uma vez que esse tipo de aplicação demanda grandes volumes para aplicação.

“A utilização do RCD vem se tornando mais usual por causa de propriedades técnicas similares aos materiais convencionais e por fatores econômicos”, diz o engenheiro Valdir Moraes Pereira, pesquisador do Laboratório de Materiais de Construção Civil do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT). Segundo ele, o uso dos resíduos eleva a lucratividade das empresas e diminui impactos ao meio ambiente, seja porque reduz matérias-primas extraídas, seja pela diminuição da quantidade de resíduos gerados. Além disso, a reciclagem mostra que as empresas do setor estão comprometidas com a responsabilidade ambiental.

A utilização do RCD vem se tornando mais usual por causa de propriedades técnicas similares aos materiais convencionais e por fatores econômicos
Valdir Moraes Pereira

PROCESSO DE RECICLAGEM DE RCDS

Uma etapa fundamental para o sucesso da reciclagem de resíduos da construção é a triagem. Para executá-la de forma eficiente, o canteiro deve contar com áreas destinadas à separação e acondicionamento dos mais diversos materiais.

Como ocorre com qualquer material empregado em obras, o RCD deve ser adequado para seu uso. Por isso, deve ser submetido à caracterização e à avaliação de suas propriedades físicas, químicas, mecânicas e de durabilidade.

Um ponto crítico do uso dos resíduos de construção e demolição diz respeito à composição granulométrica do material. Outro cuidado é a determinação do teor de contaminantes do RCD, como materiais não minerais e teor de sulfatos. “Esse procedimento garante que o material utilizado não vá ocasionar contaminação do solo”, comenta Pereira.

O pesquisador do IPT lembra que os agregados reciclados possuem maior porosidade que os convencionais, o que exige um maior controle na adição de água, seja na preparação de concretos sem fins estruturais ou na determinação da umidade ótima quando utilizados em obras de pavimentação. “Alguns estudos demonstram que saturar o agregado com antecedência proporciona bons resultados para lidar com essa característica dos agregados reciclados”, afirma Pereira.

EQUIPAMENTOS PARA RECICLAGEM

Uma série de equipamentos vem sendo desenvolvida para viabilizar a reciclagem de resíduos de construção e de demolição. As máquinas dividem-se basicamente em dois grupos: as que se dedicam à separação de resíduos e as que realizam a britagem do material a ser reciclado.

Para a separação dos materiais indesejáveis (ferrosos, madeiras, plásticos etc.), podem ser utilizados separadores magnéticos, tanques de depuração por flutuação e classificadores por ar, que combinam forças gravitacionais, inerciais, centrífugas e aerodinâmicas para classificar os materiais. Há, ainda, as tecnologias de detecção por infravermelho, mais avançadas e de custo mais elevado.

Para a britagem dos materiais, a indústria disponibiliza britadores de impacto, de mandíbula e de martelo. Os de impacto têm como características a robustez e o alto poder de redução. Em contrapartida, têm alto custo de manutenção. Já os britadores de mandíbulas geram materiais mais graúdos e são indicados para britagem de rocha. Os britadores de martelo, por sua vez, produzem alta porcentagem de material miúdo e são mais utilizados como britadores secundários.

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Colaboração técnica

Valdir Moraes Pereira – Engenheiro civil com mestrado pela Universidade Estadual de Campinas. Atua como Pesquisador do Laboratório de Materiais de Construção Civil do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (LMCC-IPT).